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A capitã, o capitão e o pênis

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Abrir a internet e ver que Redes Sociais e sites de notícias tem como assunto mais comentado a palavra “pênis” foi um susto. Maior ainda porque foi dito em uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado!

Parece desconexo, mas não é.

Juro que não queria falar de Política hoje, porém eles não deixam. Os neurônios ficam saltitando diante dos acontecimentos factuais.

O depoimento de Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde do Ministério da Saúde na CPI da Covid, nesta terça-feira, foi um debate sobre Cloroquina, teve onze “informações inverídicas“ segundo o relator Senador Renan Calheiros e áudios em que ela foi confrontada com suas opiniões. Em um deles, a médica disse que havia um pênis na porta da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição de pesquisa e desenvolvimento em ciências biológicas, vinculada ao Ministério da Saúde: “Tudo deles envolve LGBTI, eles têm um pênis na porta da Fiocruz”. O áudio foi apresentado pelo senador Randolfe Rodrigues, vice-presidente da CPI e confirmado pela depoente! O tal pênis estava numa faixa colocada na frente da instituição nas comemorações do 25 de maio de 2020, quando a Fiocruz completou 120 anos de idade. Acontece que o órgão sexual masculino visto pela secretária, era na verdade a logo comemorativa que representava uma das torres do castelo mourisco de 1918, sede da Fundação. O chamado Castelo das Ciências foi projetado pelo arquiteto português Luiz Moraes Júnior a pedido de Oswaldo Cruz, que se inspirou no Instituto Pasteur, de Paris.

Sinceramente, não dá para levar a sério alguém que vê um pênis numa obra arquitetônica cheia de História! A fixação fálica é impressionante. Um exemplo claro do que podem provocar problemas psicológicos e a falta de cultura, mesmo em pessoas estudadas.

Apelidada de Capitã Cloroquina, a secretária ainda afirmou que a culpa pelo colapso em Manaus é do vírus, isentando seu Ministério e Governo pela falta de oxigênio, de medidas preventivas sérias e de vacinas. Nesse caso, inclusive acho que o Coronavírus já deveria estar preso, cumprindo pena, bem longe da gente. E alguns Senadores chegaram a cair na cortina de fumaça de debater evidências científicas sobre a Cloroquina, quando deveriam focar que tratamento off-label não pode ser política ministerial. O ordenamento jurídico brasileiro não admite a formulação de políticas públicas a partir de tratamentos off label (nos termos do art. 19-T, II, da Lei n° 8.080/90).

Só que uma coisa é certa, Dra. Mayra tem convicção do que fala e nenhum medo de passar vergonha em rede nacional. Ah a Globo está perdendo muito em audiência. Por que insistir com o Big Brother Brasil, se temos a transmissão ao vivo da CPI para nos entreter?! Sim, neste reality a gente ri, chora, torce pelos mocinhos e se irrita com os vilões.

E por falar em vilões, temos alguns nesta semana. Os índices de extrema pobreza, mortes por covid-19, inflação, desemprego, desmatamento e valor do dólar bateram recordes novamente. Enquanto isso, onde estava o ocupante da cadeira da Presidência? Aglomerando no Maranhão onde foi detectada a cepa da Índia, que a OMS já classificou como preocupante por ser mais contagiosa. Não satisfeito, o capitão que deveria capitanear o país partiu para aglomerar no Rio de Janeiro passeando de moto com seu séquito de apoiadores verde-amarelos. Óbvio que sem máscaras, muito menos distanciamento. O governador maranhense Flávio Dino implantou regras no ano passado para contenção da pandemia, como distanciamento social e utilização de máscaras, por isso vai multar o presidente por desobedecê-las. O pau que dá em Chico, dá em Francisco. Dá também no general. O ex-Ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que defendeu máscara na CPI semana passada, domingo estava ao lado do presidente, desmascarado. O Exército quer explicações, já que militares de carreira não podem participar de atos políticos. A CPI também. Reconvocou Pazuello para depor.

Vendo o ato de domingo, matutei com meus botões sobre um personagem histórico. Fala-se que o ditador italiano Benito Mussolini se promovia e exibia sua virilidade em aparições públicas, onde pilotava motos, cavalgava e nadava vigorosamente. Qualquer semelhança com cenas recentes é “mera coincidência”? Aliás, cenas claras que já estamos em 2022, apesar do período de propaganda eleitoral não ter começado. Nada que o Tribunal Superior Eleitoral não saiba.

Encerro declarando minha solidariedade ao colega repórter Pedro Duran da CNN Brasil hostilizado durante o “passeio” presidencial.

Jornalista que sempre trabalhou em emissoras de TV, faz reflexões sobre História, Política, Meio Ambiente, Artes em geral. Tudo que der um estalo na mente!

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Sociedade

Como Enfrentar e Como Não Enfrentar a Desinformação

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Nos últimos tempos, especialmente de 2016 para cá, com as campanhas à presidência de Trump e Hillary, tem-se falado muito em notícias falsas — ou “fake news”— e seus potenciais danos à sociedade. É verdade que a mentira é um fato humano, onipresente na história desde o desenvolvimento da linguagem, mas, com as redes sociais, a difusão em massa de informações duvidosas e mentiras descaradas, o que por diversas vezes põe em risco a saúde e segurança daqueles que são enganados.

