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Porto Seguro

Pero do Campo Tourinho

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Monumento a Pero do Campo Tourinho, gentilmente fotografado por Ester Lima, vigilante fiel das belezas da cidade alta
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Na cidade alta de Porto Seguro, conhecida atualmente como cidade histórica, à direita da Caixa d’Água, no sentido de quem ruma em direção à igreja matriz, encontra-se um discreto monumento que reivindica, quase às escondidas, o seu lugar na história. Cercado de pequenos arbustos, um polígono irregular traz um pedestal de pedra lapidada rusticamente com um busto de cobre por cima. A escultura representa um homem de meia idade, com barba e bigode de sulcos bem delimitados e simétricos, vestido com uma capa sobre o gibão de gola alta e botões avantajados, tendo sobre a cabeça um delicado barrete. A obra é assinada por Ramos de Abreu, mais precisamente o escultor português Luís Ramos de Abreu, que, no ano de 1991, produziu dois exemplares idênticos, por encomenda da Câmara de Viana do Castelo, tendo um busto fixado residência nos arredores da Avenida dos Combatentes da Grande Guerra nas terras vianenses e o outro foi doado ao município de Porto Seguro para compor o monumento aqui referido.

O personagem homenageado na escultura era natural de Viana do Castelo. Ao que tudo indica, tratava-se de um importante comerciante integrado às rotas marítimas que cortavam os mares e alimentavam as ambições da aristocracia portuguesa. Não era um nobre de sangue, nem possuía longo histórico de títulos, honrarias e privilégios que marcavam a sociedade lusitana quinhentista. No entanto, conquistou algum tipo de prestígio e foi agraciado com vultosa mercê pelo rei d. João III. E foi por essa doação que sua história acabou por se confundir com a própria história de Porto Seguro. Por isso mesmo, as duas cidades, dos dois lados do Atlântico, rendem homenagens, com diferentes formas e sentidos, a Pero do Campo Tourinho, o vianense que foi donatário da capitania de Porto Seguro e fundador da vila homônima. 

Em 1534, o rei d. João III revestiu a Pero do Campo Tourinho como capitão donatário da capitania de Porto Seguro. Por meio da carta de doação e do foral, o monarca concedeu poderes para o vianense erigir vilas, distribuir terras, cobrar impostos e criar cargos para a administração “de cinquenta léguas de terra na dita costa do Brasil”, que partiam do atual rio Jequitinhonha até o rio Doce. Empolgado frente as possibilidades de riqueza, Tourinho deixou Portugal em 1535 e, para o bom êxito de sua empresa, vendeu suas propriedades e montou uma grande expedição composta por duas naus e duas caravelas. A bordo das embarcações estavam a família do donatário (como sua esposa Ignês e seus filhos André e Fernando), o pessoal administrativo (a exemplo do procurador Clemente Anes), alguns mestres e mareantes (destacando-se o capitão de mar Manuel Ribeiro). Além disso, a frota carregava ferramentas, sementes, animais, provisões régias e 600 colonos.

Ao aportar nas terras americanas, Tourinho deu início à construção da empresa colonial. Escolheu o sítio para fundar a vila de Porto Seguro, que assumiria o papel de cabeça da capitania, aproveitando a existência na região de “muitos portugueses e alguns deles com mais de trinta anos no país com vários mamelucos em boa paz e harmonia com os indígenas”, como informou Aires do Casal. Em seguida, iniciou a construção de vilas, como a de Santa Cruz, no porto de Coroa Vermelha, a de Santo Amaro, na margem direita do rio Buranhém, e a de Insuacone, nas proximidades de Itaquena. Também passou a distribuir terras aos colonos e a atrair novos investimentos com a doação de sesmarias a nobres portugueses, como ao duque de Aveiro, que recebeu grande lote de terra na margem do rio Serambitiba (atual João de Tiba, em Santa Cruz Cabrália). Em pouco tempo, a capitania prosperava economicamente, com a existência de 5 engenhos de açúcar em funcionamento, além de grande atividade de extração de madeiras, principalmente do pau brasil.

No entanto, para fazer este novo mundo funcionar, novas relações sociais precisaram ser estabelecidas entre os europeus e os indígenas, que se constituíam na principal fonte de mão de obra. A procura pelo trabalho indígena ganhou maior dimensão e as relações simétricas de troca (conhecidas como escambo) tornavam-se insuficientes para a ambição colonial. Os colonos já não se contentavam com a simples oferta dos que, voluntariamente, se disponibilizavam para trabalhar nas lavouras. Essa situação possibilitou uma verdadeira caçada à mão de obra, tendo como grande novidade a escravidão indígena, que passou a ser alimentada pelas entradas no interior do continente para aprisionar índios, sendo o próprio donatário o principal financiador e responsável por este empreendimento. Ao falar desse período, Gabriel Soares de Souza, em 1583, relembrou que a prosperidade das roças e fazendas dos colonos na capitania vinha “a troco do resgate”, ou seja, de uma das modalidades da escravidão indígena, que consistia em trocar os prisioneiros das guerras intertribais por ferramentas e outros objetos manufaturados europeus.

