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Porto Seguro

Um príncipe alemão em Porto Seguro: o retrato da vila de pescadores

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Vista da Vila de Porto Seguro, no Rio Buranhém, publicada na "Viagem ao Brasil", do príncipe de Wied
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Nos primeiros dias do mês de setembro do ano de 1816, a vila de Porto Seguro recebeu uma inusitada visita. Tratava-se de Maximiliano Alexandre Felipe, simplesmente príncipe do antigo condado de Wied, região do rio Reno, na atual Alemanha. Integrante de uma das famílias nobres mais destacadas do império prussiano e militar condecorado por ter servido nas guerras que depuseram Napoleão, o príncipe de Wied ficou mesmo conhecido por seu engajamento nos estudos da história natural, que impulsionou seu gosto pelas viagens científicas e filosóficas, consideradas na época as formas privilegiadas de inventariar, classificar e organizar espécies do reino animal e vegetal. Assim, o ilustre viajante se inseria num circuito mais amplos de intelectuais que se aventuravam num projeto planetário de saber, juntando-se a nomes conhecidos como Alexander Humboldt, Langsdorff, Johannes Natterer, Spix & Martius, Charles Darwin, entre outros.

Ao que tudo indica, os moradores de Porto Seguro não perceberam o grau de importância do visitante que chegava ao vilarejo. Para fugir dos protocolos de corte típicos de uma sociedade de Antigo Regime, o alemão decidiu empreender sua viagem sob o codinome de M. Brausensberg, pois, assim, acreditava ganhar liberdade e anonimato para suas pesquisas nas matas e campos do Brasil. De qualquer sorte, sua entrada na povoação certamente não passou despercebida. Afinal, a tropa chamava bastante atenção: mais de uma dezena de mulas, inúmeras caixas de madeira carregadas de produtos químicos, ferramentas e diversas espécimes da fauna e da flora, estrangeiros que não falavam a língua portuguesa, diversos índios e negros empregados no empreendimento como transportadores, guias e soldados. Enfim, a comitiva até podia não carregar consigo os protocolos ritualísticos da etiqueta da nobreza, mas atraía os olhares curiosos dos moradores da pacata vila de pescadores, sede da comarca de Porto Seguro.

A expedição científica de Maximiliano de Wied havia começado na cidade do Rio de Janeiro, em 1815. Antes de chegar em Porto Seguro, já tinha atravessado, sempre pela Estrada Real da Costa, ou seja, pela beira da praia,  a região dos Lagos, os Campos dos Goitacazes e as terras da antiga capitania do Espírito Santo. O que hoje compreende o município de Porto Seguro não era, na época, uma unidade político-administrativa, pois Trancoso e Vila Verde (atual Vale Verde) tinham caráter de municipalidade desde a segunda metade do século XVIII, compreendendo, portanto, vilas autônomas com seus territórios amplos e extensos demarcados. No dia 6 de setembro, Maximiliano e sua comitiva atravessou o Rio Buranhém e seu desenho original e descrição detalhada serviram de base para que gravadores europeus criassem uma bela (ainda que exagerada) representação da vila de Porto Seguro, onde se pode ver o príncipe numa canoa na margem sul do rio e, na margem norte, as casas da cidade baixa e os prédios da cidade alta.

Toda a viagem científica do príncipe foi atenciosamente registrada: coletava-se espécimes, pintava-se aquarelas e descrevia-se a experiência. O resultado mais importante do empreendimento foi publicano no ano de 1820, na Europa, num livro intitulado “Viagem ao Brasil”, que apresenta o relato de toda a expedição, finalizada no ano de 1817, na cidade do Salvador. Os espécimes coletados, os desenhos produzidos e as descrições feitas pelo príncipe de Wied compõem o mais rico acervo que testemunha a vida da então vila de Porto Seguro no final do período colonial. Com seu trabalho, o naturalista levantou dados sobre a história dos povos indígenas da região, recompôs aspectos da história ambiental, descreveu a forma de produzir conhecimento na ciência natural e, principalmente, explorou as diversas dimensões da história local. Desta forma, se qualquer pessoa deseja saber como era Porto Seguro no início do século XIX, não pode deixar de consultar o relato da viagem de Maximiliano de Wied.

Ao chegar à vila de Porto Seguro, Maximiliano não escondeu o espanto diante do “lugar pouco importante” que ocupava a condição de cabeça da comarca de Porto Seguro, onde residia o ouvidor e demais agentes da administração colonial. Ainda assim, não deixou de descrever em detalhes o pequeno vilarejo, considerado por ele menor que Caravelas. Na parte baixa, se encantou com os casarões que seguiam as margens do rio Buranhém, com seus “telhados vermelhos (…) encimados por altos coqueiros, (que) ofereciam vista amável”. E na região da Ponta de Areia, mais no encontro das águas doce e salgada, admirou as “casas brancas e esparsas, habitadas por pescadores e marítimos, e (também) ensombradas por coqueiros”. Já na cidade alta, falou da igreja matriz, da casa de câmara e cadeia e do antigo convento dos jesuítas, encantando-se com a imponência desse antigo colégio dos padres inacianos, do qual hoje só restam as ruínas ao lado da igreja de São Benedito, mas que, na época, ainda era um “edifício grande e maciço”.

