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Corpos que Resistem: com Nega Van Borges

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O ano de 2020 marcou profundamente a história, memória e o corpo de todos os brasileiros. Para além daqueles que permanecem em negação e em contínua negligência frente a esse estado absoluto de luta pela vida, é preciso reconhecer os inúmeros esforços dos que permanecem engajados nessa batalha que vem sendo movida dentro das casas, dos hospitais e nas esferas públicas de poder. Nesses processos cotidianos de resistência alguns corpos precisam estabelecer métodos mais aprimorados, uma vez que são atravessados pelas marcas de um passado e presente racista, machista e transfóbico. A sociedade brasileira permanece falha, privilegiado a branquitude, a cisgeneridade e a heteronormatividade, nesse sentido os corpos dissidentes, aqueles que fogem das normas e padrões acabam sofrendo de modo mais intenso as marcas que tempos como esse deixam sobre os corpos, casas e vidas.

A pandemia instaurada pelo Covid-19 que em alguns níveis passou a nivelar as experiências humanas, seja no campo do distanciamento e isolamento social ou nas novas regras de higienização e prevenção, evidenciou também as desigualdades que seguem se perpetuando em nossa sociedade, potencializando a manutenção dos lugares de poder e privilégio que alguns grupos sociais se beneficiem.

É partindo desse cenário nacional e mundial, que corpos como os de Nega Van Borges consolidam as suas caminhadas com passos ancestrais e com um gingado que potencializa a resistência e resiliência. Nega Van como muitas outras mulheres trans pretas vivenciam nesse momento marcos importantes em suas trajetórias, ocupando espaços de poder e de referência para sua classe/comunidade/grupo social, atuando em um percurso político e poético, transformando seus sonhos e desejos em movimento de luta e de transformação.

Nega Van enquanto celebra a sua experiência e vida aos seus 40 anos, se torna um marco vivo na trajetória de muitas outras mulheres trans, uma vez que no Brasil, 82% das pessoas trans assassinadas são pretas e 97% delas são mulheres, e a expectativa de vida de transexuais e travestis no Brasil é de 35 anos, menos de metade da média nacional (75 anos) segundo dados levantados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).

Para se aprofundar mais na cena LGBTQ+ regional, nosso colunista Vinicius Santos bate-papo a distância com Nega Van sobre as adversidades, processos de resistência, sonhos e referências, que ela vivenciou e teceu ao longo de sua jornada.

Vinicius: Nega van, resistência parece fazer parte da sua vida, você pode contar um pouco da sua história e o por que pessoas como você precisam resistir tanto?

Nega Van: Realmente resistência faz parte da minha vida, desde quando entendi como gente, existir e resistir, ao sistema, ao preconceito, e toda forma de discriminação. Lutar para existir, estar nos lugares, nos espaços de fato. Porquê disso? não sei, não sei, porque de tanto ódio, de tanta discriminação e opressão. Aos 16 anos na década de 90, anos 96/97, na escola estadual Sant’Ana , em Brasília de Minas, Minas Gerais. Começo minha luta contra o sistema, conseguindo banheira para os estudantes LGBT da escola. A luta pelo direito de usar o uniforme feminino, fomos ao fórum da cidade, falamos com a promotora, na época Dra. Cristiana. Foi a primeira vez que usei roupas consideradas de mulher.

Vinícius: Durante a pandemia todos precisaram se reinventar, qual foi ou quais foram as suas reinvenções?

Nega Van: Na pandemia e observem tentei novamente, mais uma vez, mas eu me reinvento todos os dias e aí profissionalmente fui atender em domicílio porque o salão fechou, foi a primeira coisa afetado com a pandemia economicamente falando, então foi muito difícil né porque o salão fechou e eu sou cabeleireira autônoma, é um dia após o outro, então é como se o chão tivesse desabado diante de mim e eu fiquei perdida, fazia a faculdade de enfermagem, estava terminando o curso de química licenciatura e aí parei com tudo, o auxílio demorou sair para mim, saiu já no final, que bom que saiu que ajudou demais a comer e pagar aluguel, ainda estou naquele buraco que parece que só afunda, mais a vacina que não chega e eu sou do grupo de risco e tá tudo mais difícil, mas eu sou resistência e luta que segue.

