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Porto Seguro

Viva Santo Antônio!

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Coleção de esculturas devocionais de oratório, de Santo Antônio, expostas no Museu de Arte Sacra da Misericórdia, na cidade histórica
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Em memória do meu primo Célio, a quem minha madrinha Aurora, por devoção ao santo lisboeta, insistia em chamá-lo de Antônio

Junho era um dos meses mais agitados do calendário festivo e devocional de Porto Seguro. Não havia feriado civil, mas a cidade, seus povoados e suas gentes dedicavam especial atenção para comemorar os três homenageados: Santo Antônio (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho). Herança da colonização portuguesa, as festas juninas misturavam religião, religiosidades e várias manifestações da cultura do povo. Conhecer essas antigas festas devocionais possibilita reconhecer o amplo e diversificado acervo do patrimônio cultural de Porto Seguro, revelando suas belas celebrações, seus tradicionais ofícios, seus singulares bens culturais e seus encantadores lugares de memória.

Para hoje, vamos de Santo Antônio.

Nascido Fernando Bulhões, em Lisboa, no ano de 1195, entrou na Ordem de São Francisco em 1220 e recebeu o nome de Antônio. Morreu em Pádua (Itália), em 1231, alcançando, no ano seguinte, canonização pelo papa Gregório IX. Santo predileto dos portugueses, sua devoção ganhou dimensão planetária a partir da expansão marítima e comercial lusitana na África, na Ásia e na América. Doutor da igreja, protetor das casas e das famílias, advogado das causas justas, intercessor das almas no purgatório e recuperador das coisas perdidas, inclusive de escravos fugitivos, o santo português despertou rápida devoção popular no Brasil colonial, ocupando com frequência o título de orago de muitas paróquias, os retábulos das sacristias e os oratórios das casas. Em Porto Seguro, a disseminação da devoção a Santo Antônio foi obra principalmente da ação dos religiosos franciscanos e jesuítas, que, desde os primeiros anos do século XVI até os dias atuais, atualizam o culto ao santo lisboeta.

No tempo da colônia, Santo Antônio se fez presente na formação da capitania de Porto Seguro. Já no século XVI, o santo deu nome a um rio ao norte da vila de Santa Cruz, que foi descrito por Gabriel Soares de Souza, em 1583, como o “rio de Santo Antônio” que possuía nos “arrecifes do mar um boqueirão, por onde pode entrar uma nau e ir ancorar pelo canal que se faz entre um arrecife e o outro, onde estará seguro”. No final do século XVII, o frade franciscano ganhou uma capela no rio das Caravelas, ao sul da capitania, tornando-se, no início da década de 1700, o orago da nova freguesia que, envolvida na escravização de índios, na extração de pau brasil e na produção de farinha, foi elevada à condição de vila com nome de Santo Antônio do rio Caravelas. O nome do santo também estava inscrito nas embarcações que estavam envolvidas no comércio do pau brasil, pertencentes à Casa do Duque de Aveiro, proprietária da capitania de Porto Seguro. Uma delas, responsável por transportar anualmente milhares de toneladas de madeira, saídas do porto de Coroa Vermelha e Caravelas, chamava-se “Deus Salve Santo Antônio de Aveiro”.

Mais que dominar topônimos e nomear embarcações, Santo Antônio foi companhia segura nas ações missionárias dos religiosos que atuaram na evangelização dos nativos e dos colonos de Porto Seguro. Frades franciscanos e padres jesuítas deram ao santo um lugar privilegiado nos sermões, nos altares e nas devoções religiosas. Em decorrência disso, o culto antoniano se fixou na cidade, incorporando-se definitivamente no seu calendário devocional e festivo, principalmente depois da segunda metade do século XIX, quando os capuchinhos começaram a circular pela região e, sobretudo, a partir da década de 1970, quando os mesmos religiosos assumiram a administração paroquial da Igreja Nossa Senhora da Pena. Essa devoção é tão singular que, no acervo de santos existentes no Museu de Arte Sacra da Misericórdia, que guarda uma representativa parcela do patrimônio de esculturas devocionais da cidade, com peças dos séculos XVI até XIX, Santo Antônio ocupa a segunda colocação com 9 unidades, perdendo apenas para a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do reino de Portugal, que tem 11 imagens.

