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Desculpas por genocídio não bastam

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Na minha infância e adolescência, eu sabia pouco sobre o genocídio dos povos nama e herero, transcorrido entre 1904 e 1908, que exterminou quase 80% dos herero, um grupo de que eu faço parte.

Alguns podem considerar “efêmera” a história colonialista da Alemanha na Namíbia, em comparação com outras potências europeias. Mas as sangrentas consequências da colonização alemã, e a destruição que perpetrou nas comunidades herero e nama, foram muito além do período de quatro anos pelo qual o país disse que está se desculpando: elas mudaram a trajetória de como os dois grupos étnicos existem, até os dias de hoje, na Namíbia.

Depois que as forças alemãs reprimiram as rebeliões dos herero e dos nama, e mesmo depois que o império germânico se esfacelou, em decorrência da Primeira Guerra Mundial, colonos alemães permaneceram no país, em terras que haviam conquistado, enquanto a maior parte dos habitantes locais foi desalojada, com apenas poucos permanecendo para trabalhar para os colonizadores, como povo derrotado.

Meus pais me pouparam dos detalhes, mas eu sabia que tinha uma pequena percentagem de sangue alemão, do meu bisavô, que nasceu em 1914. A mãe dele foi estuprada quando trabalhava como ajudante de cozinha para um senhor alemão.

Quando as palavras importam

O pedido de desculpas e a admissão do genocídio representam grandes passos para a cura das feridas. A Alemanha está revisando seu papel nos crimes da era colonial(ao contrário de outras potências colonialistas) e concordando com um acordo que, em diversos aspectos, é o primeiro do gênero entre uma ex-colônia e seus antigos colonizadores. Mas os alemães parecem estar dando mais passos para trás ao se recusar a classificar a ajuda financeira de “reparações”.

Embora o governo namibiano tenha detalhado para que seria empregada a ajuda (construção de estradas rurais, fornecimento de água e aquisição de terras), para alguns hereros ela está longe de ser suficiente, tanto em termos de valores como, mais importante, de significado.

Chamar de “ajuda financeira” o pacote de 1,3 bilhão de dólares o torna equivalente às verbas consideráveis que o país tem recebido da Alemanha desde sua independência. Tal terminologia sanitariza a seriedade e a natureza dos crimes que o governo alemão está admitindo. Ela levanta a questão: como a Alemanha pode estar realmente disposta a aceitar seu papel no passado colonial namibiano se se recusa a chamar de reparações o seu acordo financeiro?

Essa resistência em usar o termo por razões jurídicas está bem documentada. Mas os grupos afetados não estão interessados na estratégia de política externa alemã, com o fim de evitar estabelecer um precedente para exigências futuras: eles querem ter certeza de que são genuínos os pedidos de perdão do país pelos crimes que diz ter cometido.

Conciliação unilateral

Diversos líderes que representam o povo herero e nama rejeitaram a oferta de Berlim, considerando a quantia oferecida “um insulto”. Além disso, a estratégia de ambos os governos de negociação bilateral – em vez de Berlim diretamente com os grupos implicados – criou uma sensação de exclusão entre os descendentes das vítimas. Ela impedirá qualquer reconciliação entre a Alemanha e os grupos nama e herero, e os descendentes dos colonos alemães, que em muitos casos ainda possuem terras adquiridas durante a época colonial.

Há ainda a falta de confiança, por parte das duas comunidades namibianas, de que a ajuda será integralmente empregada para os fins pretendidos, em vez de desviada para propósitos escusos.

Considerando-se a imensa primazia econômica e política da Alemanha sobre a Namíbia, a ajuda financeira prometida pode ser interpretada como um “presente” paternalista e caridoso para todas as vítimas do genocídio – algo que Berlim diz querer evitar.

As desculpas alemãs poderão ser um passo na direção certa, mas não há por que se iludir que bastem para encerrar esse doloroso capítulo. Longe disso: hoje há um grande número de jovens namibianos, como eu mesma, que tiveram as trajetórias de suas famílias direta e irrevogavelmente prejudicadas pelas ações brutais das forças colonialistas. Vai haver dor para as gerações futuras.

O sentimento de exclusão por parte das vítimas e a referência a uma “ajuda” arruínam as chances de as desculpas alemãs realmente ressarcirem as vítimas de sua conquista colonial. A menos que ambas as partes se defrontem em pé de igualdade, o pedido pode soar correto para a Alemanha, mas vazio para as comunidades nama e herero.

Okeri Ngutjinazo é jornalista da redação Inglês para a África da DW. O texto reflete a opinião pessoal da autora, não necessariamente da DW.

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Caos e revolta na chegada de haitianos a aeroporto deportados dos EUA

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Imagens de vídeo registradas no aeroporto mostram pessoas lutando para pegar seus pertences pessoais depois que as bagagens foram jogadas de dentro do avião oriundo dos EUA. Há relatos de que alguns migrantes não foram informados de que seriam enviados de volta ao Haiti.

De acordo com um comunicado divulgado pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA, houve dois incidentes relacionados aos voos que levaram os haitianos de volta.

A emissora de televisão NBC News apurou que os pilotos de um dos voos foram agredidos na chegada ao Haiti e que três oficiais da imigração dos EUA também ficaram feridos.

Pessoas buscam seus pertences em aeroporto haitiano
Legenda da foto,Pertences dos deportados foram jogados da aeronave que os trouxe dos EUA

Em um incidente separado no estado americano do Texas, um grupo de haitianos teria lutado contra guardas de fronteira do governo dos EUA e tentado escapar após perceber que seriam deportados. Eles estavam sendo transportados em um ônibus da cidade de Brownsville para Del Rio.

“Quando os migrantes descobriram que seriam enviados de volta ao Haiti, tomaram o ônibus e fugiram”, disse Brandon Judd, presidente do Conselho Nacional de Patrulha de Fronteira.

A deportação de migrantes foi criticada pela Partners In Health, ONG que atua no país.

“Durante um período desafiador e perigoso para o Haiti, é inconcebível e cruel mandar homens, mulheres e crianças de volta para o que muitos deles nem mesmo chamam mais de ‘casa’.”

Muitos haitianos deixaram o país após um terremoto devastador em 2010, e um grande número dos que estavam no campo vivia no Brasil ou em outros países da América do Sul e viajou para o norte depois de não conseguirem encontrar empregos ou situação legal.

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