Não escapou ao viajante perceber a importância da pesca na economia e na dinâmica do vilarejo. Destacou o papel da construção dos barcos chamados garoupeiras, que eram “muito velozes, mesmo quando o vento não era favorável”. Essas embarcações saiam “em busca de garoupa e mero” na região dos Abrolhos, “permanecendo sempre de quatro a seis semanas no mar”, de onde retornavam “cada uma com uma carga de 1500 a 2000 peixes salgados”, que eram exportados, principalmente, para a cidade da Bahia (Salvador). Numa forma de não deixar dúvida aos seus leitores, o príncipe de Wied afirmou: “os moradores de Porto Seguro gozam da reputação de bons marinheiros”.

Na vila de Porto Seguro, Maximiliano ficou hospedado na casa de câmara. Ali na cidade alta, fez amizade com o professor Antônio Joaquim Moreira Pinho, que residia no antigo colégio dos jesuítas, de quem comprou o botocudo Quack, que passou a ser seu mais importante informante na expedição naturalista e que acabou por se transformar em objeto de curiosidade dos nobres alemães nos salões do castelo de Wied, quando do retorno do príncipe à Europa. Quack havia sido capturado ainda criança a mando do ouvidor José Marcelino da Cunha numa das bandeiras que a carta régia de 1808, assinada por d. João VI, havia autorizado na “guerra justa” contra os Botocudos. Assim como outros tantos indígenas incorporados forçada ou voluntariamente à expedição, Quack auxiliou a aventura científica do naturalista alemão  na condição de guia nas matas e rios, na tradução da língua indígena e na identificação de espécies vegetais e animais.

Reler as imagens e as narrativas do príncipe naturalista que visitou Porto Seguro em 1816 permite recompor um quadro da situação da pequena vila num período de desagregação dos laços coloniais. Antes de revelar verdades, esses registros despontam um ponto de vista, ou, em outras palavras, a percepção de um nobre, naturalista e militar da realidade histórica, cultural e econômica de Porto Seguro. Instigantes anotações sobre o passado, as memórias da visita deste ilustre viajante não podem ser desprezadas como ponto de partida sobre a história local, embora exijam sempre o uso cuidadoso e atencioso de filtros para selecionar todo eurocentrismo característico deste tipo de fonte histórica.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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Porto Seguro

4º edição do Dia Mundial da Limpeza

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O Brasil é um dos 180 países que realizará a 4º edição da maior ação cívica mundial –
“World Cleanup Day”

No sábado, 18 de setembro, a campanha World Cleanup day – Dia Mundial da Limpeza, promove mobilização para limpezas ambientais, digitais, mentais e solidárias. As ações serão realizadas em casa e ainda realizará drive-thru para coleta de resíduos em várias cidades do Brasil.

Devido à pandemia da covid-19, a ação terá um formato diferente, a limpeza de praias com mutirões não será realizada, entretanto, será realizado pequenos grupos fechados nas praias.

Confira as praias que serão realizadas a ação e os pontos de encontro:

Em Porto Seguro, as ações de limpeza acontecerão na orla norte, a saber: Praia do Centro, ponto de encontro na Praça das Pitangueiras; Praia Boca da Barra, ponto de encontro no Campo de Futebol de Areia na Orla Norte; Praia de Itacimirim, ponto de encontro, Barraca Manito Praia; Praia de Mundaí, ponto de encontro, Barraca Colher de Pau; Praia de Taperapuan, Ponto de encontro, Cabana Malibú, Cabana Área beach, Barraca Kaiambá, Barraca do Gaúcho; Praia Ponta Grande, Ponto de encontro, Local onde era a antiga barraca do Restaurante Farol da Praia, atual ponto de ambulantes e a Praia do Mutá, Ponto de encontro, Barraca Macuco e Gino Restaurante, Grupo La Torre e também na orla sul, em Arraial, saindo da Praia dos Pescadores às 7:30 até o Bar de Praia Sting, sendo que a triagem será realizada na Praia da Pousada Canto da Alvorada. Haverá também uma apresentação dos drs. Alegria Dajuda e suas turmas às 10h. da manhã no Palco do Sting Bar.

Cada voluntário poderá participar também da campanha da separação dos resíduos,
dentro de sua própria casa, fazendo em seguida o descarte ecologicamente correto nos
Ecopontos e Drive-Thru.

O Instituto Socioambiental Plogging Porto Seguro recebeu este ano o apoio da Secretaria
do Meio Ambiente de maneira muito participativa, cujo apoio se estende a todo
município, participando também a de Serviços Urbanos, Secretaria de Educação e outras
Secretarias.

Ainda, no Dia Mundial da Limpeza, (18), com o apoio da municipalidade será instalado
um Drive-Thru AMBIENTAL no Campo de Futebol de Areia, na Praia Boca da Barra, tendo com objetivo realizar triagem do lixo recolhido das praias.

Para ter acesso a toda programação do evento, acesse o LimpaBrasil.

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