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Entre o ruim e o péssimo

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Inclino olhar, viro a página e me debruço sobre esse e aquele fato. Reúno argumentos, faço uma lista do que encontro enquanto observo as emoções que cada relato carrega. A princípio não escolho o lado. Apenas ouso e me abro. A verdade argumenta em todos os casos.  Mas, falar do assunto é quase um pecado, inflama paixões, divide opiniões e, muitas vezes, rompe laços. Porém, mesmo sob o risco da condenação imediata me aventuro a vasculhar o passado.

Sem bagagem, lanço-me na viagem e desembarco no tenso cenário de 19 de Março de 1964. Estou em São Paulo, na Praça da Sé, caminhando perdida entre uma multidão com cerca de 500 mil pessoas. A cacofonia e a euforia reverberam pelo espaço. A grande maioria é composta por mulheres. Elas carregam cartazes e faixas proferindo gritos de ordem e protestos. “A Marcha da família com Deus pela Liberdade”, como ficou conhecido, foi um levante civil que ocorreu entre 19 de março e 8 de julho de 1964 em reação ao discurso de João Goulart, vulgo “Jango”, ocorrido no dia 13 de março do mesmo ano na cidade do Rio de Janeiro.

João Goulart, que assumiu a presidência de República após a renúncia de Jânio Quadros no dia 25 de agosto de 1961, governava num ambiente em profunda crise institucional. Quando da renúncia de Jânio, João encontrava-se na China e o presidente da Câmara assumiu provisoriamente no seu lugar. De setembro de 1961 até janeiro de 1963 o Brasil experimentou o parlamentarismo, uma estratégia montada para limitar os poderes do então presidente João Goulart, que já sinalizava o seu viés comunista.

Dois dias antes do seu famoso discurso João assinou dois decretos, lançando as “Reformas de Base” a fim de mudar o Pais. Entre as mudanças que desagradaram as classes foi a desapropriação de terras e a estatização de cinco refinarias. Ao ouvir o discurso de João Goular, disponível na internet para quem queira resgatar o passado, entendi porque pouco tempo depois ele estaria sendo deposto e fugindo para o Uruguai. Para os ouvidos de uma sociedade especialmente católica como a da época, sua fala caiu como uma bomba. Ele, talvez mau assessorado, questionou o papel das igrejas e deixou entrever a sua simpatia pelo comunismo. Suas ações, sua fala, sua postura e pessoas afins deixavam à mostras suas intenções. E, para o seu azar, o alarme fora disparado.

Ao viajar pelos detalhes dessa história deparei-me com os empresários que não queriam ver o seu patrimônio estatizado, os proprietários de terra que não queriam ser desapropriados, a grande mídia da época que, ao contrário da de hoje clamava pelos militares, toda a igreja Católica que pedia a intervenção militar, grande parte da sociedade civil e entidades de classe que gritavam por democracia, contando com o apoio de vários políticos de renome e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Associação Brasileira da Imprensa  (ABI). Enfim desde a renúncia de Jânio Quadros, João caminhou por um terreno minado.

Ao analisar as ações que levaram à tomado do poder no dia 31 de março de 1964 a única conclusão que consigo chegar foi a de que tudo se deu pela vontade do povo. Sei que agora muitos vão subir pelas paredes e vão me odiar, mas é matemático, não sou eu que estou inventando, está registrado. Basta pesquisar. Hoje em dia só não conhece a verdade dos fatos quem não quer. O “tio Google” está aí para isso. E não estou falando para você ler esse ou aquele artigo tendencioso, estou falando para você buscar os discursos originais, fotos da época, depoimentos de quem viveu naquele período e, depois, tirar as suas próprias conclusões e escolher um lado. Afinal, vivemos numa democracia e entendo que, ao escolher um lado, não precisamos negar o outro.

Bom, depois disso sabemos o que aconteceu, os militares tomaram o poder e no dia 2 de abril de 1964 o Congresso Nacional – e não os militares – cassou o mandato de João Goulart. Em 9 de abril desse mesmo ano o Congresso elegeu Castello Branco para a presidência da República, contando com os votos de Ulysses Guimarães, Juscelino Kubitschek, Franco Montoro, Chagas Freitas e Afonso Ariano.

