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Porto Seguro

São João passou por aqui?

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Imagem de São João Menino, de madeira, do século XVIII, pertencente à Igreja de Trancoso
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João era primo de Jesus, filho de Isabel, irmã mais velha de Maria de Nazaré. Segundo conta as Escrituras, João vivia a pregar no deserto da Judéia, anunciando profeticamente a “boa nova”: a chegada próxima do Messias que seria o “mais poderoso” (Lc 3, 18). Numa demonstração de penitência e humildade, tinha o costume de usar roupa de pele de camelo e se alimentar de gafanhotos. Ortodoxo em suas pregações, João batizava os fiéis nas águas do rio Jordão como um ato de “conversão para remissão dos pecados” (Mc 1, 4). E sua maior proeza foi batizar Jesus, tornando público, de acordo com a tradição cristã, que ele era “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29). Foi canonizado sob o título de São João Batista, torando-se um dos mais devotados santos da população católica pelo mundo.

A devoção a São João chegou a Porto Seguro (como em todo Brasil) trazida pelos colonizadores portugueses. Aqui foi empregada como instrumento de difusão do sacramento do batismo, especialmente para as populações recém incorporadas ao grêmio da Igreja, como os grupos Tupi do litoral.  Os padres jesuítas foram os principais estimuladores do culto ao santo, incorporando nas festividades muito divertimento e simbologias populares. Em 1583, por exemplo, o padre Fernão Cardim anotou que a principal festa religiosa celebrada pelas populações indígenas era a das “fogueiras de São João, porque nas aldeias ardem em fogos, e para saltarem as fogueiras não estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro”.

No acervo de esculturas devocionais dos séculos XVIII e XIX que habitam as igrejas históricas da cidade, a imagem de São João aparece no Arraial da Ajuda, em Vale Verde e em Trancoso. Interessante notar que estas três povoações foram originalmente espaços de missões jesuíticas, criadas ainda no século XVI. Em Trancoso, onde o santo é padroeiro, a devoção joanina vem antes mesmo da criação da vila e da freguesia no século XVIII, pois desde a segunda metade do século XVII já existia oficialmente o aldeamento de São João Batista. Um testemunho desta longa tradição devocional é a imagem entronada no altar-mor da igreja de Trancoso, datada do século XVIII, considerada uma “peça das mais significativas da imaginária da região, notadamente pelo inusitado tratamento do tema, criando uma imagem ímpar” (IPHAN, 1997).

A festa joanina, no entanto, ocupou lugar muito além do religioso na dinâmica cultural de Porto Seguro. Tudo começava na noite de véspera, quando a cidade ganhava iluminação singular. Por todas as ruas, na frente de quase todas as casas, faceiras fogueiras se erguiam, com seus troncos contorcidos e enquadrados simetricamente, ardendo em chamas a lançar fagulhas e clarões. Algumas – exageradas – chegavam a atingir 10 metros de altura. Outras – mais modestas – não ultrapassava 1 metro. Todas, indistintamente, juntavam ao seu redor pessoas a dançar, a cantar, a pular, a comer, a beber, a conversar. Certa feita, nos idos da década de 1970, com o tom de promover e valorizar a antiga tradição, a prefeitura, sob a coordenação de Romeu Fontana, chegou a realizar um concurso de fogueiras, com uma comissão que saía da Pontinha ao Pacatá, a medir o tamanho e o volume das fogueiras para premiar entre aquelas a que fosse a mais bela e grandiosa.

A presença das fogueiras na festa junina, especialmente na noite de São João, tem origem numa tradição europeia, bem anterior à origem do cristianismo, inclusive. Na Europa, a data do natalício de São João coincidiu com o milenar festejo do solstício de verão, quando a população comemorava, numa imbricação encantadora do profano com o sagrado, a proximidade das colheitas. O fogo, com sua força que espanta a friagem, que aquece a terra, que queima a infertilidade, ganhava o cume dos morros, os terreiros das fazendas, os pátios das casas. Numa síntese nada ortodoxa, esta noite passou a incorporar ao longo dos séculos práticas de adivinhações, de magias curativas e de muitos divertimentos. Como outras tantas festas cristãs, a celebração do ríspido e austero João Batista misturou tradições pagãs com singelas formas de piedade popular.

