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Abuso psicológico: A pedra fundamental da religião

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Esse foi um dos artigos mais difíceis que já me propus a redigir, não pela complexidade ou sensibilidade do tema, tampouco pela repercussão negativa que possa trazer (não sou movido pela opinião alheia), mas pelo conflito interno que gerou em mim e pela motivação que me levou a escrevê-lo. Para encabeçar, cito um trecho fundamental do livro do profeta Oseias, no Antigo Testamento:

“O meu povo é destruído porque lhe falta conhecimento”

Desde que a religião foi criada pelo homem (sim, a religião é uma criação humana), ela é utilizada como ferramenta de poder e dominação social, tanto que, na teoria iluminista da divisão de poderes, a separação entre poder político e religioso era quase uma unanimidade. Desde o século XVII, os teóricos perceberam que o poder religioso, por si só, tem um grande potencial de dominação e alienação social.

Historicamente, a vertente religiosa que mais fez uso do poder (e do abuso dele) para sua expansão foi o Cristianismo, que expandiu suas fronteiras junto com o Império Romano, se consolidando na Europa e espalhando-se por onde podia. Em nome de Deus muito sangue foi derramado. A principal “arma” utilizada pela igreja naquela época era o discurso de um “sentido” à vida e ao sofrimento terreno e, tal sofrimento, servia como passaporte para uma vida eterna livre de dores. Só pra constar, estamos falando do período entre o ano 476 e 1453. Quem discordava da igreja, “automaticamente” era lançado no inferno, para habitar com o diabo e seus anjos.

Note que o cristianismo é a única religião que tem “convicção” que só eles serão salvos e, por isso, precisa converter a todos.

Essa hegemonia de discurso foi quebrada pouco tempo depois, em 1517, quando Lutero, monge católico, resolve propor que o povo não precisava da igreja para entender a “vontade de Deus”, bastava que eles (o povo) tivessem acesso à bíblia, em linguagem acessível e de forma livre. Bom, seria um fim bem interessante, todos tendo autonomia de pensamento e livres do jugo da igreja, porém, o povo é burro! Entre as traduções da bíblia e as perseguições da igreja católica, surgiram novas igrejas, isso mesmo, se livraram de um problema e inventaram novos. A partir desse momento temos um cardápio de igrejas. É aqui que nossa sociedade atual começa a ser desenhada.

Muitas pessoas, inclusive cristãos, se perguntam o porquê da maior religião da História estar como é hoje, eu respondo, sem medo de ser feliz: Sem o abuso de poder, o cristianismo não é nada! Essa prática começa com seu pilar principal: o abuso psicológico. Sobre este, Friedrich Nietzsche escreve:

“O cristianismo surgiu para aliviar o coração; porém, precisa antes sobrecarregar o coração para poder aliviá-lo em seguida”


No seu primeiro contato com qualquer cristão, dentro e fora dos templos, a primeira iniciativa dele é tentar te convencer do qual inútil você é, o quanto a sua existência é sem sentido, como o seu estilo de vida está te levando à perdição, que suas roupas e vocabulário são inadequados e, em breve, você morrerá abruptamente e sua alma perecerá eternamente (lembra do discurso de 1600 anos atrás, bem parecido, né?), mas ele, só ele, tem a sua oportunidade de salvação. Esse abuso psicológico gera a sensação de que seu coração está sobrecarregado e que somente a igreja pode te aliviar. Abuso psicológico clássico, o mesmo utilizado por cônjuges violentos e pela Karol Konká.

De acordo com o doutor em psicologia forense Christian Costa, líderes religiosos, em geral, possuem perfil controlador e manipulador, que usam a fé como instrumento de imposição de poder, sem empatia, que não veem problema nenhum em explorar o sofrimento e fragilidade de seus seguidores com único fim de obter suas vantagens e resultados. Em resumo, o líder religioso padrão pensa da seguinte forma: Não me importo se outras pessoas estejam se destruindo para que minha vida fique “OK”.