O que aconteceu depois é que nos dá “pano pra manga” e divide as opiniões. Instalado o Regime Militar, a esquerda, que havia perdido o poder, começou a se organizar em grupos guerrilheiros no intuito de combater o regime vigente e instituir o seu. Muitos foram os grupos, mas podemos destacar:

Ação Libertadora Nacional (ALN), Comando de Libertação Nacional (COLINA), Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), Partido Comunista do Brasil (PC do B), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).

Esses grupos, que na sua maioria eram formados por estudantes, propunham uma revolução. Não para a volta do sistema democrático de antes, mas para impor um regime social comunista, inspirado nos moldes de Cuba e da China. Nesse momento eu paro e penso: trocar o ruim pelo péssimo? Fica a pergunta. Tentem imaginar como teria sido. Existem alguns exemplos por aí, tipo: China, Cuba, Venezuela, Coreia do Norte e muitos outros, acreditem. Somente na África existem 18 países com regimes ditatoriais, 12 no Oriente Médio, 8 na Ásia, 7 na Eurasia, 2 na América Central e do Sul e parece que caminhamos para mais.

Mas, voltando para o Brasil, o período em que esses grupos atuaram com mais impacto e frequência foi entre os anos de 1968 a 1972. Clandestinos e com poucos recursos, efetuavam assaltos a bancos e a carros pagadores. Roubavam armamentos do exército e chegaram a promover sequestros de embaixadores e diplomatas para serem usados como moeda de troca por presos políticos.

Bom, é sabido que toda ação gera uma reação contrária. E foi isso o que aconteceu. No início desses movimentos o governo foi pego de surpresa e, acredito, levou um baita susto. Mas, como militares que são, não iriam fugir a guerra.  E aí começou a sujeira dos dois lados. Enquanto um lado explodia carros bomba, roubava, sequestrava e matava civis, o outro lado investigava, caçava e torturava os suspeitos.

Pensei em fazer uma pequena lista para ilustrar que sangue foi derramado dos dois lados, mas não quero sujar a minha análise. O que estou propondo é um olhar imparcial sobre os fatos. O Regime Militar não foi um ato repentino e isolado, foi o resultado de um caminhar que levou nossa nação para uma bifurcação, e o exército obedeceu ao povo. Por mais estranho que pareça, eu entendo isso como democracia, afinal foi o povo que foi às ruas pedir. Foi a escolha da grande maioria. Podemos questionar se foi a mais acertada ou não, mas não a sua legitimidade.

E, enquanto todo esse conflito sangrento acontecia nos bastidores e a olhos vistos também, o chamado “Milagre Econômico” fazia o Brasil crescer e aparecer. Nesse mesmo período o PIB, que era de 3,2% ao ano, subiu para 7% e chegou a alcançar 13% ao ano. A infraestrutura do Pais melhorou de forma significativa, com obras que nos impressionam até hoje, como a hidrelétrica de Itaipu e a ponte Rio-Niterói. Antes do Regime Militar o Brasil possuía uma malha rodoviária com 3 mil km, passando a ter 45 mil km de estradas. Com tantas obras surgindo o nível do emprego aumentou. Nesse período vemos também o desenvolvimento das indústrias da siderurgia, geração de eletricidade e petroquímica. A Petrobras que produzia 75 mil barris de petróleo por dia, passou a produzir 750 mil barris por dia.

O que estou tentando mostrar, com essa análise, é que tudo tem dois lados, duas medidas e, no mínimo, duas versões, e que devemos dar igual importância aos dois lados como faz ou deveria fazer a figura da justiça cega. E, a partir de então, escolher um lado, porém sem negar o outro. Aprendi que ninguém é de todo inocente, e que toda a verdade pode ser questionada, mas não os fatos. Então, quando você escolher o seu lado, o seu time, a sua religião, tenha o cuidado de conhecer um pouco o outro lado da história. Dessa forma você humaniza o suposto rival, e humanizar é respeito, respeito é amor, e amor é a liga necessária que nos mantem como Nação.  Viva a democracia!

Alda Therkovsky É Mulher, Empresária, Escritora, Poetisa, Sonhadora e Visionária. Autora dos livros: O Mistério das Pirâmides, O Memorial da Bruxa, A Conquista do Éden, Margarida no Jardim, A Alface Valente e Deus é Ateu.