Vinicius: Gostaria que você falasse sobre as mulheres que marcaram a sua vida e que te ajudaram na sua formação:

Nega Van: Mãe, Maria Das Dores Borges De Souza, minha Maria, fonte de inspiração primária. Elza Soares, Liniker, Dona Mira, Dodi Leal , Jaqueline Gomes, Angela Davis, Madame Satã, Keila Simpson, Miriam Silvia, Dona Elizabeth, Presidenta Dilma Rousseff, Irmã Dulce, Ruth Souza , Tereza de Benguela, Laudelina de Campos Melo e Carolina de Jesus. Obrigada! Não posso esquecer deusas Érika Hilton, Érica Malunguinho e reverenda da Alexia Salvador, entre outras são tantas mulheres que cabem todas em mim.

Vinicius: Como você espera que nós, pessoas LGBT, pretas podemos sobreviver a essa pandemia?

Nega Van: Espero que possamos passar por essa pandemia, e que após, estejamos mais fortes e unidos, porque juntxs somos mais fortes! É mais difícil a pandemia, passar por ela, sendo uma pessoa LGBTQIA+, preta e periférica, somos os mais VULNERÁVEIS, e ESTAMOS desassistidos pelo poder público e o governo federal.

Vinicius: Como você se sente ao ter ultrapassado a estatística e superado a expectativa de vida para mulheres trans pretas?

Nega Van: Fico feliz muito, agora 26 de abril vou está comemorando meus 41 anos, passei da curva né, de perspectiva de vida de mulheres trans no Brasil, que é de 35 anos, mas essa mulher trans quando ela é preta, essa perspectiva de vida cai para 28 anos, mas ao mesmo tempo fico triste, pois ainda não alcancei meus objetivos, não é fácil permanecer e ocupar esses espaços, ao qual eu tenho lutado tanto por estar e existir.

Nega Van durante a campanha em 2020

Vinicius: Van você disse que ainda não alcançou todos os seus objetivos, sobre o futuro, quais são as suas expectativas?

Nega Van: Agora tive a honra de receber o convite para protagonizar uma peça de teatro, escrita por Vinícius Santos, A Colheita, serei Regina, mãe da Teresa. Me reinventando, essa Mulher trans preta. reinventando, e agora ocupando esse lugar, nas artes, atuo como cabeleireira há 26 anos, e agora esse desafio como atriz, estou muito feliz, honrada. Sou filiada ao PSOL e fui candidata a vereadora na MANDATA TRANS COLETIVA, em Porto Seguro. Tenho pretensões políticas sim, quero estar nestes espaços institucionais, onde eu possa estar implementando e colaborando para a criação de leis e projetos necessários e urgentes para a melhoria da vida de todos, todas e todxs. Faço parte também do coletivo 8M, mulheres da resistência Porto Seguro.

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Ser um atleta negro em Tóquio e a dívida do Brasil para conosco

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31 de julho. Dia da mulher africana. Esta que é o ventre do mundo. Esta que sofreu todas as agruras do Ocidente e teve os seus obrigados a construir esta parte de cá. O Brasil nem se fala. Como diria, Abdias do Nascimento, “o Brasil é um país de indígenas, construído por negros a serviço dos brancos.”

Acredito que nós, mulheres e homens negros, NÃO DEVEMOS NADA A ESSE PAÍS; nada devemos ao Brasil. Ao contrário: ele nos deve muito! Ele nos deve o projeto genocida que tomba nossos corpos diariamente, invadindo um lugar planejado para nosso despejo, tal como nos lembrou, ainda em 1958, Carolina Maria de Jesus.

Tudo o que a favela produz ou possui é visto como negativo, ruim, banditista. Até que caia na graça da classe que se acha supremacista.

31 de julho de 2021 e estamos numa data muito simbólica para esse projeto de nação que é o Brasil. Aqui o Estado invade as favelas (e o uso deste termo é proposital!) e concebe as maiores chacinas já vistas na história mundial e deixa a sociedade sem nenhuma explicação porque a existência desses espaços já é um motivo-fim; aqui o Estado atira contra carros de família e dispara 80 tiros sem nenhuma comoção; aqui o Estado tira a vida de uma vereadora preta e seu motorista e nos deixa aquém de uma resposta sobre a autoria do mando do crime há mais de 3 anos. Aqui meninos e meninas negras são fuziladas do alto, de helicópteros do Estado, a caminho da escola.

Mas, que exagero… O Brasil não é só isso! Claro que não… O Brasil é também o país  que nega a estas crianças e adolescentes o direito à Educação, ao esporte e lazer. Mas veja… muitas delas estão nas Olimpíadas. Sim! Estamos em meio às Olimpíadas de Tokio… E o esporte não é diferente quando falamos de espaço de poder e isso significa refletir sobre valores de bolsa atleta, esporte que é mais ou menos reconhecido social e nacionalmente, esportes “de elite” e, consequentemente, quem e de onde vem quem pertence a eles, patrocínios e outros suportes.

