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Porto Seguro

Sexta-feira da Paixão: memórias de outrora, histórias de tradições

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Imagem do Senhor Morto, século XIX, madeira - Chico Cancela

A história de Porto Seguro carrega consigo importantes capítulos da história do cristianismo no Brasil. Mesmo antes da sua fundação enquanto municipalidade, o local foi palco da celebração da primeira missa quando da passagem da esquadra cabralina, das primeiras experiências missionárias por frades franciscanos ainda nos primeiros anos da colonização e da construção da primeira igreja nas terras portuguesas do Novo Mundo, que foi erguida no morro da Glória. Em seguida, após a criação da vila na década de 1530, Porto Seguro também foi pioneira na implantação da administração secular da igreja, com a instalação da freguesia de Nossa Senhora da Pena, além de ter sido o lugar onde a inquisição fez sua primeira vítima na América portuguesa, com a prisão do capitão donatário Pero de Campo Tourinho, acusado de heresia e blasfêmia. Nessa história, carregada de conflitos, opressões e violências, restou como principal herança, além das monumentais igrejas e seus acervos de bens móveis e integrados, um conjunto de manifestações de piedade popular, que, desde o século XVI, ganharam magnificência nas cerimônias, realismo nas representações e teatralidade nos atos litúrgicos, cujo fervor religioso tornou-se evidente durante a Semana Santa.

As celebrações da Semana Santa aconteciam num tempo particular do calendário religioso. Era o tempo da quaresma: momento de silêncio, penitência e esperança. Nas igrejas, o colorido alegre e o dourado reluzente das imagens se escondiam frente ao lúgubre manto roxo descido sobre os altares. Nos cantos e ladainhas, os hinos de exaltação se silenciavam diante do canto melancólico e místico das Verônicas e Beús. Sem muitas transformações, pelo menos até a década de 1980, as celebrações da Semana Santa representaram o momento mais sublime da devoção religiosa, afirmando um tempo de memória, que atualizava, por meio de exercícios espirituais, da administração de sacramentos e da ritualização da fé, a provação dolorosa e a vitória redentora de Jesus, bem como a afirmação dos laços de solidariedade, de mando, de parentesco e de crenças entre os porto-segurenses. E, de modo particular, a Sexta-feira reservava um lugar especial como momento de piedade tipicamente barroca.

Sexta-feira era dia santo. Do nascer ao pôr do sol, compromissos e preceitos religiosos demarcavam a rotina dos fiéis. A atmosfera fúnebre rondava a cidade: era dia de rememorar os mistérios da paixão e morte de Jesus. A pequena urbe parava: nada de trabalho, nada de diversão, nada de ostentação. Mais que um dia de ortodoxia, a sexta se santificou como momento de tradições culturais que expressavam a religiosidade popular, que se articulava ao mundo profano, às condições de vida e às formas de crenças.

Sexta-feira era dia de bênção. Mais precisamente: era dia de pedir bença. Certamente, a tradição deve ter origem na ideia de expansão da misericórdia divina. Num dia que simboliza a desesperança da morte, a benção representava uma lembrança de que a graça pode ser alcançada em quem confia em Deus. Mas o ato litúrgico e performático de pedir benção não tinha apenas uma dimensão espiritual. Ele também reforçava as relações de hierarquia e de mando. Logo cedo as portas das casas das famílias mais abastadas da cidade eram tomadas por uma fila de sobrinhos e afilhados – todos ávidos a se ajoelhar diante do padrinho para receber, após este gesto de respeito e submissão, um “Deus abençoe!”, talvez piedosamente acompanhado de algum trocado. Assim, os laços comunitários eram também reforçados, numa tradição que mesclava fé, família e poder.

