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Porto Seguro

Operação da polícia militar garante a segurança durante o feriado de Páscoa

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Com apoio das guarnições CIPE-Mata Atlântica, CIPT-Sul e CIPPA, uma operação intitulada “CVLI” foi realizada entre os dias 1 e 4 de abril, com a finalidade de manter a população de Porto Seguro e região segura de crimes no feriado prolongada.

Durante os dias de operação não ocorreram registro de homicídios na região, a ação consistiu na intensificação de policiamento ostensivo para inibir possíveis delitos. A data comemorativa seguiu tranquila.

Fonte: Ascom 8º BPM

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Porto Seguro

É dia de caruru: viva São Cosme e São Damião!

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Imagem de São Cosme e São Damião do Museu de Arte Sacra da Misericórdia
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O observador mais atento pode conhecer as devoções mais populares de Porto Seguro ao percorrer com destreza os altares das igrejas históricas da cidade. Ali, nos nichos que abrigam imagens de 100, 200 e até mais de 300 anos, tem-se um inventário valioso do gosto popular pelos santos. Pode-se notar, por exemplo, os santos deixados pelas ordens religiosas que atuaram na cidade, como são Francisco, santo Inácio e são Bento, respectivamente os padroeiros dos franciscanos, dos jesuítas e dos beneditinos. Pode-se também perceber os santos próprios de determinados segmentos étnicos e sociais, como são Benedito dos negros ou são Sebastião dos indígenas. Além, obviamente, das devoções vinculadas aos poderes miraculosos de determinadas invocações, como santa Luzia para a cura das doenças dos olhos ou santa Cecília para proteção dos músicos. Mas não se pode duvidar: nem todas as crenças do povo da cidade cabem nos altares de suas antigas igrejas.

Este é o caso de são Cosme e são Damião. Aos santos gêmeos não foi dedicada nenhuma das igrejas históricas de Porto Seguro. Não há também nessas igrejas mais antigas uma única imagem dos referidos santos. Esta ausência só é superada quando se olha para a coleção Benigno Ramos do Museu de Arte Sacra da Misericórdia, que tem duas pequenas imagens de oratório de são Cosme e são Damião, datadas do século XIX. Formada a partir dos santos que eram cultuados nas casas dos moradores da cidade e da região, a referida coleção é um testemunho da mais íntima devoção do povo – aquela que se fazia no espaço doméstico, longe da ortodoxia da Igreja e carregada de formas criativas, plurais e complexas de piedade popular.

E, nos tempos mais remotos, para se provar a importância do culto aos santos gêmeos bastava percorrer a cidade no dia 27 de setembro. Não precisava muito esforço para encontrar, especialmente ao meio dia, uma casa com a porta aberta e um movimento singular de pessoas, de rezas, de comidas e de bebidas. Em alguns casos, os estampidos dos fogos ainda podiam ajudar na localização. O entra e sai de vizinhos, parentes, amigos e até de desconhecidos era constante. Com todas essas evidências, não haveria mais dúvida: ali tinha caruru.

O caruru é uma comida que tem como ingrediente básico o quiabo, uma planta originária da África. Cortado e colocado para cozinhar com água e azeite de dendê, o quiabo é temperado com cebola, coentro, gengibre, alho e sal. Para ficar mais saboroso, acrescenta-se ainda camarão e, em alguns casos, o amendoim. Ao servir, acompanha o caruru outras comidas também de origem africana, como vatapá, acarajé, xinxim de galinha, além de feijão, pedaços de cana, batata ou banana da terra e farofa de dendê. Não podem faltar também a pipoca e os doces para completar o banquete.