A noite de São João em Porto Seguro não era iluminada apenas pelas fogueiras. Havia também os belos e estrondosos fogos de artifícios. De cores variadas e com sons de diferentes intensidades, os fogos animavam a festa joanina, promovendo variações de espetáculos luminosos, divertimentos infanto-juvenis e saudações solenes ao santo homenageado. Como notou Câmara Cascudo, rojões, foguetes e bombas formavam um conjunto indispensável nas festividades religiosas no Brasil. No entanto, na noite de São João, a tradição ganhava um tom singular: mais que complemento, os fogos de artifícios ocupavam lugar de protagonistas, pois anunciavam, animavam e embelezavam a festa.

Era mesmo um momento de exibicionismo. Uns queriam mostrar valentia pelo potencial explosivo das bombas e rojões, acreditando que quanto mais intenso fosse o estouro ou quanto maior fosse a quantidade de tiros, maior seria o reconhecimento público da coragem e do poder daquele responsável pela proeza. Outros queriam conquistar prestígio com as faíscas coloridas dos vulcões e das chuvinhas, explorando a beleza estética e os encantados movimentos dos fogos. Havia ainda aqueles que buscavam testar sua liderança (de divertimento ou de traquinagem), soltando, por exemplo, no meio da multidão cordões cheirosos, cobrinhas e carrapetas que perseguiam desvairadamente os menos hábeis. Mas, sem dúvida, a festa era o momento privilegiado da exibição de um personagem particular: o fogueteiro. E, ao longo do tempo, Porto Seguro teve muitos: Rufino, João e Terto, somente para citar os mais renomados do século XX. Todos incorporaram no nome a marca do ofício, como João Fogueteiro – um dos últimos “mestres pirotécnicos” da cidade.

A estes homens cabia o encantamento da festa. Na verdade, das festas – para ser mais justo. E na festa de São João o trabalho era dobrado: a demanda não era só religiosa, o povo também aguardava a oferta dos fogos de artifícios. Todos queriam os rojões, os busca-pés, as girandolas de fogo, as bombas. A criançada desejava as chuvinhas, as cobrinhas, os vulcões, os traques. A demanda era tamanha que a cidade importava fogos de Santo Antônio de Jesus. E, como relatou Romeu Fontana, um dos momentos mais esperados da noite joanina era o da exibição dos “popularíssimos aviõezinhos de Jacó Viana e Alfredinho, onde um adrianino preso à calda desse avião, o fazia voar de um poste a outro, numa distância de 30 metros, por um fio”. Embora não fossem fogueteiros, os inventores do aviãozinho revelavam com aquela interessante brincadeira o tom pândego e democratizante da festa.

Fogueteiro, no entanto, era ofício de muita ciência. Trabalho arriscado, quase sempre coletivo. No mínimo, envolvia os membros da família nos afazeres do ofício. Mas, em outros casos, sua oficina empregava alguns ajudantes, que não apenas auxiliavam na fabricação dos fogos, como também acabavam por aprender aquele tradicional saber-fazer. Se, por um lado, os ajudantes podiam desfrutar dos benefícios do trabalho por meio da profissionalização, por outro, também estavam vulneráveis ao perigo do ofício. E foi o que aconteceu com o “infeliz moço João, discípulo do fogueteiro Rufino Guimarães”, que perdeu uma mão numa “decepação rápida” provocada “por uma bomba de clorato” – como noticiou o Correio de Porto Seguro de 4 de julho de 1913. Neste mesmo ano, inclusive, a noite de São João foi trágica: os fogos causaram desastrosa explosão que resultou no grave ferimento do capitão Epifânio Rebouças e na morte de Augusto Borges Conceição.

