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Sociedade

Anonimato: a arma dos covardes

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Voiced by Amazon Polly

Umberto Eco, filósofo e escritor italiano, em uma cerimônia de premiação, que ele ganhara, disse em seu discurso:

“A internet e as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis (…) Antes eles, os imbecis, falavam apenas em bares, depois de algumas taças de vinho, mas, seu discurso não prejudicava a coletividade. A internet promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”

Se você disponibilizar 45 minutos do seu tempo navegando de forma aleatória em qualquer rede social encontrará uma infinda quantidade de idiotias. Hoje todos querem falar e poucos querem ouvir, qualquer retardado com uma câmera na mão se autoproclama influenciador e formador de opiniões, mesmo que seu conteúdo seja uma imitação ridícula de foca dentro de uma banheira de chocolate. Eu vou um pouco mais a fundo, além das redes sociais terem dado voz aos idiotas elas também chancelaram a covardia e a impunidade através da possibilidade de total anonimato.

Vamos falar de pseudônimos? Não! Pseudônimos, em certos contextos se fazem necessários. Para quem não sabe, um pseudônimo é o uso de uma personagem para expressar opiniões ou assinar obras literárias. Essa prática é comum em mídias tradicionais, normalmente quando há a possibilidade de perseguição política da pessoa que se expressa. Falaremos hoje sobre anonimato covarde mesmo! Assassinato de reputações.

Eu falei, algumas semanas atrás, no meu artigo “Corrente do Bem”, que eu detesto gente que se vende como boazinha, pois, como diria Freud: “quanto mais perfeito parece ser por fora, mais cheio de demônios por dentro”, diante deste cenário, a internet virou uma imensa vitrine de beneficências: todo mundo querendo mostrar o quanto é bom levantando hashtag para salvar a Amazônia, reduzir a violência doméstica, conscientizar do racismo, etc.. É nessa tendência social que quero mergulhar hoje. Nessa sanha de querer mudar o mundo, as pessoas cometem atos tenebrosos movidos pela modinha e pela carência de se fazerem ouvidos. Quase um déficit de atenção coletivo.

Há poucos dias, algumas ex-alunas me enviaram um perfil no Instagram dedicado a denúncias de assédios de servidores contra alunos da instituição onde elas estudam…

“Aiiin, Dianson, mas a iniciativa é boa”

Pode até ser, mas, como eu sempre digo, o brasileiro é ótimo de iniciativa e péssimo de “terminativa”. O problema dessa “maravilhosa ação” é o anonimato da página. Não dos denunciantes, mas da página! Na prática seria um perfil para difamar servidores a bel prazer com a segurança da impunidade movida pelo anonimato.

Imagina só, você estar trabalhando, normalmente, de repente encontra o filho ou a filha de algum amigo em seu ambiente de trabalho, cumprimenta-o como de costume em ambientes informais, quem sabe com um abraço ou um beijo no rosto, na sua mente, isso é normal, porém, uma terceira pessoa, que não está envolvida e não sabe o contexto da conversa, olha aquilo, julga como assédio e te expõe em uma rede social. Sua reputação pode ir para a lama e, quem sabe, seu emprego também, pois, ainda que seja absolvido das sanções legais, a sua imagem estará destruída porque alguém te expôs indiscriminadamente. Acha isso justo? Pois bem, isso acontece diariamente nas redes sociais.

“Ah, mas o dono da página pode ser responsabilizado”

Como, cara pálida? A página é anônima, faz os relatos de forma anônima, expõe sem nenhuma responsabilidade. Nas redes sociais o anonimato anda de mãos dadas com a impunidade.


Recentemente, em retaliação ao meu último artigo, diversas mensagens de “amor” foram direcionadas a mim. Adivinha? 80% delas de forma anônima, perfis sem foto, cujo nome é algo do tipo “Missionário da Última Hora”, “Fulano de Tal Gamer”, “FreeFire82411”, etc. Eu, particularmente não me importo, inclusive, podem continuar me xingando, porém, mostrar a cara é essencial! Não se debate com fantasmas. Se é homem/mulher para expor sua “opinião” por que não mostra o rosto?