Outro sinal da devoção ao santo na vida da cidade era a presença sempre constante do nome Antônio nos registros de batismo e de nascimento. Para não alongar, basta uma simples relação de importantes personagens da história local: Antônio Dias Adorno, um dos primeiros bandeirantes a desbravar os sertões porto-segurenses à procura da Serra das Esmeraldas, na segunda metade do século XVI; Antônio de Couros Carneiro, capitão da capitania de Porto Seguro no século XVII, responsável pelo controle dos negócios do pau brasil; Antônio Mariano Borges, capitão da Companhia dos Homens Pardos de Porto Seguro, responsável pela expulsão dos franceses que tentaram invadir Coroa Vermelha no final do século XVIII; Antônio Ricaldi, médico e político, que construiu um imponente e ainda hoje belo Chalé na Cidade Alta, em 1885; Antônio Osório Menezes Batista, o político nativo que conquistou maior expressão pública nacional, tendo sido secretário estadual do governo ACM e deputado federal.

Tudo isso era consequência da fé que se depositava no frade franciscano. E, por isso mesmo, as celebrações de sua festa se tornavam, efetivamente, momentos singulares mobilização e expressão da cultura popular. Não era uma festa curta: fazia-se a “Trezena de Santo Antônio”, com treze dias de homenagem ao santo. Todos os dias repetiam-se cantos, orações, ladainhas e incensos. A festa não era na igreja, mas nas casas dos devotos. As salas principais se santificavam: no canto, erguia-se um altar – caixas de madeiras coberta com delicados panos formavam o trono; sobre a mesa, antigos castiçais com velas e raros vasos com flores; nas paredes, rendadas e alvas cortinas sobrepostas desenhavam encantados movimentos; no chão, na proximidade do santo, areia da praia e folhas de Pitanga para aromatizar o ambiente. As mulheres assumiam o comando da celebração e, com muitas variações, rezavam, em cantos lamentosos, orações como Deus é Digitorum, Glória e Ladainha de Santo Antônio.

Dos mais antigos moradores, lembranças constantes dos nomes de pessoas fundamentais na condução do ofício. Amelinha, irmã de Dangola, fiel devota do santo, participava ativamente da famosa Trezena da casa de Alcione Vieira, político e fazendeiro da cidade, conhecido popularmente como seu Sissi. Ali, acompanhada por outras tantas devotas, puxava o Responsório de Santo Antônio, que enaltecia os atributos miraculosos do santo:

Se milagres desejais
Recorrei à Santo Antônio
Vereis fugir o demônio
E as tentações infernais.

Recupera-se o perdido
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido

Todos os males humanos
Se moderam e se retiram
Que digam os que o viram
E digam os paduanos

Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte
O fraco torna-se forte,
E torna-se o enfermo são.

Gloria ao pai, Gloria ao filho
Ao Espírito Santo também
Agora e sem fim,
Amém!

De repente, o sagrado cedia espaço ao profano. Findada a reza, a festa ganhava outra conotação, embora não menos importante e, também, divina. A alegria cristã se manifestava em sons, comes e bebes. Os tocadores chegavam com todo empenho: rabeca, tambor, padeiro, sanfona. Tão glorioso quanto o altar, montava-se a mesa do banquete: bolo de milho, de tapioca, de puba; amendoim cozido e assado; doces dos mais variados: de caju, de jenipapo, de coco, de amendoim. Para animar ainda mais a festa, deliciosos licores de todas as cores e gostos. No Pacatá, noutra concorrida Trezena de Santo Antônio, que acontecia na casa de Cazuza Vieira, podia-se saborear, sem parcimônia, o seu famoso licor de jenipapo. Era uma festa completa: união sensível entre o céu e a terra.

Para além da celebração, a devoção a Santo Antônio na cidade deixou registros de curiosas piedades populares. A relação entre o fiel e o santo ganhava um grau tão grande de intimidade que as amarras ortodoxas da Igreja não conseguiam deter uma livre interpretação de seus atributos. As variações das rezas, das orações e das simpatias demonstram essa plasticidade da fé. Nas casas, dentro dos oratórios, embaixo dos santos, nos recitais das trezenas, os textos das orações se modificavam contornando as expectativas de seus devotos. Recentemente, ao consultar os objetos pessoais de tia Maria logo após seu falecimento, fui surpreendido com uma dessas orações singulares, que humaniza o santo e santifica o humano: “Ontem pela madrugada, antes do galo cantar, Santo Antônio saiu a passear: se vestiu, seu sapato calçou e na mão direita seu bastão levou. Encontrou-se com Nosso Senhor Jesus Cristo: Onde vais Antônio? Vou convosco Senhor. Antônio, comigo tu não irás, pois no mundo ficarás. O possível e o impossível tu farás”

