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Sociedade

A gente não quer só vacina, a gente quer vacina e dignidade…

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Sim… Dignidade…

Esta semana fui contemplada com a primeira dose da vacina, no plano de imunização contra a Covid-19. Trata-se de um momento que desejo a todas/os/es num espaço breve de tempo.

A imunização é o caminho para a dignidade. E digo isso porque o Brasil tem enfrentado uma dura batalha nesse processo, desde a aquisição, seu ingresso no território, planejamento de campanha de vacinação e até mesmo sua chegada aos lugares mais remotos deste país. Uma corrida que acirra gênero, raça, classe e nos informa sobre os abismos que as desigualdades cada vez mais latentes causam.

Aquele momento aguardando em uma fila de veículos para ser imunizada me trouxe muitas reflexões. A importância do respeito, do serviço público, da coletividade. Naquela espera, vi pessoas desrespeitarem filas, desrespeitarem o trabalho dos/as agentes de saúde, mas vi também a força de vontade de muitos/as/es para que o processo fosse efetivado. Vi o seu desejo de contribuir para resguardar a vida humana e combater um vírus que, fortalecido pelo negacionismo, pelos feitos necropolíticos e pela ignorância proposital, já levou mais de 400 mil vidas.

A vacina não só salva a vida como contribui para a devolução do direito à (sobre)vivência. Pessoas atravessadas pelas mais diversas fragilidades têm morrido, se não pelo vírus, pela fome, pela licença do Estado. O confinamento não é somente uma escolha, é também uma obrigação e também uma ameaça. Desde março de 2020, o número de casos de violência doméstica, feminicídio, suicídio aumentou expressivamente. Se analisamos esses números em grupos específicos, os dados são ainda mais assustadores. O número de violência contra crianças e adolescentes também é alarmante. Chacinas, invasões, balas “achadas” não deixaram de ocorrer ainda que o Supremo Tribunal Federal tenha determinado a proibição das operações policiais.

Aos mais fragilizados pelas mazelas sociais, a chegada da vacina é ainda mais remota, por conta de uma estrutura que vai na contramão do direito à vida dessas pessoas. Em uma CPI que vemos surpreendentes relatos de como se deram as decisões para a condução das políticas de saúde no contexto da Pandemia, é necessário apelar para o futuro.

Sim, um futuro em que acreditemos na possibilidade de uma mudança social, a partir de votos eleitorais que não nos sentenciem à morte, que garantam condições dignas de subsistência e sobrevivência, que sedimentem a educação básica para todos/as/es, que respeitem a ciência e a vida humana!

Isso não é pedir muito. Isso é sequer pedir. Isso é autocuidado!

É mãe do João Victor e da Flor de Maria. Mulher negra, filha de pai e mãe negros, mulher de axé, ativista social, professora e doutoranda. Membro da Academia de Letras de Porto Seguro, da Academia de Letras do Brasil e da Organização Universal Zulu Nation.

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Sociedade

O Nosso Muro de Berlim

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Após o final da segunda guerra mundial, como é de conhecimento popular, a Alemanha foi dividida, tendo o ocidente governado pelos Aliados, que eram capitalistas, e o oriente governado pela União Soviética, que era socialista. O muro erguido em Berlim marcava uma divisão essencialmente política: cada lado era regido por um sistema econômico diferente. No entanto, as divergências e polarização eram, de maneira geral, entre as autoridades, já que a população de ambos os países quase em sua totalidade desejava o capitalismo, além de possuir forte desejo de encontrar pessoas que haviam ficado do outro lado do muro. No Brasil hoje ocorre algo diferente. Nenhuma autoridade construiu muros entre nós, mas por iniciativa própria estamos incomunicáveis e nos vemos como inimigos.

Fato é que sempre houve divisão, divergências e atritos causados por política, e essas diferenças frequentemente se tornavam em ódio ou desprezo. Mas nunca no século XXI houve um momento onde esses sentimentos se tornaram tão universais e intensos. A internet e as redes sociais, que deveriam nos expor a uma quantidade maior de informação e, especialmente, a opiniões divergentes, na verdade nos acostumou a sempre estarmos reforçando nossos próprios pensamentos e tendo cada vez menos contato com pessoas com ideais diferentes dos nossos. Por estarmos sempre reforçando nossa própria opinião através do algoritmo das redes, vamos nos extremizando, nos tornando cada vez mais convictos e intransigentes das ideias que já defendíamos, fazendo com que qualquer opinião divergente da nossa pareça um absurdo.

Um fator triste, porém irônico e interessante, é que tanto as pessoas que se indentificam com o que se convenciona chamar de direita, quanto aqueles que estão à esquerda afirmam que o lado que eles se opõem é estúpido e maligno, como se não houvesse a possibilidade de uma pessoa bondosa e inteligente discordar de tal posicionamento. Isso nos custa caro, pois acabamos por, devido a meros posicionamentos políticos, nos afastarmos de pessoas genuinamente boas e frequentemente inteligentes, como se essas qualidades fossem definidas apenas pela ideologia que a pessoa segue.

No entanto, pesquisas na área da psicologia mostram que a diferença fundamental entre os indivíduos é a importância que dão a determinados valores. Pessoas “de direita” tendem a valorizar mais a justiça e a moralidade, enquanto as “de esquerda” dão maior importância ao bem-estar. Para exemplificar: para o típico “esquerdista”, é melhor um governo onde há corrupção, mas o bem-estar da população está mais elevado, que um onde não há corrupção, mas o bem-estar da população está mais baixo. Já o “direitista” genérico, acredita o contrário. Essas pesquisas mostram que é um falso testemunho quando um lado acusa o outro de não ter princípios, quando na verdade, apenas se altera a relevância que cada um dá a eles. É importante ressaltar que essas informações não foram deliberadamente expostas aqui sem qualquer base, e que a quem interessar, o livro A Mente Moralista e o artigo When Moral Opposes justice, sendo o livro de Jonathan Haidt e o artigo uma co-autoria entre ele e Jesse Graham, ambos psicólogos sociais.

A diferença tampouco parece ser uma questão de inteligência, pois, embora, como pesquisas do professor Marcus Kemmelmeier mostram, a diferença de QI não é tão discrepante, e, caso comparemos dois grupos, sempre haverá uma diferença na média de QI. O que de fato acontece é que, por nos ser dada a opção de nos fecharmos numa bolha ideológica, nos parece agora estranho e absurdo ideias das nossas, fazendo com que a política crie um abismo entre as pessoas. Infelizmente, não há atalho para resolvermos esse problema, e já estamos sofrendo as consequências. E esta é uma questão que se retroalimenta: quanto mais um indivíduo se fecha de opiniões divergentes, mais ele desenvolve ódio e desprezo por essas ideias, e mais vontade sente de se fechar.

Algo que nos permite criar esperança é que a pouquíssimas pessoas essa situação, e com o desconforto essa situação pode mudar, mas só se compreendermos que as pessoas que discordam de nós não são necessariamente más ou burras e ainda mais importante: também querem o melhor pro país. Não devemos deixar de conversar sobre política, muito menos concordar em tudo, mas entendermos que é aceitável e normal que discordem de nós, e devemos, sim, discutir com quem pensa diferente de nós. Porém, é difícil convencer uma pessoa quando se está, na verdade, brigando com ela, quando, de fato, seu objetivo não é convencê-la, mas esmagá-la. Todos estamos cansados desse mar de tensão, desconfiança e conflito que se instaurou, e por isso, devemos nos esforçar para mudá-los, olhando também nossos “inimigos” com olhos humanos, pois, sem a compaixão, não há como quebrarmos esse muro de ódio e desprezo.

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