As Olimpíadas de Tokio me chamam atenção peculiarmente por atletas que se sobressaíram para além da excelência em suas práticas esportivas. O primeiro é deles é Paulo Henrique Sampaio Filho, o Paulinho. Um dos jogadores da seleção olímpica de futebol ganhou os olhos do Brasil e do mundo, após comemorar um gol contra a seleção alemã, a qual nos remete à lembrança do 7 x 1 da copa de 2014, homenageando seu orixá de cabeça, meu pai Oxossi.

paulinho
Paulinho jogador da seleção olímpica brasileira

Antes mesmo das olímpiadas, Paulinho havia reverberado em suas redes sociais que somente Exu poderia iluminar o país. Um choque para um território que se diz laico, mas o qual invade terreiros de religião de matriz africana, expulsa líderes religiosos dessas religiões das comunidades em que vivem, desrespeita sua fé. Sim, assim como Paulinho, somente Exu para iluminar um país que não sabe comunicar, que não sabe transitar na diversidade, respeitar individualidades, lidar com os atravessamentos da vida. Somente Exu, aquele que abre e fecha portas, aquele que dá e que também toma, que, sem ele nenhum passo é dado, é capaz da reviravolta que esse país precisa, de devolver aos donos e construtores desse país todos os espaços e direitos negados. E Oxossi, o senhor das matas, aquele que tem o seu lugar de axé duramente atacado nesse país? Se a pandemia nos permitiu olhar para um meio ambiente covardemente vilipendiado no Brasil, o guerreiro de uma flecha só abre os olhos do país para a astúcia do povo negro!

Quando Paulinho simboliza o movimento de seu orixá regente, ele abre o caminho para mostrar que o indivíduo negro brasileiro carrega em seu sangue a ligeireza, a astúcia, a sabedoria, o jeito ardiloso de capturar a caça. Como bom apreciador das artes, da beleza e contemplação, Oxossi é um caçador de axé. Ele busca as coisas boas para um ‘ẹgbẹ́[1]’, caça as boas influências, as energias positivas. E como não poderia fazer diferente, Oxossi fez tudo isso, movendo o mundo a olhar para seus filhos (ainda que estes não o sigam religiosamente!). Vão ter que engolir a potência dessa garotada…

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Rebeca Andrade primeira atleta do Brasil a ganhar duas medalhas numa mesma edição das Olímpiadas

Além de Paulinho, temos Rebeca Andrade que invadiu as telas do mundo com o funk, mostrando a potência desse estilo que é “som de preto e de favelado” e trazendo na mochila duas medalhas, ouro e prata. Rebeca não deve nada a um país que rechaça sua origem, sua cor, seu gênero e que a lembra diariamente que ali não é seu lugar, tal como lembrou duramente Daiane dos Santos quando, ainda em exercício olímpico, sofreu com as duras pancadas do racismo, a ponto de não quererem nem com ela dividir banheiro de ginásio.

Lembro ainda de nomes como Hebert Conceição, pugilista soteropolitano, baiano que, assim como Robson Conceição, tem o seu esporte desvalorizado em todos os cantos. Se você riu quando Robson disse que foi na corda da banda Chiclete com Banana que se descobriu boxeador, você pertence ao grupo de pessoas preconceituosas, racistas que desmerecem mais um garoto preto pelo lugar de onde vem. Exagero? Não. Realidade. Estamos falando de um país que se sustenta no racismo estrutural que nega condições iguais para grupos com características que a História subalternizou.

Hebert Conceição
Hebert Conceição medalhista brasileiro

Na minha opinião, faltou ao Hebert Conceição, ao se tornar semifinalista olímpico nesta madrugada do dia 01/08/2021 e gritar para o mundo o seu merecimento, escancarar a dívida do seu país para com ele e os seus. Mas para bons entendedores meias palavras bastam. Na hora da comemoração, muitos racistas de plantão esqueceram que ele é o baiano, da periferia de Salvador, preto. Na mesma linha, poucas pessoas teriam acreditado que ele poderia ter sucesso na vida, pois nesse país sabemos o destino que professam aos muitos meninos negros.

Temos ainda o Paulo André, outro nome do atletismo… Poxa, outro menino preto? Sim… Para a tristeza desse país, um menino que não conseguiu dar errado e que recebe um “tic” nacional quando diz que ambiciona superar Usain Bolt. Que droga, Paulo! Contrariar uma nação que já tinha em seu imaginário a definição de um propenso marginal que morreria cedo ou estaria preso? Mas pela vontade de Zambi [2] e contra a vontade do sistema, você é aquele cara que deu certo para sua mãe e seu povo e deu errado para a sociedade racista.

