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“Diz pra mim o que seria de mim se não fosse o funk.”

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“Baile funk” no evento Rock In Rio, em 2019, no Palco Sunset (Foto da Internet).

Te desafio, leitor/a desta coluna, a não concluir na sua mente o trecho completo da canção a seguir: “é som de preto, de favelado…” Se conseguiu, meus parabéns. Se não, parabéns também, é inevitável. O clássico Som de Preto, dos Mcs Amilcka e Chocolate, deveria se tornar patrimônio da humanidade, se “eu não estou maluco na minha tese”. Som de Preto, bem como o Rap da Felicidade de Cidinho e Doca, Rap do Silva de Bob Rum, entre tantos outros clássicos.

Já perceberam, né? O assunto hoje será funk e, a título de curiosidade, o gênero musical completa neste ano 32 primaveras, 32 anos de história e vêm se consolidando como identidade brasileira e o movimento musical que mais cresce no país. Sua massa envolve produtores, Mcs, dançarinos, Djs, incluindo pesquisadores e ativistas que reivindicam por respeito, ou melhor, pelo “máximo respeito”, para tratar nos termos das gírias da periferia. O pedido de respeito se relaciona pelo fato de o funk ter ganhado o Brasil e o mundo. Em 2020, o canal do youtube Kondzilla, administrado pelo empresário Konrad Dantas, foi eleito o canal com maior número de inscritos no Brasil, contemplando as melhores paradas de sucesso e consagrando, freneticamente, vários hits de funk. É o ritmo que, como bradou Mc Carol de Niterói “Tá abalando a atmosfera. Toca na pista, toca na favela”.

Embalado pelas paredes quentes da barriga da minha mãe comecei a frequentar baile funk ainda com meses de idade. Não sabia desse episódio, só no ano passado, aos 28 anos, que tive conhecimento. Ainda sobre embalar, a seguir com outro sentido, é o funk que embala as festas e encontros na minha família. É evidente, pois, já aos 16 anos minha mãe manjava de fazer os passinhos em bailes da Zona Norte do Rio de Janeiro junto com seu bonde, outras meninas da mesma idade. Hoje chamaríamos de rolezeiras, porém os bailes não eram meramente lugares para diversão, para dar rolê, eram também espaços de sociabilidade, inclusão e de aprendizagem. Espaço de/do ser-sendo para re-existir. Espaço de alteridade, e continua sendo. É assim nos bailes de norte a sul do país.

Num cenário de grande exclusão e preconceito, especialmente aqui os anos 90, contexto em que minha mãe começou a frequentar os bailes funk, não era nada fácil assumir-se funkeiro ou funkeira. Assumir uma estética funkeira era “pedir” para ser perseguido e ter a sua imagem manchada. Lembro do depoimento de Paulo, figura emblemática do documentário Funk Rio (1994) de Sérgio Goldenberg. Disse ele: “Se a gente for de cabelo enrolado arrumar um serviço, eles não aceitam. Eles sabem que nós somos funkeiros, e a acha que nós somos ladrões, vagabundos, coisa que não tem nada a ver. Se você chega no serviço e diz que é funkeiro, que gosta de funk, aí eles têm aquele preconceito: ah, deixa disso, funk é só pra bandido, pra ladrão.” Vejam, ser funkeiro ou funkeira era (?) sinônimo de bandido, ladrão, vagabundo. Acrescento, sinônimo de sujeitos alienados, sem futuro, criminosos e perigosos. Para a escritora Juliana Bragança, em seu livro Preso na Gaiola, de todas as mazelas que vivia o Rio de Janeiro, a culpa era do funkeiro. O funkeiro estava ligado a baderna social.

Sob a ótica do status quó, os funkeiros desestruturavam toda uma ordem vigente, restando ao sistema (representado por uma branquitude racista e apoiado pelos meios de comunicação de massa) a repressão, perseguição e criminalização.

A criminalização, e também a estigmatização do funk é marcada pela discriminação racial e de classe. Ou seja, tem a ver com a origem racial e social dos funkeiros. E linguisticamente falando, incomoda o fato de certos Mcs não usarem o “português de maneira correta”. É a linguagem coloquial que domina os palavreados rítmicos do funk, o que até hoje não tem sido impedimento para sua expansão e popularização. É com essa linguagem que os manos e as minas transmitem suas visões de mundo.

Mesmo com diversas investidas legais e judiciais, com o sensacionalismo televiso quando tratam do tema funk e baile, o funk segue seguindo naquele pique.