“Ah, mas temos o direito à liberdade de expressão. Você não pode censurar e calar a voz das pessoas”

Amo refutar esse argumento quando falo de covardes de redes sociais. Vamos ao Art. 5º, inciso IV da Constituição de 1988:

“é livre a manifestação de pensamento, sendo vedado, o anonimato”

Como interpretação de texto não é o forte do brasileiro médio, vou explicar: você é livre para falar o que quiser, para expor o que pensa, entretanto, não pode se esconder, não pode ficar anônimo. Logo, não se pode invocar liberdade de expressão e pensamento se você não mostra quem está se expressando.

E por que as pessoas usam o anonimato? Para fugir de responsabilidades cíveis e criminais de suas expressões, opiniões e ações digitais. O inciso V, do mesmo Art. 5º da constituição diz o seguinte:

“É assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além de indenização por dano material, moral ou à imagem”

Repito, o anonimato é gêmeo siamês da impunidade. É muito fácil criar um perfil anônimo e difamar uma pessoa ou marca, sabendo que não sofrerá as sanções legais de seus atos. Você destrói uma reputação, fazendo uso de mentiras ou fatos descontextualizados, e sabe que não precisará assegurar direito de resposta e, tampouco, indenizar por suas colocações.

O anonimato virou mercado. Estudos apontam que perfis e páginas de notícias anônimas tem mais engajamento que os canais oficiais ou tradicionais. Perfis anônimos também são usados pelos conhecidos “gabinetes de ódio”, com a finalidade de fazer “bombar” hashtags, criar e difundir fake news a fim de manipular a forma como as pessoas pensam certos assuntos.

As eleições americanas de 2016 e as brasileiras de 2018 serviram de marco histórico para esse tipo de mercado de manipulação digital. Os anônimos eram (e são) utilizados para repercutir sistematicamente uma determinada informação para que, de tanto se repetir, a mentira se torne verdade e a grande massa comece a pensar que aquele “fato” é irrefutável.

Por fim, retomando o raciocínio do início, as redes sociais e a internet democratizaram as comunicações, entretanto, também viabilizaram a ideia de “donos da razão”. Ninguém quer estar errado e, quando contrariados, os anônimos brotam para fazer “justiça” e sujar reputações de pessoas, veículos de imprensa, empresas, etc.. Esses seres abjetos sempre estão fazendo uso de palavras de baixo calão e munidos das melhores intenções no coração, pois, como pessoas de bem, elas querem o melhor para o mundo e o melhor é que todos concordem com eles, do contrário serão cancelados. Simples assim.

Tempos ainda mais obscuros virão.

Professor de Humanidades da rede pública, graduado em História, Geografia e Sociologia, especialista em Ciência Política e Antropologia, coordenador acadêmico e, agora, colunista DiBahia. Missões: Explicar o Brasil para os brasileiros e expor a hipocrisia das ELITES RELIGIOSAS de nossa região.

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Sociedade

O Nosso Muro de Berlim

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Após o final da segunda guerra mundial, como é de conhecimento popular, a Alemanha foi dividida, tendo o ocidente governado pelos Aliados, que eram capitalistas, e o oriente governado pela União Soviética, que era socialista. O muro erguido em Berlim marcava uma divisão essencialmente política: cada lado era regido por um sistema econômico diferente. No entanto, as divergências e polarização eram, de maneira geral, entre as autoridades, já que a população de ambos os países quase em sua totalidade desejava o capitalismo, além de possuir forte desejo de encontrar pessoas que haviam ficado do outro lado do muro. No Brasil hoje ocorre algo diferente. Nenhuma autoridade construiu muros entre nós, mas por iniciativa própria estamos incomunicáveis e nos vemos como inimigos.

