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Correspondências em rede – com Kauan Almeida

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Trocas de E-mail entre o colunista Vinicius Santos e o escritor e pesquisador Kauan Almeida.

Primeira Carta – Sobre o futuro e a palavra frente ao precipício

Kauan, 

tento me lembrar da última vez que te vi, em outro tempo, de corpo presente, não lembro! por mais que eu tente, não lembro, mas te imagino, seus cabelos longos e pretos, e me apego ao seu sorriso, sempre sincero, como pode a poesia sair tão fácil de você? não sei se de fato a escrita é algo tão simples assim para você, mas daqui, te admirando de longe, percebo que você faz parecer fácil, não porque nasceu com um dom, mas por ter se doado tanto que virou palavra-poesia, um texto desses que subverte todas as epistemologias. 

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Ainda que eu tente não lembro da ultima vez que te vi, nem da primeira, mas lembro com certeza do sentimento, da sua elegância, essa que é uma dádiva tão sua, tão leonina, me lembro bem do magnetismo e da doçura que carregava e ainda sei que carrega.  

Tenho me perguntado para onde vão as palavras e o que se movimenta depois que elas se manifestam no corpo, no mundo, seja a palavra som ou a palavra imagem, seria toda palavra uma ruptura? Existe uma separação entre elas? Não sei se é isso o que importa. São todas as palavras um acontecimento? Como as palavras te acontecem?

Palavrear – palavra e ar

Durante o ano de 2020 eu sofri muito o futuro, um sofrimento que beirava a mágoa, me perguntava também, como curar uma dor enraizada no futuro?  Hoje percebo que em parte me vi magoado com o futuro, com a sua incerteza, com a sua demora, com o seu abandono, sabia que era no tempo que encontraria algum conforto, mas ele também me parecia vilão, que tempos são esses em que vivemos? O que pode o tempo se não me presentear com a espera? Me pergunto também sobre a ancestralidade, sobre a nossa história, de novo sobre o tempo, que respostas aqueles que nos antecedem apontam sobre o nosso futuro? Como existir no futuro? Como é perceber o tempo daí, desse corpo?

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Como é se afetar pelo amor? pela sua força e horror? Para Drummond “Amor é o que se aprende no limite” ,  você já se encontrou no limite? Na beira do abismo você pula ou foge? O que você vê quando se encontra nesse precipício que é estar no limite, vivendo isso o que chamamos de amor?

Sobre afetos, homens, bixas, pretos, sobre a nossa linguagem, nosso sexo, sobre o desejo e o devir da liberdade, como é amar daí, desse corpo? Será que um dia o amor deixa de ser revolta?

Kau espero te ler, ver e abraçar ainda num futuro próximo

Ass,

Vinicius Santos  

Segunda carta  – Só escrevo aquilo me foge

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Desde que eu li a carta-pergunta-enigma que me enviou tenho tentado pensar nas dobras do tempo. é uma espécie de labirinto, sabe?! labirinto tal qual aquele outro, o da senhorita Jorge B. Xavier, de Clarice Lispector. é como se ao ler, algo se rompesse, não sei exatamente o quê, mas algo se quebrou e me pôs a pensar no impensável, essa sensação tão bem elaborada em Clarice, a sensação que à procura da dignidade, me vejo de quatro a olhar sob a cama papéis envelhecidos, feito uma cadela.

Isso é algo que não abro mão, certa vulgaridade da escrita: as mesmas mãos que escrevem uma mensagem linda no whatsapp, podem ser as que emitem sentenças. Mas a poesia não habita puramente a escrita, ela é justamente a impureza, a experiência da leitura como exercício espiritual, daí penso que a poesia seja o próprio método de libertação interior, como fala Octavio Paz. Isso é assustador, não acha? É um excedente da própria experiência que nos força a um novo ponto de vista, o que faz com que todo acontecimento — a palavra, por exemplo — seja espiritual. Sabe quando o Mateus Aleluia canta que toda palavra é o início de uma reza? pois é, penso assim.

