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Mui Amigos

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Fidel, o então Governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães e Antônio Imbassahy,
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Três fotos registram personagens históricos e suas relações esdrúxulas. Na primeira, o Presidente de Cuba, Fidel Castro, a então Prefeita de Salvador, Lídice da Mata e o seu Secretário Municipal de Comunicação, Domingos Leonelli. Não identifiquei os outros dois, nem o fotógrafo. Na segunda foto, feita pela Agecom no Palácio de Ondina, estão Fidel, o então Governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães e Antônio Imbassahy, na época presidente da Coelba (sendo preparado para a Prefeitura de Salvador). A terceira foto é o registro oficial de vários chefes de estado no Pelourinho.
Eu presenciei parte desses momentos. Não apareço nas fotos, óbvio, mas estava trabalhando como jornalista nesta cobertura e vou aproveitar para contar a minha historinha sobre estes amigos improváveis.

Em 1993, o Comandante Fidel fez sua primeira visita a Salvador para participar da Terceira Cumbre, a Conferência Ibero-Americana de Chefes de Estado e de Governo, a Cimeira ou Cúpula, uma reunião anual das maiores autoridades dos Países de língua portuguesa e espanhola na Europa e na América. O tema foi a inclusão social como rota de desenvolvimento e foram debatidos cooperação política e financiamento para educação, combate à pobreza e saúde (com a AIDS como questão central).

A conferência aconteceu em 15 e 16 de Julho de 1993. Eu era repórter da TV Itapuan/SBT e fui escalada para cobrir parte da visita de Fidel. Era a realização de um sonho inimaginável, estar perto de uma lenda viva e, acima de tudo, um ídolo. Como todos da esquerda, nos anos 1990 eu admirava muito aquele revolucionário. Hoje tenho outra visão sobre Fidel, mas é indiscutível a excepcionalidade daquele homem.

A minha pauta começou no dia 14 com a chegada da Comitiva Cubana na Base Aérea de Salvador e foi frustrante. A organização colocou a Imprensa num cercadinho de onde não podíamos sair e só vimos o ilustre visitante bem de longe.

Mas, logo em seguida havia o primeiro compromisso oficial na agenda presidencial, uma entrevista coletiva no principal salão de convenções do Hotel Othon Palace em Ondina. Uma coletiva meio estranha, já que não haveria perguntas.

E lá estava ele! Vestido no seu indefectível uniforme militar, Fidel Castro, sentou-se à imensa mesa e pôs-se a falar naquele espanhol cubano, que não é nada fácil de entender. Na plateia, centenas de jornalistas de todos os veículos e de vários países. Se não me falha a memória, os radialistas ficaram mais próximos da mesa para capturar o discurso em seus imensos gravadores. Logo em seguida sentaram os repórteres de impressos e tvs. s câmeras e fotógrafos ficaram lá no fundo. Eu preferi ficar entre eles.

O mito (este, sim, merecia tal designação) falou possivelmente por horas, sem interrupção dele ou nossa. A audiência estava silenciosa e atenta, mesmo com a maioria não entendendo o que ele falava. O carisma do Comandante era impressionante e hipnotizante, nunca vi igual. A fala forte, inteligente e acompanhada de gestos largos tinha uma linguagem universal, era como um sol. O leonino de 13 de Agosto de 1926 brilhava e seduzia a todos. A impressão que tenho até hoje é de um homem muito alto (ele tinha 1,91m de altura), de ombros largos e com uma simpatia cativante.

A assessoria de imprensa havia nos avisado que não seriam permitidas entrevistas individuais e assim que terminasse de falar o líder cubano ia se retirar.