Outra demonstração de intimidade com o santo bastante difundida entre os fiéis porto-segurense (também comum em todo Brasil) está na invocação do frade como santo casamenteiro. Essa habilidade miraculosa está diretamente relacionada ao seu poder de intercessor junto às causas impossíveis. As mulheres solteiras da cidade, à procura de um candidato para o enlaçamento matrimonial, desferiam todo e qualquer tipo de suplício às imagens domésticas de Santo Antônio. Vendo na escultura a própria pessoa do santo, imputava-se punições das mais severas: colocá-la de cabeça para baixo, roubar-lhe o Menino Jesus dos braços, retirar-lhe o resplendor, pendorar-lhe numa corda atrás da porta, entre outras. A punição somente poderia ser desfeita após a conquista milagrosa do pedido. Mais uma vez, uma forma ingênua e encantadora de se comunicar com o sobrenatural.

Ainda que o tempo da modernagem tenha interferido na celebração da festa de Santo Antônio, as marcas históricas dessa manifestação cultural resistem na cidade. Na comunidade católica, trezenas ainda são rezadas, embora com menos liberdade e realizadas dentro da igreja. Nos raros oratórios domésticos ainda existentes nas casas de moradores antigos, as imagens de Santo Antônio trazem as marcas do furto do Menino Jesus, dos arranhões das punições e da fuligem das velas devocionalmente acendidas. Nas memórias dos nativos, a atualização dessas histórias e narrativas revelam o poder milagroso da cultura popular. Por tudo isso, não precisa ser devoto para perceber: Santo Antônio tem lugar cativo no quadro do patrimônio imaterial de Porto Seguro.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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Porto Seguro

4º edição do Dia Mundial da Limpeza

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O Brasil é um dos 180 países que realizará a 4º edição da maior ação cívica mundial –
“World Cleanup Day”

No sábado, 18 de setembro, a campanha World Cleanup day – Dia Mundial da Limpeza, promove mobilização para limpezas ambientais, digitais, mentais e solidárias. As ações serão realizadas em casa e ainda realizará drive-thru para coleta de resíduos em várias cidades do Brasil.

Devido à pandemia da covid-19, a ação terá um formato diferente, a limpeza de praias com mutirões não será realizada, entretanto, será realizado pequenos grupos fechados nas praias.

Confira as praias que serão realizadas a ação e os pontos de encontro:

Em Porto Seguro, as ações de limpeza acontecerão na orla norte, a saber: Praia do Centro, ponto de encontro na Praça das Pitangueiras; Praia Boca da Barra, ponto de encontro no Campo de Futebol de Areia na Orla Norte; Praia de Itacimirim, ponto de encontro, Barraca Manito Praia; Praia de Mundaí, ponto de encontro, Barraca Colher de Pau; Praia de Taperapuan, Ponto de encontro, Cabana Malibú, Cabana Área beach, Barraca Kaiambá, Barraca do Gaúcho; Praia Ponta Grande, Ponto de encontro, Local onde era a antiga barraca do Restaurante Farol da Praia, atual ponto de ambulantes e a Praia do Mutá, Ponto de encontro, Barraca Macuco e Gino Restaurante, Grupo La Torre e também na orla sul, em Arraial, saindo da Praia dos Pescadores às 7:30 até o Bar de Praia Sting, sendo que a triagem será realizada na Praia da Pousada Canto da Alvorada. Haverá também uma apresentação dos drs. Alegria Dajuda e suas turmas às 10h. da manhã no Palco do Sting Bar.

Cada voluntário poderá participar também da campanha da separação dos resíduos,
dentro de sua própria casa, fazendo em seguida o descarte ecologicamente correto nos
Ecopontos e Drive-Thru.

O Instituto Socioambiental Plogging Porto Seguro recebeu este ano o apoio da Secretaria
do Meio Ambiente de maneira muito participativa, cujo apoio se estende a todo
município, participando também a de Serviços Urbanos, Secretaria de Educação e outras
Secretarias.

Ainda, no Dia Mundial da Limpeza, (18), com o apoio da municipalidade será instalado
um Drive-Thru AMBIENTAL no Campo de Futebol de Areia, na Praia Boca da Barra, tendo com objetivo realizar triagem do lixo recolhido das praias.

Para ter acesso a toda programação do evento, acesse o LimpaBrasil.

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