Muito tempo pensando em tudo, e tudo é tanta coisa que me parece falho escrever. Um abraço às vezes dá conta de tudo que guarda um instante, então, escrevo dentro do instante como um abraço em você. Você me questiona sobre o amor, só posso escrever daquele que considero o único possível, o único que me permite a um só tempo, a fidelidade e a infidelidade como reverência, falo do amor à poesia.\

I – a poesia não tem borda – é como se houvesse qualquer coisa incinerável em mim

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O meu contato com a poesia é sempre um quando. Não sei como e não sei onde e muito menos o porquê, talvez, como uma vez escutei da Sandra Corazza, “se eu soubesse já estaria morto”. Eu sempre enxergo os versos como pequenas insurreições na folha, a poesia não tem borda. Quando eu era pequeno lia poemas nos livros didáticos do meu irmão, adorava os livros de língua portuguesa, porque neles havia poemas. O desarranjo dos versos me agrada porque me descentra, me quebro junto às linhas e quando vejo já não sou o mesmo. Não há como saber de qual matéria o pensamento se dá, às vezes, um único verso me dá a pensar o que nenhuma outra coisa poderia me oferecer. Dar a pensar. Tá aí, talvez esse seja o meu ponto de excitação, é como se houvesse qualquer coisa incinerável em mim e algum verso em algum lugar fosse a substância necessária para um incêndio. A poesia me dá linhas de pensamento, pois, ao ler, a escritura já é outra simplesmente porque se encerra na experiência do instante. Nesse sentido, sou escritor antes mesmo de ser alfabetizado. Quando tomo às mãos os versos de Nicanor Parra, já não há Nicanor Parra. É isso, a poesia violenta o testamento, violenta todo o delírio de posse construído pela e através da escrita no ocidente. 

II – a poesia é o ponto falho do discurso – meu projeto de ausência

Escrever que também é ler é a constituição do meu projeto de ausência. Só escrevo aquilo que me foge, aquilo que desejo expurgar de mim pela via da morte. No verso cada palavra se bifurca, é nele onde, por excelência, a palavra se desassocia da coisa e multiplica-se, a poesia é o ponto falho do discurso, o simulacro da palavra. Por isso, sempre achei fraca demais a verborragia discursiva sobre a palavra certa, quando, na verdade, a palavra precisa errar muito pelo mundo para que, assim, suja de mundo, passe a testemunhar somente pelo lampejo de sua presença. Quando digo que a leitura e a escrita são os meus projetos de ausência é, pois, pela possibilidade da fuga, do desaparecimento da minha carne. Se algum dia alguém ler, já não será mais um “Eu” ali —até porque nem eu sei se me sou —, mas uma ficção ou o tecido translúcido, mesmo que tentem atravessá-lo para ver o que há por trás, não haverá nada além do próprio tecido, das linhas que se cruzam, do coser dos fios de palavras. 

III – poesia violenta – poemas são cortes

Toda poesia exerce uma vocação revolucionária no interior do próprio pensamento, ou seja, na criação poética há um domínio do absurdo que só pode ser exercido através da violência. A poesia violenta a linguagem pois desmonta o estatuto da representação, ela é anterior à fala e se nutre da fala para ganhar uma forma, assim que ganha forma no mesmo instante já se transmuta. Octavio Paz escreveu uma sentença linda a esse respeito: “O poema é uma criação original e única, mas também é leitura e recitação – participação. O poeta o cria; o povo, ao recitá-lo, recria-o. Poeta e leitor são dois momentos de uma mesma realidade“. Veja, ele coloca o poema como participação, a palavra participação vem do latim participare e parte cipere, evocando o sentido de receber algo de outrem, mas esse algo recebido nunca o é por totalidade, é sempre parcial. Os escolásticos produziram a máxima de que “o que é recebido o é segundo o modo de ser do recipiente” ou “nada pode receber acima de sua medida”, assim, o poema fala a todos e a cada um em particular e, nesse particular, cada um pega aquilo que pode pegar. O exercício revolucionário da poesia se dá no momento em que se faz constante, um único poema é capaz de distorcer o espaço-tempo da representação e se fazer muitos em um e assim esgotar a interpretação justamente pela sua impossibilidade. Não se interpreta poemas, poemas são cortes.