Eu estava com meu cinegrafista no fundo da sala perto da porta de saída e antevi o caminho que a comitiva seguiria. Enquanto Fidel se despedia, corri e consegui interceptá-lo na porta lateral quando saia. Fiz uma pergunta boba, tipo “o que está achando da Bahia?” e coloquei o microfone para a resposta. O que descrevo parece que demorou, mas tudo se desenrolou muito rápido. E foi num átimo de segundo que senti a mãozona de um dos seguranças dele batendo no meu braço e me afastando do meu alvo. Lembrando que os seguranças cubanos eram enormes e treinados pela KGB, o Serviço Secreto da antiga União Soviética. E qual não foi minha surpresa e do guarda-costas, quando o Comandante em Chefe o impediu de me empurrar e disse que me responderia. Uau… Foi apenas uma frase simples, algo como “estou adorando a Bahia e os baianos”, mas significou tanto para mim… A essa altura, outros colegas já estavam à nossa volta e também perguntando várias coisas. Porém, o grupo já ia embora em direção ao segundo compromisso da agenda.

A diplomacia de Fidel Castro mantinha relações bem amplas como forma de sobreviver ao cerco econômico dos EUA a Cuba e a deterioração da União Soviética. E tal qualidade o levou a um almoço no Palácio de Ondina, residência oficial do não menos magnético Governador Antônio Carlos Magalhães do PFL. O relacionamento desses dois opostos ideológicos teve início quando ACM era Ministro das Comunicações no governo do Presidente Sarney e intercedeu pessoalmente para que os dois países reatassem relações diplomáticas. ACM também ajudou na montagem do sistema de telecomunicações em Cuba. Uma amizade quase impossível, entretanto verdadeira e duradoura!

O líder comunista se reuniu a portas fechadas com o líder da direita brasileira (uma não tão odiosa como a atual) e eu queria ser uma mosquinha naquela sala para ouvir a conversa daqueles dois. Mas, nós da Imprensa ficamos mesmo foi aguardando num cômodo ao lado e fomos servidos com o mesmo cardápio das autoridades. O prato principal foi um delicioso Arroz de Hauçá, um dos melhores da culinária baiana (que inclusive aprendi a fazer). Vatapá, caruru, moqueca, efó, bobó de camarão. A comida do Palácio de Ondina era incrível e a cozinheira Rosa chegou a ser convidada para ir trabalhar para o presidente cubano.

Depois de tudo isso, não tivemos outras grandes emoções e assim encerrei a pauta de quase um dia inteiro, mais do que satisfeita em todos os sentidos. Esta é uma memória hoje meio embotada pelos 27 anos de distância, talvez já não tão fiel, mas certamente uma das mais importantes da minha vida. História de uma Era, prova de que opostos se atraem e podem conviver pacificamente, como o Velho que se tornou amigo do Guerrilheiro, assim como teve uma longa amizade com Fernando Santana do PCB e PPS a quem apelidou de Nikita (nome do líder soviético).

Fidel teve mais duas passagens pela Bahia em 1994 e 1998, rápidas, de cerca de 24 horas, mas nas quais fez questão encontrar o amigo ACM no edifício Stella Maris, no bairro da Graça, o que deixava a turma da esquerda enciumada.

Outros tempos, onde a polarização política não era tão acirrada. Algo impossível de se ver hoje no Brasil. Antônio Carlos Magalhães morreu em 20 de Julho de 2007 aos 79 anos. Fidel Castro morreu em 26 de Novembro de 2016 aos 90 anos. Devem estar em algum lugar (no céu para uns, no inferno para outros) espantados com tudo que vem acontecendo no mundo.

Jornalista que sempre trabalhou em emissoras de TV, faz reflexões sobre História, Política, Meio Ambiente, Artes em geral. Tudo que der um estalo na mente!

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Cursos Online

    19 de Junho, 2021 at 12:06

    Sou a Marina Da Silva, gostei muito do seu artigo tem
    muito conteúdo de valor parabéns nota 10 gostei muito.

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O Nosso Muro de Berlim

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Após o final da segunda guerra mundial, como é de conhecimento popular, a Alemanha foi dividida, tendo o ocidente governado pelos Aliados, que eram capitalistas, e o oriente governado pela União Soviética, que era socialista. O muro erguido em Berlim marcava uma divisão essencialmente política: cada lado era regido por um sistema econômico diferente. No entanto, as divergências e polarização eram, de maneira geral, entre as autoridades, já que a população de ambos os países quase em sua totalidade desejava o capitalismo, além de possuir forte desejo de encontrar pessoas que haviam ficado do outro lado do muro. No Brasil hoje ocorre algo diferente. Nenhuma autoridade construiu muros entre nós, mas por iniciativa própria estamos incomunicáveis e nos vemos como inimigos.