Não é difícil notar que essa não era a regra. Tristeza não combinava com a festa de São João. E um dos símbolos da alegria dessa festa era o rancho. Tratava-se de um grupo de músicos e devotos que saia pelas ruas da cidade, cantando e dançando. Na porta das casas, o grupo perguntava ao dono da moradia: “São João passou por aqui?” A resposta positiva era o sinal de que a casa havia preparado o banquete: bolo de carimã, de fubá, de aipim; milho e amendoim cozidos; canjica, mugunzá e manauê. Para animar ainda mais os festeiros, licor de jenipapo, quentão e cachaça. Antes de servir o comes e bebes, a chula marcava o ritmo da brincadeira: “Oh dona da casa, por Nossa Senhora, dai-me de beber senão eu vou embora!”

Passada a noite festeira, o dia de São João também era de muita diversão. Nas praças e nos largos da cidade, as crianças se preparavam para as brincadeiras. Ali podia-se ver o mastro erguido no logradouro. No topo, sacos com doces, bolas, bonecos e outros brindes. O desafio era subir os quase 5 metros do pau embebecido de sebo. O sobe e desce da criançada, toda melada e pegajosa, animava a turba desvairada que acompanhava alegremente a traquinagem. E não parava aí: tinha quebra-pote, corrida de saco e dança das cadeiras. Tudo num clima comunitário, ingênuo e encantador.

Com o passar do tempo, a investida na organização da festa de São João saiu da alçada familiar e comunitária e passou para o poder público local e para entidades privadas. Contou para essa transição vários fatores da modernização da cidade a partir da década de 1980, entre eles a crescente ascensão do protestantismo e a cooptação da indústria cultural. Foi assim que surgiram as festas na Garagem da Prefeitura, o Forró de FlorDú, o Forró dos 40 e o São João Elétrico. Com muito glamour, decoração cinematográfica e músicos renomados, as festas joaninas sofreram certo esvaziamento do seu sentido tradicional ou, no mínimo, passou por um redimensionamento de sua natureza, dando-lhe mais feição comercial e político-eleitoral. Ainda assim, a festa de São João continua com sua magia, bastando acender uma fogueira para ela incendiar as memórias e os encantamentos de qualquer cidadão.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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Porto Seguro

MPF abre inquéritos contra ex-prefeita Cláudia Oliveira

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A ex-prefeita de Porto Seguro, na Costa do Descobrimento, Cláudia Oliveira, virou alvo de três inquéritos do Ministério Público Federal (MPF) na Bahia. Os casos se referem ao ano de 2016 e estão ligados a contratos da prefeitura investigados pela Operação Fraternos, da Polícia Federal (PF).

Deflagrada no dia 7 de novembro de 2017, a ação chegou a prender e afastar Cláudia Oliveira; além do marido então prefeito de Eunápolis, Robério Oliveira. O irmão da ex-gestora e prefeito de Santa Cruz Cabrália, Agnelo Santos, também foi afastado à época.

Os inquéritos vão investigar as contratações das empresas HN CONST. CIVIL, TERRAPLANAGEM E LOC. LTDA, COMERCIAL DE ALIMENTOS BURANHÉM LTDA e ÉBANO DERIVADOS DE PETRÓLEO LTDA. Os inquéritos ficam sob responsabilidade do procurador Andre Sampaio Viana.

Deflagrada em conjunto com a Controladoria Geral da União (CGU), a operação apurou que as prefeituras contratavam empresas com ligação com o grupo familiar para fraudar licitações, simulando a concorrência entre elas.

Ainda segundo a PF, após a contratação, parte do dinheiro repassado pelas gestões era desviado, utilizando-se de “contas de passagem” em nomes de terceiros, de forma a dificultar a identificação do destinatário final dos valores arrecadados. 

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