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Porto Seguro

Uma paisagem urbana, um patrimônio de riquezas

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Conjunto das casas da família Ribeiro Coelho, fotografadas por Eric Hess, do IPHAN, em 1939
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Andar pelas ruas da cidade baixa de Porto Seguro pode render surpresas carregadas de encantamentos, memórias e histórias. É obvio que não basta transitar indiferentemente pela malha urbana. É preciso ter olhar curioso. Tem que ter apreço sensível às paisagens culturais, tanto àquelas formadas pela ação humana, como àquelas compostas pela natureza. E deve possuir também um punhado de informações históricas para auxiliar na interpretação do patrimônio cultural que a cidade sabiamente protege.

Um exemplo interessante desse exercício é caminhar para as bandas da antiga Passagem – como era chamada a região onde se faz a travessia do rio Buranhém para se chegar no Arraial d´Ajuda. O caminho a pé, partindo da Praça da Bandeira, desemboca na rua Rui Barbosa, que se transforma num canal retilíneo para o porto de onde partem as atuais balsas. Esse pequeno trecho da cidade é simplesmente pitoresco, ainda que, nos tempos de outrora, sua beleza era ainda mais estonteante.

Frondosas e centenárias amendoeiras disputam lugar na paisagem. Já foram muitas, inclusive. As que hoje resistem, dividem o espaço com outras árvores de menor porte, como tamarineiros e coqueiros. A praça, embora abandonada, desfruta do privilégio de ficar defronte a barra. Dali se observa o movimento dos coqueiros na Ponta do Apaga Fogo, a rígida imponência dos arrecifes que fazem a contenção do mar bravio, o colorido das embarcações no embalo das ondas e dos ventos e a passagem cotidiana de mareantes, moradores e visitantes. Com sorte, no fim da tarde, pode-se contemplar o equilíbrio invejoso do pescador na pequena canoa, jogando com encantadora habilidade a grande tarrafa que toca lâmina d´água em busca do cardume de tainhas.

Do lado oposto do mar, no entanto, outra paisagem também chama atenção. Trata-se de um conjunto de sete casas térreas, aprumadas num mesmo alinhamento e cobertas por um único telhado de duas águas, desenhado com uma simetria ínvida. Arquitetonicamente, o quadro não tem grande relevância, mas tem detalhes que merecem destaque, como os vãos em arco pleno (formando semicírculos) nas entradas principais das casas, as beiradas contínuas do telhado sobre a parede na forma de cimalha ornamentado em três camadas sobrepostas e as fachadas das casas com janelas alternadas (uma dupla e outra única). De um modo geral, o padrão remete ao gosto da arquitetura dominante na segunda metade do século XIX.

Atualmente, essas casas são delicadamente pintadas com cores diferentes que trazem mais alegria e singularidade à paisagem. E, ao mesmo tempo, destacam os empreendimentos comerciais que hoje se instalam nos antigos prédios construídos originalmente para a função de moradia. Mas que, desde o início do século XX, já abrigavam lojas de tecido e armazéns de produtos agrícolas – tão dinâmicos quanto os atuais bares, hotéis e imobiliárias que ali funcionam por agora.

É importante saber que essa paisagem não representava apenas a riqueza do patrimônio cultural da cidade de Porto Seguro. Ela retrata, a bem da verdade, o patrimônio de uma rica família porto-segurense. Em outras palavras, esse conjunto arquitetônico traduz uma parte do poder econômico e político de um clã familiar que dominou a política municipal em boa parte do século XX e que possuía negócios de grosso trato não só na cidade, como também em outras localidades do atual extremo sul da Bahia. As sete casas pertenciam à família Ribeiro Coelho, portadora de destacados nomes da elite porto-segurense dos tempos de outrora.

O patriarca da família, que faleceu no ano de 1878, se chamava Domingos Ribeiro Coelho. Foi dele a iniciativa de construção das sete casas para abrigar todo seu clã familiar na sede do extenso município de Porto Seguro. Entre seus filhos, destacou-se José Ribeiro Coelho – homem de negócios, proprietário de terras e, como todo membro das oligarquias locais na época da República Velha, carregava consigo o título de coronel. Na década de 1910, o prestígio social do negociante parecia tão alto que ele se gabaritou para entrar nas principais irmandades religiosas da cidade, como a de Nossa Senhora da Conceição, de São Benedito e de Nossa Senhora d’Ajuda. Nos ramos das novas gerações do clã familiar, destacou-se também um dos filhos de José Ribeiro Coelho chamado Manoel Coelho Ribeiro, que além de ter se notabilizado pelo seu exercício profissional de médico, também ganhou fama como político, tendo sido prefeito da cidade por três ocasiões. Além destes nomes, outros personagens importantes da história porto-segurense ao longo do século XX trouxeram no sobrenome a herança dos laços de parentesco com o clã Ribeiro Coelho, ainda que carregados de mesclas em meio aos consórcios matrimoniais e às alianças políticas.