Fato é que sempre houve divisão, divergências e atritos causados por política, e essas diferenças frequentemente se tornavam em ódio ou desprezo. Mas nunca no século XXI houve um momento onde esses sentimentos se tornaram tão universais e intensos. A internet e as redes sociais, que deveriam nos expor a uma quantidade maior de informação e, especialmente, a opiniões divergentes, na verdade nos acostumou a sempre estarmos reforçando nossos próprios pensamentos e tendo cada vez menos contato com pessoas com ideais diferentes dos nossos. Por estarmos sempre reforçando nossa própria opinião através do algoritmo das redes, vamos nos extremizando, nos tornando cada vez mais convictos e intransigentes das ideias que já defendíamos, fazendo com que qualquer opinião divergente da nossa pareça um absurdo.

Um fator triste, porém irônico e interessante, é que tanto as pessoas que se indentificam com o que se convenciona chamar de direita, quanto aqueles que estão à esquerda afirmam que o lado que eles se opõem é estúpido e maligno, como se não houvesse a possibilidade de uma pessoa bondosa e inteligente discordar de tal posicionamento. Isso nos custa caro, pois acabamos por, devido a meros posicionamentos políticos, nos afastarmos de pessoas genuinamente boas e frequentemente inteligentes, como se essas qualidades fossem definidas apenas pela ideologia que a pessoa segue.

No entanto, pesquisas na área da psicologia mostram que a diferença fundamental entre os indivíduos é a importância que dão a determinados valores. Pessoas “de direita” tendem a valorizar mais a justiça e a moralidade, enquanto as “de esquerda” dão maior importância ao bem-estar. Para exemplificar: para o típico “esquerdista”, é melhor um governo onde há corrupção, mas o bem-estar da população está mais elevado, que um onde não há corrupção, mas o bem-estar da população está mais baixo. Já o “direitista” genérico, acredita o contrário. Essas pesquisas mostram que é um falso testemunho quando um lado acusa o outro de não ter princípios, quando na verdade, apenas se altera a relevância que cada um dá a eles. É importante ressaltar que essas informações não foram deliberadamente expostas aqui sem qualquer base, e que a quem interessar, o livro A Mente Moralista e o artigo When Moral Opposes justice, sendo o livro de Jonathan Haidt e o artigo uma co-autoria entre ele e Jesse Graham, ambos psicólogos sociais.

A diferença tampouco parece ser uma questão de inteligência, pois, embora, como pesquisas do professor Marcus Kemmelmeier mostram, a diferença de QI não é tão discrepante, e, caso comparemos dois grupos, sempre haverá uma diferença na média de QI. O que de fato acontece é que, por nos ser dada a opção de nos fecharmos numa bolha ideológica, nos parece agora estranho e absurdo ideias das nossas, fazendo com que a política crie um abismo entre as pessoas. Infelizmente, não há atalho para resolvermos esse problema, e já estamos sofrendo as consequências. E esta é uma questão que se retroalimenta: quanto mais um indivíduo se fecha de opiniões divergentes, mais ele desenvolve ódio e desprezo por essas ideias, e mais vontade sente de se fechar.

Algo que nos permite criar esperança é que a pouquíssimas pessoas essa situação, e com o desconforto essa situação pode mudar, mas só se compreendermos que as pessoas que discordam de nós não são necessariamente más ou burras e ainda mais importante: também querem o melhor pro país. Não devemos deixar de conversar sobre política, muito menos concordar em tudo, mas entendermos que é aceitável e normal que discordem de nós, e devemos, sim, discutir com quem pensa diferente de nós. Porém, é difícil convencer uma pessoa quando se está, na verdade, brigando com ela, quando, de fato, seu objetivo não é convencê-la, mas esmagá-la. Todos estamos cansados desse mar de tensão, desconfiança e conflito que se instaurou, e por isso, devemos nos esforçar para mudá-los, olhando também nossos “inimigos” com olhos humanos, pois, sem a compaixão, não há como quebrarmos esse muro de ódio e desprezo.

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