O tempo de florescimento da empresa colonial comandada por Pero de Campo Tourinho na capitania de Porto Seguro foi curto. Pouco mais de dez anos depois de investir todos os esforços na colonização de sua donataria, o vianense ganharia mais um capítulo na história, mas, desta vez, como o primeiro homem a cair nas garras da Inquisição no Brasil. O calendário marcava o dia 24 de novembro de 1546 e Pero do Campo Tourinho foi preso a ferros pelas “muitas heresias, blasfêmias e abominações que nesta vila dizia e fazia contra Deus nosso Senhor e contra a Santa Madre Igreja”.

As acusações eram variadas.  Uns diziam que o donatário via com bons olhos outras religiões, como denunciou Gaspar Fernandes que disse ter ouvido Pero do Campo afirmar que “a fé dos turcos ou mouros era a boa”. Outros diziam que o capitão zombava da autoridade do clero, espalhando que “o papa não tinha poder nele”, como testemunhou João d´Outeiro. Havia também denúncia de que o vianense não respeitava os preceitos religiosos, como a guarda dos dias santos, assim como queixas de que o capitão não acreditava no poder miraculoso e intercessor dos santos. Já em Lisboa, diante do Tribunal do Santo Ofício, Tourinho se defendeu afirmando que “mandava guardar e festejar” os santos, mas “repreendia às vezes o vigário francês por dar de guarda São Guilherme, São Martinho e São Jorge e outros santos que não mandava guardar a Santa Madre Igreja”. Também argumentou que “tudo disse para animar os homens que trabalhassem para que a terra se povoasse e se fizesse o que era necessário e se aumentasse a fé católica”.

Se, por um lado, as atitudes de Pero do Campo Tourinho representava uma afronta às normas religiosas daquela sociedade, por outro lado, sua prisão teve também uma forte conotação política. Na verdade, se observarmos os protagonistas da denúncia não fica difícil concluir que se tratou de uma conjuração. Por trás do processo estavam personagens que faziam parte da elite local e de segmentos que estavam em choque com a política do donatário, como os oficiais da câmara Pero Escornio Drumondo e Pero Ames Vicente; o capelão do duque de Aveio, Manuel Colaço; os religiosos padre João Bezerra, frei Jorge e o reverendo Bernardo de Aureajac. No pano de fundo, estava a disputa pela administração da população indígena, na qual colonos e religiosos se juntavam contra o monopólio exercido pelo capitão donatário na organização das expedições sertanistas e na divisão dos indígenas que poderiam ser evangelizados e escravizados.

A prisão de Pero do Campo deve ser entendida, portanto, como um resultado de um conflito em torno da questão indígena nos primórdios da colonização do Brasil, quando inexistia uma legislação específica para regular as relações entre europeus e indígenas. É possível supor que os religiosos e os membros da elite colonial construíram uma estratégia para derrotar o donatário, uma vez que, legalmente, ele detinha mais autoridade, recurso e legitimidade para arregimentar a população indígena. Os acusadores deslocaram os conflitos da esfera político-econômica para esfera religiosa e encontraram na Santa Inquisição a brecha para afastar de Porto Seguro aquele que se apresentava como uma barreira para a materialização de seus objetivos.

Esta interpretação não isenta, no entanto, o comportamento nada convencional do donatário Pero do Campo Tourinho. Naquele contexto do início do século XVI, o questionamento aos dogmas do catolicismo e a infalibilidade da Igreja representava uma atitude duplamente subversiva, pois não se questionava apenas as normas religiosas, mas também se questionada toda a ordem social sobre a qual se assentava a própria monarquia e sociedade lusitanas. Nestes termos, chama atenção o empenho contemporâneo da família Tourinho, no contexto das comemorações dos 500 anos do Brasil, de tentar reinventar a memória do donatário de Porto Seguro, participando ativamente da construção de novas narrativas e imagens de Pero do Campo, inclusive com a articulação de um anacrônico perdão eclesiástico assinado pelo bispo diocesano de Eunápolis no dia 12 de dezembro de 2000, que retirou, “para sempre”, por meio de decreto, “alguma excomunhão, interdito ou restrição em relação à pessoa do Exmo. Governador da Capitania de Porto Seguro – Ilustríssimo Sr. Pero do Campo Tourinho e seus descendentes por todas as gerações”. Não é a toa que, nessa disputa de memórias, a placa fixada no monumento erguido em homenagem ao vianense na cidade histórica de Porto Seguro há a expressão em latim Laus Deo (Deus seja louvado) – como se quisesse inscrever forçosamente na referência histórica do capitão donatário de Porto Seguro seu suposto compromisso fiel e eterno com a religião.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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Porto Seguro

Outro Bicho-preguiça é achado em obra em P. Seguro

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Um bicho-preguiça foi resgatado, nesta quarta-feira (28), em uma obra em Porto Seguro.

Segundo informações do G1 os funcionários da obra perceberam a presença do animal e entraram em contato com a Secretaria de Meio Ambiente. Fiscais da secretaria fizeram o resgate do animal, que foi avaliado e apresentou boas condições de saúde.

Este é 3º animal capturado na área urbana de Porto Seguro

Após a captura, o bicho-preguiça foi solto em uma área de mata da cidade.

da redação com G1

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