É certo que a música envolve padrinhos num batizado e enlutados no enterro; agita boates, casórios, formaturas, mas seguir seguindo significa caminhar sem estigmatização. Os artistas do funk, por exemplo, precisam de reconhecimento e não um par de algemas, acusados de associação ao trafico sem provas. A hashtag #funkeironaoebandido, disparada toda vez que um Mc é convocado para prestar depoimento, evidencia a denúncia de um grupo que não aguenta mais ser visto como criminoso. Foi o caso dos Mcs Brinquedo, Salvador da Rima, Ryan que pararam na delegacia em São Paulo acusados de envolvimento com o tráfico por suas músicas. Onde fica a liberdade de expressão? É de perto, mais uma vez, um exemplo sistemático de perseguição contra os funkeiros em seu modo mais ostensivo.

Para uma quebra de paradigmas em relação ao funk, o movimento precisa ser entendido na sua complexidade. Reduzi-lo a um subgênero, a uma música, a uma história em particular é agir com desonestidade intelectual e falta de hombridade. O funk tem aberto muitos caminhos e o seu lado social e político carece de atenção.

 Há muitas fontes para consultar e saber mais sobre funk. Uma das maneiras para se desprender do preconceito contra o funk é conhece-lo. É se ligar no papo reto que muitos funkeiros estão dando nas redes sociais, por exemplo. Para essa emancipação sobre o funk te convido a visitar páginas como @funkeiroscults; @canaldothiagson; @prof.julianabraganca; @funkderaiz; @pontosdefunk e @sobrefunk. Deliciem-se. Esse apelo é o mesmo apelo que fez o Mc Max em Mestre de Cerimônia.. “Queremos ao menos uma chance para mostrar o que o funk fez. Ele abriu caminhos importantes. E nesse meio cada um tem sua vez.”

Fica a mensagem/convocação…

Querem tirar o cabo do microfone do funk para ele perder sua força. Juntos não deixaremos. Querem tirar o shortinho curto do funk para que ele não se movimente. Juntos não deixaremos. Querem tirar a poesia da garganta preta do funk. Juntos não deixaremos. Funk é resistência e necessita de muitos braços e mãos para se fortalecer. Afinal, o que seria de nós se não fosse o funk? Eu seria um corpo em coma.

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Ser um atleta negro em Tóquio e a dívida do Brasil para conosco

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31 de julho. Dia da mulher africana. Esta que é o ventre do mundo. Esta que sofreu todas as agruras do Ocidente e teve os seus obrigados a construir esta parte de cá. O Brasil nem se fala. Como diria, Abdias do Nascimento, “o Brasil é um país de indígenas, construído por negros a serviço dos brancos.”

Acredito que nós, mulheres e homens negros, NÃO DEVEMOS NADA A ESSE PAÍS; nada devemos ao Brasil. Ao contrário: ele nos deve muito! Ele nos deve o projeto genocida que tomba nossos corpos diariamente, invadindo um lugar planejado para nosso despejo, tal como nos lembrou, ainda em 1958, Carolina Maria de Jesus.

Tudo o que a favela produz ou possui é visto como negativo, ruim, banditista. Até que caia na graça da classe que se acha supremacista.

31 de julho de 2021 e estamos numa data muito simbólica para esse projeto de nação que é o Brasil. Aqui o Estado invade as favelas (e o uso deste termo é proposital!) e concebe as maiores chacinas já vistas na história mundial e deixa a sociedade sem nenhuma explicação porque a existência desses espaços já é um motivo-fim; aqui o Estado atira contra carros de família e dispara 80 tiros sem nenhuma comoção; aqui o Estado tira a vida de uma vereadora preta e seu motorista e nos deixa aquém de uma resposta sobre a autoria do mando do crime há mais de 3 anos. Aqui meninos e meninas negras são fuziladas do alto, de helicópteros do Estado, a caminho da escola.

Mas, que exagero… O Brasil não é só isso! Claro que não… O Brasil é também o país  que nega a estas crianças e adolescentes o direito à Educação, ao esporte e lazer. Mas veja… muitas delas estão nas Olimpíadas. Sim! Estamos em meio às Olimpíadas de Tokio… E o esporte não é diferente quando falamos de espaço de poder e isso significa refletir sobre valores de bolsa atleta, esporte que é mais ou menos reconhecido social e nacionalmente, esportes “de elite” e, consequentemente, quem e de onde vem quem pertence a eles, patrocínios e outros suportes.