IV – o fim é uma ilusãoNão há gramática que impeça a palavratodo desejo é abolição

Algumas palavras nos ferem pelo seu justo poder de ferir. A palavra-máscara por cima da máscara-palavra. No poema há uma produção incessante de sentidos, de modo que o próprio sentido seja sempre uma distância a ser percorrida e jamais se pode ter a certeza do encontro. Nenhuma palavra é sentença, ainda que as sentenças sejam formas palavreadas de fim. O poema como um vazio e um adiamento. Oráculo do tempo ancestral. Desde que cheguei a Porto Alegre não faço outra coisa senão ler poemas e escrever com sangue alguns versos ruins. A linguagem tem se tornado o meu mito de Sísifo, rolo a pedra sabendo que o fim é uma ilusão, mas a proposta de esgotamento me parece interessante o suficiente para fazer da maldição o absurdo a que me desdobro. A poesia me faz suportar a vida e viver em tantos suportes quanto me for possível até que os versos rasguem o papel e se inscrevam na carne. Escrever na carne com a carne como só os loucos podem e ser justa a minha loucura, o meu absurdo, a minha tirania dupla contra o mundo e contra mim. A linguagem em sua política é puramente poética e toda política que não se faz poética é por si fascista. Não é a questão para que serve o poeta em tempos de penúria, mas com que poesia a linha revolucionária se faz? Sophie de Mello Breyner Andresen escreveu que “a forma mais eficaz que o poeta tem de ajudar uma revolução é ser fiel à sua poesia. Escrever má poesia dizendo que se está a escrever para o povo, é apenas uma nova forma de explorar o povo”. Quando me duplico não escrevo para o povo, mas para o instante, a minha lealdade à poesia é anterior aos ideais das roupas que nos querem a pele, ainda que pele e poesia sejam forças eminentemente políticas que são domadas pela linguagem e, paradoxalmente, são traiçoeiras às proposições linguísticas. Não há gramática que impeça a palavra.

VArriscar a minha crença no mundo através do meu amor pelo mundo que se apresenta ante a mim. Caminho com os fraturados, os que não sabem sobre a nota atordoada, mas que se correm o imprevisível, que são tomados pelo swing de atenção, os que fragmentam as Leis por ouví-las bêbadas, os de unhas sujas, pervertidos, putos, bêbados, poetas e toda sorte de gente que não vive sob o assombro de Deus, que reinventa a anatomia da delicadeza. Um dia me disseram que eu era negro, n’outro que eu era viado e eu percebi que a minha presença aterrorizava a fantasia de esquecimento erguida sobre cemitérios coloniais. Desde então crio corpos como crio poemas ou crio poemas ao criar corpos, “o corpo é sempre o futuro daquilo que se diz “entre-nós”, como escreveu Barthes. Penso sobre os que buscam as causas e efeitos do mundo, vão ao passado com seus discos rígidos, leem biografias como palavras bíblicas e retornam, pobres senhores do tempo, todos devorados em seus devotos juramentos de efeito, puros corpos soterrados. Escrevo para experimentar uma vulnerabilidade das coisas, escrevo quando me olho demais e vejo que sou uma coisa dentre as coisas. Escrevo como meu projeto de ausência, palavra por vir. Os grandes varões da teleologia, os ministros do futuro, os coreógrafos do tempo, todos exterminados pela escuta dos povos, pelo toque do tambor, pela pele que de tanto ser órgão desorganiza o tempo por ser externa, a escuta através da margem. A poesia como margem, onde toda palavra é fuga e todo desejo é abolição. O tempo geológico dos versos que me faz acreditar que o mundo, tal como o conhecemos, com seus alicerces produzidos dentro de laboratórios ocupados por polvos tentaculares de decência, verdade e brancura, não existe. A minha ficção é a destruição.