Fato é que sempre houve divisão, divergências e atritos causados por política, e essas diferenças frequentemente se tornavam em ódio ou desprezo. Mas nunca no século XXI houve um momento onde esses sentimentos se tornaram tão universais e intensos. A internet e as redes sociais, que deveriam nos expor a uma quantidade maior de informação e, especialmente, a opiniões divergentes, na verdade nos acostumou a sempre estarmos reforçando nossos próprios pensamentos e tendo cada vez menos contato com pessoas com ideais diferentes dos nossos. Por estarmos sempre reforçando nossa própria opinião através do algoritmo das redes, vamos nos extremizando, nos tornando cada vez mais convictos e intransigentes das ideias que já defendíamos, fazendo com que qualquer opinião divergente da nossa pareça um absurdo.

Um fator triste, porém irônico e interessante, é que tanto as pessoas que se indentificam com o que se convenciona chamar de direita, quanto aqueles que estão à esquerda afirmam que o lado que eles se opõem é estúpido e maligno, como se não houvesse a possibilidade de uma pessoa bondosa e inteligente discordar de tal posicionamento. Isso nos custa caro, pois acabamos por, devido a meros posicionamentos políticos, nos afastarmos de pessoas genuinamente boas e frequentemente inteligentes, como se essas qualidades fossem definidas apenas pela ideologia que a pessoa segue.

No entanto, pesquisas na área da psicologia mostram que a diferença fundamental entre os indivíduos é a importância que dão a determinados valores. Pessoas “de direita” tendem a valorizar mais a justiça e a moralidade, enquanto as “de esquerda” dão maior importância ao bem-estar. Para exemplificar: para o típico “esquerdista”, é melhor um governo onde há corrupção, mas o bem-estar da população está mais elevado, que um onde não há corrupção, mas o bem-estar da população está mais baixo. Já o “direitista” genérico, acredita o contrário. Essas pesquisas mostram que é um falso testemunho quando um lado acusa o outro de não ter princípios, quando na verdade, apenas se altera a relevância que cada um dá a eles. É importante ressaltar que essas informações não foram deliberadamente expostas aqui sem qualquer base, e que a quem interessar, o livro A Mente Moralista e o artigo When Moral Opposes justice, sendo o livro de Jonathan Haidt e o artigo uma co-autoria entre ele e Jesse Graham, ambos psicólogos sociais.

A diferença tampouco parece ser uma questão de inteligência, pois, embora, como pesquisas do professor Marcus Kemmelmeier mostram, a diferença de QI não é tão discrepante, e, caso comparemos dois grupos, sempre haverá uma diferença na média de QI. O que de fato acontece é que, por nos ser dada a opção de nos fecharmos numa bolha ideológica, nos parece agora estranho e absurdo ideias das nossas, fazendo com que a política crie um abismo entre as pessoas. Infelizmente, não há atalho para resolvermos esse problema, e já estamos sofrendo as consequências. E esta é uma questão que se retroalimenta: quanto mais um indivíduo se fecha de opiniões divergentes, mais ele desenvolve ódio e desprezo por essas ideias, e mais vontade sente de se fechar.

Algo que nos permite criar esperança é que a pouquíssimas pessoas essa situação, e com o desconforto essa situação pode mudar, mas só se compreendermos que as pessoas que discordam de nós não são necessariamente más ou burras e ainda mais importante: também querem o melhor pro país. Não devemos deixar de conversar sobre política, muito menos concordar em tudo, mas entendermos que é aceitável e normal que discordem de nós, e devemos, sim, discutir com quem pensa diferente de nós. Porém, é difícil convencer uma pessoa quando se está, na verdade, brigando com ela, quando, de fato, seu objetivo não é convencê-la, mas esmagá-la. Todos estamos cansados desse mar de tensão, desconfiança e conflito que se instaurou, e por isso, devemos nos esforçar para mudá-los, olhando também nossos “inimigos” com olhos humanos, pois, sem a compaixão, não há como quebrarmos esse muro de ódio e desprezo.

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