Imagine o seguinte, em um bairro periférico, de classe média baixa, em que as pessoas, em sua maioria, sobrevivem com um salário mínimo, um pastor (após momentos de louvor intenso, línguas estranhas e frenesi coletivo – guarde esse cenário) sugere que Deus falara com ele que o piso da igreja deveria ser custeado de forma “extra” pela igreja. Que cada um deveria contribuir com um carnê mensal de valores entre R$ 100 e R$ 1.000 mensais. Durante o pedido, no mínimo indecente, tal pastor repetia incisivamente que todos deveriam participar, até aqueles que não tinham, pois, Deus ia fazer prosperar quem participasse.

“Aiiiiin, isso não existe, é coisa da sua cabeça”

Pois eu testemunhei tal reunião! Foi aqui em Porto Seguro, no Baianão para ser mais direto. Membros da igreja passavam necessidades para honrar com o tal carnê, afinal de contas, comer não é importante! Essencial mesmo é o piso faraônico de R$ 120.000,00, em mármore importada que seria colocada na igreja. Os líderes de hoje estupidificam e manipulam a teologia a ponto de violentar seus membros sem que estes percebam. Fazem uso da narrativa de que “se você der X hoje, amanhã Deus vai multiplicar por 10”, manipulando as pessoas através da ganância ou do genuíno instinto de melhorar se vida. Criaram uma liturgia perfeita para abusar psicologicamente das pessoas: reparem que clamores financeiros e a cesta da coleta só passam após a preparação emocional da plateia. Quando as emoções estão à flor da pele as pessoas agem sem pensar, abrem carteiras e assinam cheques sem raciocinar nas consequências.

Em outra igreja, também daqui da cidade, o pastor titular conseguiu convencer a igreja a custear uma viagem para Israel, Egito e Palestina, a custo de algumas dezenas de milhares de reais, para ele e sua família, sob o pretexto que Deus o levaria para cumprir a missão de orar pela igreja nas terras sagradas do Cristianismo. Um outro pastor famoso (e ligado à política nacional), veio aqui, alguns anos trás, estendeu um lençol e conseguiu convencer a plateia a doar o que tinham, inclusive sapatos e cartões de crédito (com senha). Sabe por que isso ainda acontece? Porque as instituições religiosas têm a certeza da impunidade de seus atos. O abuso é tão grande ninguém denuncia, movido pelo medo do castigo divino por “se levantar contra o ‘ungido’ de Deus”.

As igrejas, constantemente, fazem uso de abuso psicológico para incentivar a ignorância, as pessoas são impedidas de pensar autonomamente. Filosofia, Antropologia, Sociologia e a própria História são pautas proibidas nos templos, pois, uma pessoa pensante jamais daria palco para certas práticas, questionaria e, questionando, seria excluída do convívio e taxada entre seus pares.

A religião, através de suas práticas corriqueiras de manipulação, exerce um domínio tão grande que o indivíduo se torna incapaz de tomar suas próprias decisões. O século XX tem um caso icônico de abuso religioso, vos apresento Jim Jones:

Nosso personagem nasceu no estado da Indiana, EUA, em 1931, filho de um veterano da I Guerra Mundial com uma dona de casa. Como tinha poucos amigos, cresceu lendo, essencialmente, livros religiosos com pitadas Marx, Stalin, Hitler e Gandhi. Desde pequeno, fazia cultos fúnebres para animais mortos (quase um por dia). Em 1948, forma-se no ensino médio. Dedica-se, ainda mais, às práticas religiosas, sempre pregando a união entre as pessoas, o assistencialismo, enfim, o cara era cheio de boas intenções (e a gente sabe bem onde é que está cheio de boas intenções).