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O Nosso Muro de Berlim

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Após o final da segunda guerra mundial, como é de conhecimento popular, a Alemanha foi dividida, tendo o ocidente governado pelos Aliados, que eram capitalistas, e o oriente governado pela União Soviética, que era socialista. O muro erguido em Berlim marcava uma divisão essencialmente política: cada lado era regido por um sistema econômico diferente. No entanto, as divergências e polarização eram, de maneira geral, entre as autoridades, já que a população de ambos os países quase em sua totalidade desejava o capitalismo, além de possuir forte desejo de encontrar pessoas que haviam ficado do outro lado do muro. No Brasil hoje ocorre algo diferente. Nenhuma autoridade construiu muros entre nós, mas por iniciativa própria estamos incomunicáveis e nos vemos como inimigos.

Fato é que sempre houve divisão, divergências e atritos causados por política, e essas diferenças frequentemente se tornavam em ódio ou desprezo. Mas nunca no século XXI houve um momento onde esses sentimentos se tornaram tão universais e intensos. A internet e as redes sociais, que deveriam nos expor a uma quantidade maior de informação e, especialmente, a opiniões divergentes, na verdade nos acostumou a sempre estarmos reforçando nossos próprios pensamentos e tendo cada vez menos contato com pessoas com ideais diferentes dos nossos. Por estarmos sempre reforçando nossa própria opinião através do algoritmo das redes, vamos nos extremizando, nos tornando cada vez mais convictos e intransigentes das ideias que já defendíamos, fazendo com que qualquer opinião divergente da nossa pareça um absurdo.

Um fator triste, porém irônico e interessante, é que tanto as pessoas que se indentificam com o que se convenciona chamar de direita, quanto aqueles que estão à esquerda afirmam que o lado que eles se opõem é estúpido e maligno, como se não houvesse a possibilidade de uma pessoa bondosa e inteligente discordar de tal posicionamento. Isso nos custa caro, pois acabamos por, devido a meros posicionamentos políticos, nos afastarmos de pessoas genuinamente boas e frequentemente inteligentes, como se essas qualidades fossem definidas apenas pela ideologia que a pessoa segue.

No entanto, pesquisas na área da psicologia mostram que a diferença fundamental entre os indivíduos é a importância que dão a determinados valores. Pessoas “de direita” tendem a valorizar mais a justiça e a moralidade, enquanto as “de esquerda” dão maior importância ao bem-estar. Para exemplificar: para o típico “esquerdista”, é melhor um governo onde há corrupção, mas o bem-estar da população está mais elevado, que um onde não há corrupção, mas o bem-estar da população está mais baixo. Já o “direitista” genérico, acredita o contrário. Essas pesquisas mostram que é um falso testemunho quando um lado acusa o outro de não ter princípios, quando na verdade, apenas se altera a relevância que cada um dá a eles. É importante ressaltar que essas informações não foram deliberadamente expostas aqui sem qualquer base, e que a quem interessar, o livro A Mente Moralista e o artigo When Moral Opposes justice, sendo o livro de Jonathan Haidt e o artigo uma co-autoria entre ele e Jesse Graham, ambos psicólogos sociais.

A diferença tampouco parece ser uma questão de inteligência, pois, embora, como pesquisas do professor Marcus Kemmelmeier mostram, a diferença de QI não é tão discrepante, e, caso comparemos dois grupos, sempre haverá uma diferença na média de QI. O que de fato acontece é que, por nos ser dada a opção de nos fecharmos numa bolha ideológica, nos parece agora estranho e absurdo ideias das nossas, fazendo com que a política crie um abismo entre as pessoas. Infelizmente, não há atalho para resolvermos esse problema, e já estamos sofrendo as consequências. E esta é uma questão que se retroalimenta: quanto mais um indivíduo se fecha de opiniões divergentes, mais ele desenvolve ódio e desprezo por essas ideias, e mais vontade sente de se fechar.

Algo que nos permite criar esperança é que a pouquíssimas pessoas essa situação, e com o desconforto essa situação pode mudar, mas só se compreendermos que as pessoas que discordam de nós não são necessariamente más ou burras e ainda mais importante: também querem o melhor pro país. Não devemos deixar de conversar sobre política, muito menos concordar em tudo, mas entendermos que é aceitável e normal que discordem de nós, e devemos, sim, discutir com quem pensa diferente de nós. Porém, é difícil convencer uma pessoa quando se está, na verdade, brigando com ela, quando, de fato, seu objetivo não é convencê-la, mas esmagá-la. Todos estamos cansados desse mar de tensão, desconfiança e conflito que se instaurou, e por isso, devemos nos esforçar para mudá-los, olhando também nossos “inimigos” com olhos humanos, pois, sem a compaixão, não há como quebrarmos esse muro de ódio e desprezo.

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