Ass,

Kauan Almeida

Professor, Artista e Bixa, nascido com o sol em Capricórnio. Pesquisador da cena, da dramaturgia, da performance. Licenciado Interdisciplinar em Artes pela UFSB e estudante de Artes do Corpo em Cena também na UFSB. Militante LGBTQIA+

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Ser um atleta negro em Tóquio e a dívida do Brasil para conosco

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31 de julho. Dia da mulher africana. Esta que é o ventre do mundo. Esta que sofreu todas as agruras do Ocidente e teve os seus obrigados a construir esta parte de cá. O Brasil nem se fala. Como diria, Abdias do Nascimento, “o Brasil é um país de indígenas, construído por negros a serviço dos brancos.”

Acredito que nós, mulheres e homens negros, NÃO DEVEMOS NADA A ESSE PAÍS; nada devemos ao Brasil. Ao contrário: ele nos deve muito! Ele nos deve o projeto genocida que tomba nossos corpos diariamente, invadindo um lugar planejado para nosso despejo, tal como nos lembrou, ainda em 1958, Carolina Maria de Jesus.

Tudo o que a favela produz ou possui é visto como negativo, ruim, banditista. Até que caia na graça da classe que se acha supremacista.

31 de julho de 2021 e estamos numa data muito simbólica para esse projeto de nação que é o Brasil. Aqui o Estado invade as favelas (e o uso deste termo é proposital!) e concebe as maiores chacinas já vistas na história mundial e deixa a sociedade sem nenhuma explicação porque a existência desses espaços já é um motivo-fim; aqui o Estado atira contra carros de família e dispara 80 tiros sem nenhuma comoção; aqui o Estado tira a vida de uma vereadora preta e seu motorista e nos deixa aquém de uma resposta sobre a autoria do mando do crime há mais de 3 anos. Aqui meninos e meninas negras são fuziladas do alto, de helicópteros do Estado, a caminho da escola.

Mas, que exagero… O Brasil não é só isso! Claro que não… O Brasil é também o país  que nega a estas crianças e adolescentes o direito à Educação, ao esporte e lazer. Mas veja… muitas delas estão nas Olimpíadas. Sim! Estamos em meio às Olimpíadas de Tokio… E o esporte não é diferente quando falamos de espaço de poder e isso significa refletir sobre valores de bolsa atleta, esporte que é mais ou menos reconhecido social e nacionalmente, esportes “de elite” e, consequentemente, quem e de onde vem quem pertence a eles, patrocínios e outros suportes.

As Olimpíadas de Tokio me chamam atenção peculiarmente por atletas que se sobressaíram para além da excelência em suas práticas esportivas. O primeiro é deles é Paulo Henrique Sampaio Filho, o Paulinho. Um dos jogadores da seleção olímpica de futebol ganhou os olhos do Brasil e do mundo, após comemorar um gol contra a seleção alemã, a qual nos remete à lembrança do 7 x 1 da copa de 2014, homenageando seu orixá de cabeça, meu pai Oxossi.

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Paulinho jogador da seleção olímpica brasileira

Antes mesmo das olímpiadas, Paulinho havia reverberado em suas redes sociais que somente Exu poderia iluminar o país. Um choque para um território que se diz laico, mas o qual invade terreiros de religião de matriz africana, expulsa líderes religiosos dessas religiões das comunidades em que vivem, desrespeita sua fé. Sim, assim como Paulinho, somente Exu para iluminar um país que não sabe comunicar, que não sabe transitar na diversidade, respeitar individualidades, lidar com os atravessamentos da vida. Somente Exu, aquele que abre e fecha portas, aquele que dá e que também toma, que, sem ele nenhum passo é dado, é capaz da reviravolta que esse país precisa, de devolver aos donos e construtores desse país todos os espaços e direitos negados. E Oxossi, o senhor das matas, aquele que tem o seu lugar de axé duramente atacado nesse país? Se a pandemia nos permitiu olhar para um meio ambiente covardemente vilipendiado no Brasil, o guerreiro de uma flecha só abre os olhos do país para a astúcia do povo negro!