Em 1952, entrou para a escola de pastores Metodistas, ficou vislumbrado com a popularidade dos cultos e viu ali uma excelente oportunidade de negócio (olha que empreendedor). Em 1956, começou a reunir grandes multidões com suas pregações altamente politizadas e de cunho assistencialista (ele mantinha casas de repouso para idosos e deficientes mentais). Em 1959, foi expulso da escola de pastores e abriu seu próprio negócio: o Templo dos Povos: Igreja Cristã do Evangelho Pleno, levou seus seguidores consigo e continuou suas obras assistencialistas.

Pouco tempo depois, ele e sua esposa adotam 3 crianças (agora a história começa a ficar parecida com um certo enredo brasileiro). A partir de 1967, ele fica focado em discursos de que o mundo ia acabar através de uma arma nuclear, que o governo dos EUA queria exterminar todos os idosos e deficientes e que ele era a reencarnação de Jesus, Buda, Gandhi e Lenin (mistura, no mínimo, exótica). Para salvar seus seguidores, ele criou, na Guiana, o paraíso, onde todos estariam salvos: fundou a Jonestown, vilarejo exclusivo para seguidores de Jones.

Em Jonestown, ele adota dezenas de filhos de seus seguidores, ditava regras matrimoniais e promovia orgias entre ele e seus discípulos (não falei que ia ficar parecendo uma certa história brasileira). Além disso, ele retinha valores e documentos de seus fiéis. Os seguidores dele eram proibidos de sair da cidade, salvo se com autorização do próprio Jim. Só com Jonestown ele agregou mais de 7 milhões de dólares ao seu patrimônio, já milionário.

Em 18 de novembro de 1978, bem ao estilo Flordelis, ele manda matar seu próprio filho (que conseguiu escapar), um deputado americano, três repórteres e uma adolescente que fora estuprada por Jim. Sabendo das consequências que sofreria por ter matado um congressista americano, no mesmo dia ele realiza um culto, que ele denominara de “Noite Branca”, convence os adultos a envenenarem 276 crianças com cianeto em suco de fruta, instrui as famílias a se deitarem próximos uns dos outros e, também, se envenenarem. Foi o maior evento de suicídio coletivo da História: 908 mortos. Jim foi encontrado morto, com um tiro na cabeça (provável suicício).

“Aiiiiin, por que você narrou essa história horrorosa?”

Para contextualizar até onde vai o abuso psicológico praticado pelos líderes religiosos. Ok, hoje podem não existir outros Jim Jones promovendo suicídios por aí, mas você já parou para pensar quantas pessoas morreram porque deixaram de tomar seus remédios a mando de pastores curandeiros? Quantas pessoas contraíram COVID-19 e morreram por causa de aglomerações santas? Quantas mulheres são agredidas diariamente por seus maridos religiosos, mas não podem se divorciar para não serem “mal vistas”? Quantos estupros e abusos infanto-juvenis ocorrem nos lares cristãos que beiram a “perfeição”?

Não tenho nada contra os cristãos ou contra os religiosos, entretanto, tenho muita coisa contra a religião, suas imposições, sua ditadura da moral e suas boas intenções, que servem apenas para maquiar abusos, excessos, falcatruas e libertinagens. Como diria Freud:

“Quanto mais perfeito por fora, mais cheio de demônios por dentro”

Professor de Humanidades da rede pública, graduado em História, Geografia e Sociologia, especialista em Ciência Política e Antropologia, coordenador acadêmico e, agora, colunista DiBahia. Missões: Explicar o Brasil para os brasileiros e expor a hipocrisia das ELITES RELIGIOSAS de nossa região.

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Guns N’ Roses: banda vai se apresentar no Rock In Rio 2022

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Segundo o jornalista José Norberto Flesch, a banda norte-americana Guns N’ Roses será uma das atrações da próxima edição do Rock In Rio, que vai acontecer em setembro de 2022 (dias 2, 3, 4, 8, 9, 10 e 11). A informação foi divulgada em vídeo compartilhado pelo jornalista em seu canal do Youtube, na noite desta terça-feira (14 de setembro).

Por enquanto, as bandas de rock and roll e heavy metal confirmadas no festival são Iron Maiden, Sepultura, Dream Theater e Megadeth.

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