Quando falamos da difusão em massa das notícias falsas, no entanto, tendemos a nos esquecer que este é um problema que precede e muito as redes sociais. Talvez seja possível dizer que a União Soviética seja o primeiro exemplo disso. Para manter o povo fiel a si e fortalecer seu regime, Stalin decidiu reescrever a história, afinal, ele não podia permitir que Trotsky se tornasse um mártir. No entanto, Stalin mantinha um regime socialista, o que inevitavelmente traz problemas de escassez de recursos, frequentemente alimentos. Quando a fome na Ucrânia chegou a altos patamares, ele mais uma vez precisou ditar a “verdade”, e através de notícias falsas (e assassinato de denunciantes), escondeu toda a situação da população, criando praticamente uma realidade paralela.

Notoriamente, Hitler também chegou ao poder através de notícias falsas, fingindo e promovendo através de propaganda que havia uma conspiração para iniciar uma guerra entre judeus e alemães. Um fato importante de se perceber é: a difusão em massa de informações falsas é antiga e os estados foram pioneiros nessa prática. É inegável no entanto que com as redes sociais, essa prática se estendeu aos cidadãos comuns, mas, embora estejam sendo difundidas notícias falsas sobre todos os assuntos, a maioria possui motivação política. Os efeitos são caóticos: reputações são assassinadas, crenças equivocadas são instaladas e em 2020 a situação piorou, já que com a pandemia do novo coronavírus, a saúde das pessoas foi politizada, e consequentemente, a área da saúde tornou-se alvo de desinformação com fins políticos.

São incalculáveis os danos causados por essa desinformação, já que foram divulgadas mentiras sobre medicamentos, máscaras e vacinas. Grande parte da população, principalmente mais venha, foi induzida por informações transmitidas de maneira mal-intencionada a não cuidar da própria saúde nem se prevenir contra o novo coronavírus. É inegável o prejuízo causado pela difusão intencional de notícias e informações falsas, e deve ser um consenso que providências devem ser tomadas em relação a isso, o problema é a forma que se deseja combater isso. Hoje há diversos projetos tramitando no congresso nacional e em assembleias legislativas que visam punir aqueles que intencionalmente divulgam notícias falsas. Essas propostas quase sempre envolvem punir aqueles que divulgam intencionalmente as chamadas “Fake News”, para dessa forma, impedir o alcance das mesmas, no entanto, geralmente é ignorado uma premissa básica da política: todo poder dado será abusado.

Ao colocar nas mãos do estado o poder de punir aqueles que mentem, dá-se também ao estado de definir o que é verdade e o que não é, e isso pode facilmente tornar-se um bumerangue. Há um forte risco de um artifício como esse ser usado para calar vozes dissidentes. Como citado acima, Stalin combateu as Fake News, mas, é claro que para o estado soviético, mentira era tudo aquilo que ameaçava o regime, e Stalin tornou-se então dono da verdade e proliferou a mentira em uma taxa de contaminação superior à do coronavirus. Ao tentar fazer prevalecer a verdade através da coerção, podemos acabar num mar de mentiras.

Além disso, mentiras são de fato imorais, mas, salvo em casos onde a mentira em questão é uma fraude e há roubo implícito (como quebra de contrato e propaganda enganosa), não devem ser interpeladas judicialmente. Quase todo ser humano já mentiu, e uma lei que levaria todos a prisão não é uma lei aplicável. Pode ser que surjam defensores de que se prendam aqueles que espalham mentiras “mais graves”. No entanto, qual seria o critério objetivo parar distinguir uma mentira grave de uma leve? Fato é que na realidade isso não é prático, mas precisamos ainda encontrar a solução para um problema desse tamanho.

Nós, Brasileiros, temos de uma maneira geral uma péssima visão paternalista do estado. Acreditamos que quando há um problema, este deve ser resolvido com uma política pública, nunca por ações conjuntas e organizadas de indivíduos voluntariamente. Mas a verdade é que cabe a nós tentar conscientizar, auxiliar as pessoas a aprenderem a efetivamente checar e identificar uma notícia falsa. Mas acredito também que este é um problema que não perdurará muito. Quando paramos para analisar quem é enganado por essas informações duvidosas, vemos que de maneira geral são pessoas mais velhas, acima de 30 anos, mas os jovens de uma maneira geral são mais “resistentes” a esse tipo de engano, por terem crescido já junto a esta tecnologia recente. E por ser uma tecnologia recente, levará tempo para a adaptação geral, mas ela irá ocorrer.

Por fim, precisamos entender que mais de uma vez na história, políticas públicas destinadas a produzirem certo resultado acabaram por criar um cenário completamente oposto ao desejado, e não só com a questão da desinformação, mas em toda situação que queremos alterar, precisamos pensar as soluções com muito cuidado. Por fim, a solução e a responsabilidade reside em nós, e se desejamos mudar esse cenário devemos fazer cada um a sua parte e conscientizar as pessoas à nossa volta. Apesar da lentidão deste processo, é a única maneira legítima e, no longo prazo, eficiente, de fazer a desinformação perder força e a verdade prevalecer.

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