Quando Paulinho simboliza o movimento de seu orixá regente, ele abre o caminho para mostrar que o indivíduo negro brasileiro carrega em seu sangue a ligeireza, a astúcia, a sabedoria, o jeito ardiloso de capturar a caça. Como bom apreciador das artes, da beleza e contemplação, Oxossi é um caçador de axé. Ele busca as coisas boas para um ‘ẹgbẹ́[1]’, caça as boas influências, as energias positivas. E como não poderia fazer diferente, Oxossi fez tudo isso, movendo o mundo a olhar para seus filhos (ainda que estes não o sigam religiosamente!). Vão ter que engolir a potência dessa garotada…

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Rebeca Andrade primeira atleta do Brasil a ganhar duas medalhas numa mesma edição das Olímpiadas

Além de Paulinho, temos Rebeca Andrade que invadiu as telas do mundo com o funk, mostrando a potência desse estilo que é “som de preto e de favelado” e trazendo na mochila duas medalhas, ouro e prata. Rebeca não deve nada a um país que rechaça sua origem, sua cor, seu gênero e que a lembra diariamente que ali não é seu lugar, tal como lembrou duramente Daiane dos Santos quando, ainda em exercício olímpico, sofreu com as duras pancadas do racismo, a ponto de não quererem nem com ela dividir banheiro de ginásio.

Lembro ainda de nomes como Hebert Conceição, pugilista soteropolitano, baiano que, assim como Robson Conceição, tem o seu esporte desvalorizado em todos os cantos. Se você riu quando Robson disse que foi na corda da banda Chiclete com Banana que se descobriu boxeador, você pertence ao grupo de pessoas preconceituosas, racistas que desmerecem mais um garoto preto pelo lugar de onde vem. Exagero? Não. Realidade. Estamos falando de um país que se sustenta no racismo estrutural que nega condições iguais para grupos com características que a História subalternizou.

Hebert Conceição
Hebert Conceição medalhista brasileiro

Na minha opinião, faltou ao Hebert Conceição, ao se tornar semifinalista olímpico nesta madrugada do dia 01/08/2021 e gritar para o mundo o seu merecimento, escancarar a dívida do seu país para com ele e os seus. Mas para bons entendedores meias palavras bastam. Na hora da comemoração, muitos racistas de plantão esqueceram que ele é o baiano, da periferia de Salvador, preto. Na mesma linha, poucas pessoas teriam acreditado que ele poderia ter sucesso na vida, pois nesse país sabemos o destino que professam aos muitos meninos negros.

Temos ainda o Paulo André, outro nome do atletismo… Poxa, outro menino preto? Sim… Para a tristeza desse país, um menino que não conseguiu dar errado e que recebe um “tic” nacional quando diz que ambiciona superar Usain Bolt. Que droga, Paulo! Contrariar uma nação que já tinha em seu imaginário a definição de um propenso marginal que morreria cedo ou estaria preso? Mas pela vontade de Zambi [2] e contra a vontade do sistema, você é aquele cara que deu certo para sua mãe e seu povo e deu errado para a sociedade racista.

E, por fim, mas não o último… Peço perdão por não listar todos… Como não falar de Ângelo Assumpção. Esse garoto, alvo direto da força racista desse país chamado Brasil. Um menino negro, talentoso, profissional, mas que ousou denunciar o racismo. Sim, porque o racismo nesse país é um crime perfeito, sofisticado. Aqui temos, inclusive o crime e não temos o criminoso. E ai de quem o denuncie! É fadado ao negacionismo e esquecimento como tentam fazer como o nosso tão potente Ângelo que, por um motivo aparentemente inexplicável, não estava nas olímpiadas.