O fato é que a construção de um conjunto de casas de grande porte numa rua central da cidade não era obra de pouca monta. A família Ribeiro Coelho possuía um volume quase incalculável de bens, negócios e serviços, além de uma ampla rede de amizade, de compadrio e de poder. Em 1939, por exemplo, a Revista Nação Brasileira noticiava com entusiasmo o grande desenvolvimento industrial, agrícola e comercial promovido pelas “Fazendas Reunidas Ribeiro Coelho”, que agregavam mais de 15 propriedades espalhadas entre Prado e Belmonte envolvidas nos negócios do cacau, do café, do coco, da piaçava, do fumo e do couro. Na condução dos negócios da família, estava o “grande industrial José Ribeiro Coelho”.

A menina dos olhos do momento era a produção de madeira em Itaquena. Ali, sob a direção técnica de Pedro Flávio Deiró, a família Ribeiro Coelho montou um verdadeiro complexo produtivo: construiu um porto, urbanizou o pequeno povoado, qualificou a estrada de terra e investiu em sofisticados equipamentos. Para o beneficiamento das madeiras, instalaram-se “modernas máquinas de serrarias”, que empregavam mão de obra especializada vinda de Porto Seguro, como o ferreiro Adalberto Teles. Além disso, a empresa possuía um “magnífico serviço de transporte”, com lanças, barcos e canoas grandes, com destaque especial para o “belo iate a motor Campeão”. Os produtos que escoavam da fazenda de Itaquena, assim como aqueles das demais propriedades das redondezas, podiam ser armazenados ali mesmo no conjunto dos prédios da família ou nos armazéns no Marcos, nas proximidades do antigo porto, perto da Casa da Lenha.

Para manter viva a memória dessa destacada família, a prefeitura municipal de Porto Seguro urbanizou e nomeou a praça das amendoeiras de Manoel Ribeiro Coelho. Em 1995, o prefeito João Carlos M. de Paula inaugurou um busto de bronze do renomado médico e ex-prefeito, buscando imortalizar ainda mais a presença histórica da família naquele logradouro. Apesar do esforço político de criar um novo lugar de memória para eternizar o poder do saudoso clã, não se pode desprezar que as sete casas ainda hoje integrantes daquela pitoresca paisagem representam os testemunhos mais vivos de um patrimônio que merece ser conhecido e preservado. Não a toa, o conjunto arquitetônico e paisagístico não passou despercebido do olhar de Eric Hess, funcionário do IPHAN que visitou a cidade em 1939 e registrou a beleza do lugar, fundamentando desde cedo o tombamento do lugar, que hoje integra também o acervo inventariado pelo IPAC sob nº 32605-0.3I002.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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Porto Seguro

Atriz da Globo Marcella Maia diz ser vítima de transfobia em Porto Seguro

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A atriz Marcella Maia, de 30 anos, denunciou, nesta quinta-feira (23), ter sido vítima de transfobia em Porto Seguro, Bahia. A artista mostrou os hematomas na região do pescoço, ombro e seio aos seguidores nas redes sociais. “Preconceito existe. Se cuidem. Sem chão, sem forças. Tô viva”, disse a atriz. “Meu corpo não merece isso”, continuou, acrescentando a hashtag “transfobia”.

A atriz compartilhou as imagens com o mais de 282 mil seguidores que possui no Instagram
Imagens: reprodução

Em nota da assessoria de Marcela, o caso aconteceu na madrugada de quarta-feira (22) na vila de Caraíva. Um boletim de ocorrência sobre o caso foi registrado na delegacia de Porto Seguro.

“A atriz está segura no momento e todas as medidas legais já estão sendo providenciadas”, disse o comunicado, que ainda agradeceu pela preocupação dos seguidores. 

Marcella viverá a personagem Morte na próxima novela das 19h da Rede Globo, “Quanto Mais Vida Melhor”. Em entrevista à Patrícia Kogut em 2020, a atriz revelou que ocultava o fato de ser uma mulher transexual. 

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