Sexta-feira era dia de jejum. Verdadeiro ato de penitência e contrição. Mas, de repente, a sexta se tornava dia de desjejum. Seguindo à risca o princípio cristão da comensalidade, o almoço em família se transformava não somente num banquete, mas num momento privilegiado de saborear a mais fina culinária porto-segurense. Proibido o consumo de carne vermelha, misticamente comparada ao Cordeiro de Deus imolado na cruz, sobrava usar e abusar dos benefícios de uma cidade formada quase que exclusivamente por pescadores. Arroz de polvo, escabeche de cavala, moqueca de peroá com banana da terra, garoupa com fruta pão: estes eram os pratos predominantes. Aqui e ali, podia aparecer catados de siri ou caranguejo. Além dos frutos do mar, outras iguarias acompanhavam o cardápio solene, explorando sobretudo os recursos naturais existentes na cidade. Em 1817, o viajante naturalista Maximiliano de Wied revelou sua admiração pelo uso do coco na culinária local: “Preparam-se, na região, numerosos e excelentes pratos com esse admirável presente da natureza; assim, por exemplo, ralam o coco e o cozinham com feijão preto, o que lhe dá gosto muito bom; também fazem dele, com açúcar e outros ingredientes, doces ótimos, que infelizmente não suportam uma viagem à Europa”.

Sexta-feira era dia de cerimônias sacras. Da igreja matriz às ruas da cidade, a fé se expressava numa excessiva teatralidade. Em unidade, a população se reunia para assistir os atos da Crucifixão, do Descimento da Cruz e da Procissão do Enterro. Desde tempos mais remotos, o objetivo destes gestos litúrgicos era sensibilizar os fiéis diante do sofrimento vivido por Jesus para a remissão dos pecados humanos. Em 1566, por exemplo, o padre jesuíta Antônio Gonçalves informou que o povo de Porto Seguro viveu “grande devoção e admiração” ao assistir “dois padres vestidos com suas roupas alvas e descalços, [levando] ao Santíssimo Sacramento em uma tumba toda coberta de preto (…), indo diante as três Marias, cantando Heu, Heu, Salvator noster, cobertas com seus mantos pretos e coroas nas cabeças”. Até pouco tempo, essas cerimônias ainda eram realizadas na cidade carregadas de formas de piedade teatrais, reforçadas com as realistas e dramáticas imagens de Nossa Senhora das Dores, Senhor dos Passos e Senhor Morto, com seu esquife preto de jacarandá; com um amplo número de personagens protagonizados por integrantes da comunidade, que representavam guardas romanos, Marias, profetas e fariseus; com um pomposo e emblemático figurino, cheio de tecidos de cores fortes, capacetes, alpercatas, luvas e lanças; e com uma dramática e envolvente sonoplastia, marcada pelo canto estridente das matracas.

A Sexta da Paixão, entre memórias e tradições, continua a ocupar um lugar destacado no patrimônio material e imaterial da cidade. Ainda que reformadas, diminuídas em sua ritualidade, as cerimônias atualizam um passado recente, especialmente no olhar dos mais antigos moradores. No acervo da imaginária religiosa, a presença e o uso permanente das esculturas devocionais datadas dos séculos XVIII e XIX, mantêm vivas a dramaticidade e a beleza da piedade barroca. Para superar o saudosismo e preencher de novos sentidos essa parcela do patrimônio cultural local, teria efeito milagroso a implantação de política pública de cultura que garantisse a preservação e a promoção de nossas tradições.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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Porto Seguro

Atriz da Globo Marcella Maia diz ser vítima de transfobia em Porto Seguro

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A atriz Marcella Maia, de 30 anos, denunciou, nesta quinta-feira (23), ter sido vítima de transfobia em Porto Seguro, Bahia. A artista mostrou os hematomas na região do pescoço, ombro e seio aos seguidores nas redes sociais. “Preconceito existe. Se cuidem. Sem chão, sem forças. Tô viva”, disse a atriz. “Meu corpo não merece isso”, continuou, acrescentando a hashtag “transfobia”.

A atriz compartilhou as imagens com o mais de 282 mil seguidores que possui no Instagram
Imagens: reprodução

Em nota da assessoria de Marcela, o caso aconteceu na madrugada de quarta-feira (22) na vila de Caraíva. Um boletim de ocorrência sobre o caso foi registrado na delegacia de Porto Seguro.

“A atriz está segura no momento e todas as medidas legais já estão sendo providenciadas”, disse o comunicado, que ainda agradeceu pela preocupação dos seguidores. 

Marcella viverá a personagem Morte na próxima novela das 19h da Rede Globo, “Quanto Mais Vida Melhor”. Em entrevista à Patrícia Kogut em 2020, a atriz revelou que ocultava o fato de ser uma mulher transexual. 

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