Ah… E esse texto era para falar somente de Brasil, mas não posso deixá-los de fora… Primeiro Jorge Fonseca, judoca português que ganhou medalha de bronze na categoria masculina até 100 kg e dedicou a vitória às marcas esportivas que não quiseram patrociná-lo. Para mim, a melhor das respostas… Afrontosa? Nem um pouco. Verdadeira.

Jorge, assim como todos os atletas negros, sabem a lida das grandes marcas e o torcer de seus narizes quando se trata de investimentos. Envolveu dinheiro, o racismo impera.

No momento da declaração, Jorge dispara:

No momento da declaração, Jorge dispara:

“Esta medalha vou dedicar para (…) e (…) porque disseram que eu não tinha capacidade para ser representado. Dedico esta medalha para dirigentes da (…) e da (…). Já mostrei que eu sou bicampeão do mundo, terceiro dos Jogos Olímpicos. Qual estatuto preciso para ser patrocinado pela (…) e pela (…)?”[3]

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Jorge Fonseca judoca português

É sobre ter que mostrar que você tem que ser não duas vezes melhor, mas 10, 20, 1000 vezes e, mesmo assim, o racismo baterá primeiro na nossa porta com uma arma engatilhada para nossa existência. 

E ainda Simone Biles, exemplo de força e autoamor, alvo do olho violento do mundo, abrindo mão de medalhas, preferências e possíveis vitórias, para sua vitória maior: sua saúde mental. Simone Biles, como diriam meus alunos, foi o verdadeiro baile de favela. Recusou a concorrer em prol de si mesma. E por que não? Tudo o que o mundo não queria que ela fizesse, que uma pessoa preta queira fazer: colocar-se em primeiro lugar, respeitar sua vida e sua existência. Se o mundo não a quer viva, ela quer. Não teve como eu não lembrar de uma frase da época de Orkut[4] “Eu sou mais eu, se você não é: problema seu!” Que resposta melhor ela poderia dar ao universo? Virei fã e quanto ela me ensinou e me alertou de que priorizar sua saúde mental é estar no caminho. 

Ainda em 31 de julho de 2021, um grande artista da música baiana e brasileira, Lazzo Matumbi, lançou o clipe de um hino da sua carreira e que fala muito sobre esse país, 14 de maio. De autoria dele e do saudoso Jorge Portugal, Lazzo Matumbi denuncia o dia após a abolição para a população negra e que se estende até a atualidade, com a ausência de direitos, de igualdade, de cidadania. Além da beleza da composição e da força das palavras e da resistência, eles clamam:

Mas minha alma resiste, meu corpo é de luta
Eu sei o que é bom, e o que é bom também deve ser meu
A coisa mais certa tem que ser a coisa mais justa
Eu sou o que sou, pois agora eu sei quem sou eu

Eu acredito em meu povo… Acredito que cada vitória desses meninos e meninas, à sua maneira, foi um exemplo de sagacidade. Sabemos que somos diariamente jogados no abismo e, caso sobrevivamos, temos que sair de lá sozinhos, sem qualquer recurso de quem quer que o possa oferecer. Sabemos a luta diária e sabemos todos os jogos sujos e vorazes que a sociedade proporciona para que não vençamos, inclusive usar os nossos contra nós mesmos. Cabe-nos reaprender a caminhar, cabe-nos nos proteger. Cabe-nos continuar vivos: essa é a maior ofensa que podemos causar a quem (tenta) nos sucumbir diariamente.

O meu orí saúda o seu orí!


[1] Ẹgbẹ́, aqui escrito em yorubá, grupo e até mesmo os lares, de maneira mais informal.

[2] De maneira resumida, Deus supremo na religião de matriz africana.

[3] Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/judoca-ganha-bronze-e-ironiza-adidas-e-puma-o-que-preciso-para-ser-patrocinado/

[4] Para os mais novinhos, o Orkut foi uma rede social que existiu nos anos 2000, antes mesmo de Instagram, Facebook e outras.

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