As Olimpíadas de Tokio me chamam atenção peculiarmente por atletas que se sobressaíram para além da excelência em suas práticas esportivas. O primeiro é deles é Paulo Henrique Sampaio Filho, o Paulinho. Um dos jogadores da seleção olímpica de futebol ganhou os olhos do Brasil e do mundo, após comemorar um gol contra a seleção alemã, a qual nos remete à lembrança do 7 x 1 da copa de 2014, homenageando seu orixá de cabeça, meu pai Oxossi.

paulinho
Paulinho jogador da seleção olímpica brasileira

Antes mesmo das olímpiadas, Paulinho havia reverberado em suas redes sociais que somente Exu poderia iluminar o país. Um choque para um território que se diz laico, mas o qual invade terreiros de religião de matriz africana, expulsa líderes religiosos dessas religiões das comunidades em que vivem, desrespeita sua fé. Sim, assim como Paulinho, somente Exu para iluminar um país que não sabe comunicar, que não sabe transitar na diversidade, respeitar individualidades, lidar com os atravessamentos da vida. Somente Exu, aquele que abre e fecha portas, aquele que dá e que também toma, que, sem ele nenhum passo é dado, é capaz da reviravolta que esse país precisa, de devolver aos donos e construtores desse país todos os espaços e direitos negados. E Oxossi, o senhor das matas, aquele que tem o seu lugar de axé duramente atacado nesse país? Se a pandemia nos permitiu olhar para um meio ambiente covardemente vilipendiado no Brasil, o guerreiro de uma flecha só abre os olhos do país para a astúcia do povo negro!

Quando Paulinho simboliza o movimento de seu orixá regente, ele abre o caminho para mostrar que o indivíduo negro brasileiro carrega em seu sangue a ligeireza, a astúcia, a sabedoria, o jeito ardiloso de capturar a caça. Como bom apreciador das artes, da beleza e contemplação, Oxossi é um caçador de axé. Ele busca as coisas boas para um ‘ẹgbẹ́[1]’, caça as boas influências, as energias positivas. E como não poderia fazer diferente, Oxossi fez tudo isso, movendo o mundo a olhar para seus filhos (ainda que estes não o sigam religiosamente!). Vão ter que engolir a potência dessa garotada…

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Rebeca Andrade primeira atleta do Brasil a ganhar duas medalhas numa mesma edição das Olímpiadas

Além de Paulinho, temos Rebeca Andrade que invadiu as telas do mundo com o funk, mostrando a potência desse estilo que é “som de preto e de favelado” e trazendo na mochila duas medalhas, ouro e prata. Rebeca não deve nada a um país que rechaça sua origem, sua cor, seu gênero e que a lembra diariamente que ali não é seu lugar, tal como lembrou duramente Daiane dos Santos quando, ainda em exercício olímpico, sofreu com as duras pancadas do racismo, a ponto de não quererem nem com ela dividir banheiro de ginásio.

Lembro ainda de nomes como Hebert Conceição, pugilista soteropolitano, baiano que, assim como Robson Conceição, tem o seu esporte desvalorizado em todos os cantos. Se você riu quando Robson disse que foi na corda da banda Chiclete com Banana que se descobriu boxeador, você pertence ao grupo de pessoas preconceituosas, racistas que desmerecem mais um garoto preto pelo lugar de onde vem. Exagero? Não. Realidade. Estamos falando de um país que se sustenta no racismo estrutural que nega condições iguais para grupos com características que a História subalternizou.

Hebert Conceição
Hebert Conceição medalhista brasileiro

Na minha opinião, faltou ao Hebert Conceição, ao se tornar semifinalista olímpico nesta madrugada do dia 01/08/2021 e gritar para o mundo o seu merecimento, escancarar a dívida do seu país para com ele e os seus. Mas para bons entendedores meias palavras bastam. Na hora da comemoração, muitos racistas de plantão esqueceram que ele é o baiano, da periferia de Salvador, preto. Na mesma linha, poucas pessoas teriam acreditado que ele poderia ter sucesso na vida, pois nesse país sabemos o destino que professam aos muitos meninos negros.

Temos ainda o Paulo André, outro nome do atletismo… Poxa, outro menino preto? Sim… Para a tristeza desse país, um menino que não conseguiu dar errado e que recebe um “tic” nacional quando diz que ambiciona superar Usain Bolt. Que droga, Paulo! Contrariar uma nação que já tinha em seu imaginário a definição de um propenso marginal que morreria cedo ou estaria preso? Mas pela vontade de Zambi [2] e contra a vontade do sistema, você é aquele cara que deu certo para sua mãe e seu povo e deu errado para a sociedade racista.