O início da comilança exigia sempre a observância de certas normas do ritual. Começava muito antes, no preparo da comida: a escolha dos ingredientes, o trabalho coletivo da família e os cantos e causos referentes aos poderes miraculosos dos santos gêmeos. Em seguida, era hora de ornamentar a casa: um altar se erguia no canto da sala principal ou a imagem dos santos se colocava em destaque no interior do oratório, no quarto dos santos. Flores e fitas vermelhas e verdes decoravam a mesinha, coberta por um alvo e delicado pano branco rendado, tendo ao redor velas pequenas coloridas e dois pratos de barro com caruru ofertados aos gêmeos. Na esperança da fartura e na defesa da comensalidade, sete crianças eram convidadas a iniciar a refeição, na mesa que se instala no chão, sobre um pano branco ou um tapete. Ali, em plena liberdade, sem nenhuma norma de etiqueta, as crianças podiam comer do jeito que quisessem. Antes, no entanto, tinha lugar a reza do ofício de são Cosme e são Damião. Somente depois de tais procedimentos, os convidados, transeuntes e desconhecidos poderiam se deleitar com o banquete.

Em Porto Seguro, como em outras cidades da Bahia, cada casa herdava uma tradição diferente. Aqui e ali poderia haver uma forma bem particular de organizar o ritual da oferenda. Os cantos e as rezas, por exemplo, variavam. Mas todos, invariavelmente, reivindicavam os atributos dos santos gêmeos. Em um dos Benditos mais usados, uma das estrofes dizia: “São Cosme quando menino / com seu livrinho na mão / dava saúde aos doentes / e aos mortos salvação / Damião quando menino / com sua peninha na mão / dava saúde aos doentes / e aos mortos a salvação”. Nas orações dos santos, mais uma vez se reivindicava seus poderes miraculosos, quase sempre relacionados à saúde e à prática da cura dos males do corpo e da alma: “São Cosme e São Damião, que por a amor a Deus e ao próximo vos dedicastes à cura do corpo e da alma dos vossos semelhantes, abençoai todos os médicos e farmacêuticos, medicai o meu corpo na doença e fortalecei a minha alma contra todas as práticas do mal.”

O caruru tem, portanto, caráter de uma prática votiva. É uma espécie de desobriga religiosa. Uns ofereciam caruru pelo simples fato de possuírem gêmeos em suas famílias e por terem conseguido superar as provações de gestar, parir e criar as duas crianças ao mesmo tempo com saúde, fartura e esperança. Outros ofertavam caruru como pagamento de promessas – uma forma de agradecimento aos santos médicos pela intercessão miraculosa diante de um caso específico de risco de morte, por doença, parto ou acidente. Ainda havia alguns, no entanto, que faziam caruru como preceito: um compromisso com os Ibejis, onde o banquete acompanhava também a manifestação dos santos gêmeos, com suas estridentes risadas, com sua voz infantil, com suas brincadeiras sapecas e com suas labuzadas de mel. Todas, em geral, traziam os embalos, os pontos e as entoadas dos santos: “Vadeia dois dois / vadeia no mar / a casa é sua dois dois / eu quero ver vadiar” ou “São Cosme mandou fazer / duas camisinhas azuis / no dia da festa dele / são Cosme quer caruru”.

Assim, nessa diversidade de formas e expressões, o culto aos santos gêmeos se espalhou pela cidade. Antigamente, podia-se perceber sua força com mais facilidade. Da cidade alta à cidade baixa, inúmeras casas faziam caruru. Entre ricos e pobres, o banquete se fazia presente. Alguns carurus eram famosos e aguardados por muitos, como o de dona Mariinha, de dona Santa, de professora Damiana, de dona Ladú, de dona Lourdes, de professora Delice, dona Cabocla e de dona Maria da Glória. Ainda hoje, a tradição dos carurus domésticos continua, embora menos numerosos: dona Norma, dona Maria do Imbuque e, certamente, um dos mais antigos é feito pela família de dona Marlene e dona Yayá, na cidade histórica. Resistindo ao tempo, com uma multiplicidade de sentidos, o caruru do dia 27 de setembro é uma marca da presença histórica de africanos na cidade, que se imbricou com as tradições católicas e com as formas de devoção popular, não cabendo em nenhum rótulo simplificado de classificação. É ato de fé, de devoção e de compromisso, com muita alegria, sabores e histórias.

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