E, por fim, mas não o último… Peço perdão por não listar todos… Como não falar de Ângelo Assumpção. Esse garoto, alvo direto da força racista desse país chamado Brasil. Um menino negro, talentoso, profissional, mas que ousou denunciar o racismo. Sim, porque o racismo nesse país é um crime perfeito, sofisticado. Aqui temos, inclusive o crime e não temos o criminoso. E ai de quem o denuncie! É fadado ao negacionismo e esquecimento como tentam fazer como o nosso tão potente Ângelo que, por um motivo aparentemente inexplicável, não estava nas olímpiadas.

Ah… E esse texto era para falar somente de Brasil, mas não posso deixá-los de fora… Primeiro Jorge Fonseca, judoca português que ganhou medalha de bronze na categoria masculina até 100 kg e dedicou a vitória às marcas esportivas que não quiseram patrociná-lo. Para mim, a melhor das respostas… Afrontosa? Nem um pouco. Verdadeira.

Jorge, assim como todos os atletas negros, sabem a lida das grandes marcas e o torcer de seus narizes quando se trata de investimentos. Envolveu dinheiro, o racismo impera.

No momento da declaração, Jorge dispara:

No momento da declaração, Jorge dispara:

“Esta medalha vou dedicar para (…) e (…) porque disseram que eu não tinha capacidade para ser representado. Dedico esta medalha para dirigentes da (…) e da (…). Já mostrei que eu sou bicampeão do mundo, terceiro dos Jogos Olímpicos. Qual estatuto preciso para ser patrocinado pela (…) e pela (…)?”[3]

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Jorge Fonseca judoca português

É sobre ter que mostrar que você tem que ser não duas vezes melhor, mas 10, 20, 1000 vezes e, mesmo assim, o racismo baterá primeiro na nossa porta com uma arma engatilhada para nossa existência. 

E ainda Simone Biles, exemplo de força e autoamor, alvo do olho violento do mundo, abrindo mão de medalhas, preferências e possíveis vitórias, para sua vitória maior: sua saúde mental. Simone Biles, como diriam meus alunos, foi o verdadeiro baile de favela. Recusou a concorrer em prol de si mesma. E por que não? Tudo o que o mundo não queria que ela fizesse, que uma pessoa preta queira fazer: colocar-se em primeiro lugar, respeitar sua vida e sua existência. Se o mundo não a quer viva, ela quer. Não teve como eu não lembrar de uma frase da época de Orkut[4] “Eu sou mais eu, se você não é: problema seu!” Que resposta melhor ela poderia dar ao universo? Virei fã e quanto ela me ensinou e me alertou de que priorizar sua saúde mental é estar no caminho. 

Ainda em 31 de julho de 2021, um grande artista da música baiana e brasileira, Lazzo Matumbi, lançou o clipe de um hino da sua carreira e que fala muito sobre esse país, 14 de maio. De autoria dele e do saudoso Jorge Portugal, Lazzo Matumbi denuncia o dia após a abolição para a população negra e que se estende até a atualidade, com a ausência de direitos, de igualdade, de cidadania. Além da beleza da composição e da força das palavras e da resistência, eles clamam:

Mas minha alma resiste, meu corpo é de luta
Eu sei o que é bom, e o que é bom também deve ser meu
A coisa mais certa tem que ser a coisa mais justa
Eu sou o que sou, pois agora eu sei quem sou eu

Eu acredito em meu povo… Acredito que cada vitória desses meninos e meninas, à sua maneira, foi um exemplo de sagacidade. Sabemos que somos diariamente jogados no abismo e, caso sobrevivamos, temos que sair de lá sozinhos, sem qualquer recurso de quem quer que o possa oferecer. Sabemos a luta diária e sabemos todos os jogos sujos e vorazes que a sociedade proporciona para que não vençamos, inclusive usar os nossos contra nós mesmos. Cabe-nos reaprender a caminhar, cabe-nos nos proteger. Cabe-nos continuar vivos: essa é a maior ofensa que podemos causar a quem (tenta) nos sucumbir diariamente.

O meu orí saúda o seu orí!


[1] Ẹgbẹ́, aqui escrito em yorubá, grupo e até mesmo os lares, de maneira mais informal.

[2] De maneira resumida, Deus supremo na religião de matriz africana.

[3] Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/judoca-ganha-bronze-e-ironiza-adidas-e-puma-o-que-preciso-para-ser-patrocinado/

[4] Para os mais novinhos, o Orkut foi uma rede social que existiu nos anos 2000, antes mesmo de Instagram, Facebook e outras.

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