E, por fim, mas não o último… Peço perdão por não listar todos… Como não falar de Ângelo Assumpção. Esse garoto, alvo direto da força racista desse país chamado Brasil. Um menino negro, talentoso, profissional, mas que ousou denunciar o racismo. Sim, porque o racismo nesse país é um crime perfeito, sofisticado. Aqui temos, inclusive o crime e não temos o criminoso. E ai de quem o denuncie! É fadado ao negacionismo e esquecimento como tentam fazer como o nosso tão potente Ângelo que, por um motivo aparentemente inexplicável, não estava nas olímpiadas.

Ah… E esse texto era para falar somente de Brasil, mas não posso deixá-los de fora… Primeiro Jorge Fonseca, judoca português que ganhou medalha de bronze na categoria masculina até 100 kg e dedicou a vitória às marcas esportivas que não quiseram patrociná-lo. Para mim, a melhor das respostas… Afrontosa? Nem um pouco. Verdadeira.

Jorge, assim como todos os atletas negros, sabem a lida das grandes marcas e o torcer de seus narizes quando se trata de investimentos. Envolveu dinheiro, o racismo impera.

No momento da declaração, Jorge dispara:

No momento da declaração, Jorge dispara:

“Esta medalha vou dedicar para (…) e (…) porque disseram que eu não tinha capacidade para ser representado. Dedico esta medalha para dirigentes da (…) e da (…). Já mostrei que eu sou bicampeão do mundo, terceiro dos Jogos Olímpicos. Qual estatuto preciso para ser patrocinado pela (…) e pela (…)?”[3]

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Jorge Fonseca judoca português

É sobre ter que mostrar que você tem que ser não duas vezes melhor, mas 10, 20, 1000 vezes e, mesmo assim, o racismo baterá primeiro na nossa porta com uma arma engatilhada para nossa existência. 

E ainda Simone Biles, exemplo de força e autoamor, alvo do olho violento do mundo, abrindo mão de medalhas, preferências e possíveis vitórias, para sua vitória maior: sua saúde mental. Simone Biles, como diriam meus alunos, foi o verdadeiro baile de favela. Recusou a concorrer em prol de si mesma. E por que não? Tudo o que o mundo não queria que ela fizesse, que uma pessoa preta queira fazer: colocar-se em primeiro lugar, respeitar sua vida e sua existência. Se o mundo não a quer viva, ela quer. Não teve como eu não lembrar de uma frase da época de Orkut[4] “Eu sou mais eu, se você não é: problema seu!” Que resposta melhor ela poderia dar ao universo? Virei fã e quanto ela me ensinou e me alertou de que priorizar sua saúde mental é estar no caminho. 

Ainda em 31 de julho de 2021, um grande artista da música baiana e brasileira, Lazzo Matumbi, lançou o clipe de um hino da sua carreira e que fala muito sobre esse país, 14 de maio. De autoria dele e do saudoso Jorge Portugal, Lazzo Matumbi denuncia o dia após a abolição para a população negra e que se estende até a atualidade, com a ausência de direitos, de igualdade, de cidadania. Além da beleza da composição e da força das palavras e da resistência, eles clamam:

Mas minha alma resiste, meu corpo é de luta
Eu sei o que é bom, e o que é bom também deve ser meu
A coisa mais certa tem que ser a coisa mais justa
Eu sou o que sou, pois agora eu sei quem sou eu

Eu acredito em meu povo… Acredito que cada vitória desses meninos e meninas, à sua maneira, foi um exemplo de sagacidade. Sabemos que somos diariamente jogados no abismo e, caso sobrevivamos, temos que sair de lá sozinhos, sem qualquer recurso de quem quer que o possa oferecer. Sabemos a luta diária e sabemos todos os jogos sujos e vorazes que a sociedade proporciona para que não vençamos, inclusive usar os nossos contra nós mesmos. Cabe-nos reaprender a caminhar, cabe-nos nos proteger. Cabe-nos continuar vivos: essa é a maior ofensa que podemos causar a quem (tenta) nos sucumbir diariamente.

O meu orí saúda o seu orí!


[1] Ẹgbẹ́, aqui escrito em yorubá, grupo e até mesmo os lares, de maneira mais informal.

[2] De maneira resumida, Deus supremo na religião de matriz africana.

[3] Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/judoca-ganha-bronze-e-ironiza-adidas-e-puma-o-que-preciso-para-ser-patrocinado/

[4] Para os mais novinhos, o Orkut foi uma rede social que existiu nos anos 2000, antes mesmo de Instagram, Facebook e outras.

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