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Porto Seguro

Os ex-votos da Ajuda: arte, devoção e patrimônio

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Ex-voto pintado da "sala de milagres" da igreja da Ajuda, onde se observa na legenda: "Milagre que fez Nossa Senhora da Ajuda a D. Clotilde Monteiro da Rocha de Souza, em 11 de agosto de 1892, livrando-lhe do perigo de um parto laborioso"
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Em 1802, o inglês Thomas Lindley visitou a igreja de Nossa Senhora da Ajuda. Na época, ele estava preso na Casa de Câmara e Cadeia de Porto Seguro, acusado de praticar de um “escandaloso contrabando” de pau brasil, que envolveu várias autoridades locais, inclusive a família do ouvidor da comarca. A saída do cárcere naquela ocasião fazia parte de uma diligência das investigações do processo, cujo objetivo era tentar identificar a pessoa que vendeu ouro em pó ao comerciante no tempo das negociações da carga de madeira. Como um homem de formação protestante, Lindley certamente não tinha a sensibilidade para compreender aspectos gerais da piedade popular católica. E, ao entrar num dos principais santuários do Brasil, se espantou com o interior do templo que, segundo sua impressão, estava “decorado com desenhos grotescos de navios em apuros, quartos de enfermos, etc., havendo legendas debaixo de cada um, relativas aos diferentes episódios que pretendem comemorar”.

Esses objetos descritos pelo contrabandista inglês são conhecidos como ex-votos. Eles estão presentes em cruzeiros, santuários e capelas espalhadas de norte a sul do Brasil. São depositados pelos fiéis devotos como forma de retribuição, de recompensa, de agradecimento pela graça alcançada. Em outras palavras, os objetos ex-votivos são desobrigas religiosas: com eles os fiéis comunicam ao santo e à comunidade de fiéis que um pedido feito em uma determinada ocasião passada foi atendido pela intercessão miraculosa da invocação divina. Assim, são, curiosamente, um objeto de devoção privada, mas com dimensões públicas; um testemunho da religiosidade, mas com caráter de fonte da história social, cultural e política; um registro da fé, mas também uma obra de arte.

Na igreja de Nossa Senhora da Ajuda os ex-votos estão presentes desde os tempos mais remotos. O poder miraculoso da santa fez sua fama se espalhar pelos quatro cantos do mundo. Aliás, desde a criação da pequena capela, no início da década de 1550, a intercessão da Senhora da Ajuda foi milagrosa, segundo as narrativas quinhentistas, fazendo jorrar “uma fonte d’água que parece proceder de debaixo de seu altar, onde se fizeram e fazem continuamente muitos milagres”, tornando-se rapidamente numa “casa de grandíssima romaria e devoção”, como informou José de Anchieta em 1583. Além da cura aos que bebessem e se lavassem pelas águas da “Fonte da Santa”, a Senhora da Ajuda se tornou intercessora vigilante nos momentos de aflição, na proximidade da morte, no meio do perigo ou no desejo das conquistas mundanas e espirituais. Como forma de gratidão, os fiéis devotos passaram a depositar os objetos ex-votivos nos altares e paredes do templo, fazendo que ele ganhasse, como definiu o cronista religioso seiscentista Simão de Vasconcelos, o título de uma verdadeira “oficina de milagres”.

Atualmente, parte desses objetos que resistiram à ação do tempo encontra-se na chamada “sala de milagres”, que fica no apertado corredor lateral que serve de acesso para a sacristia e para a escada do consistório. Ali, nas paredes, nos armários e nas vitrines, dezenas de centenas de objetos são expostos solene e graciosamente. Eles são vários e diversificados. Uma tentativa rápida de classificação correria o risco evidente de simplificação e de exclusão. Se o olhar for direcionado ao suporte, o acervo contempla objetos de madeira, de parafina, de papel, de tecido, de metal, entre outras tantas matérias primas. Nas tipologias mais tradicionais, tem ex-votos escultóricos, fotográficos e textuais – para citar apenas os mais abundantes.

Numa das prateleiras da estante no canto esquerdo do corredor, uma infinidade de esculturas ganha vida na desordem da desobriga. São objetos de parafina, de madeira e de gesso. São, sobretudo, imagens de santos e representações de partes do corpo. Testemunham a cura de doenças na cabeça, no braço, no pé, no estômago, na perna. Por vezes considerado macabro, esse tipo de ex-voto é, isso sim, uma verdadeira materialização do milagre.

Na parede, as fotografias também se destacam. Antigamente, um grande quadro com fotos sobrepostas aleatoriamente, de dimensões das mais variadas. Hoje, digitalizadas, algumas delas se alternam na apresentação virtual de uma tela de TV. São retratos 3×4, 10×15 ou 15×21. São fotos de idosos, de adultos, de crianças. Algumas, para evitar certa confusão, trazem consigo, no verso, nome e razão da desobriga. Outras, por outro lado, retratam personagens anônimos, pelo menos para nós que não somos onipotentes, oniscientes, onipresentes e onividentes, como Deus.

É possível encontrar uma literatura ex-votiva naquela sala. São cartas, bilhetes e cartões postais que se espalham pelas paredes, junto das fotografias, aos pés dos santos. Alguns denunciam a origem humilde dos devotos pela ausência completa da norma culta, com uma escrita simples, carregada de erros ortográficos. Outras são quase que tratados e contam e recontam histórias, com descrições apuradas e caligrafia fina. Em todas, porém, há, indistintamente, uma reivindicação de memória, um tom gracioso de intimidade, um fino e raro diálogo sincero e puro.

Dos mais conhecidos, geralmente privilegiados nos processos de musealização dada sua singular composição estética, estão os ex-votos pintados. São os chamados quadros de milagres: coloridos, dramáticos e polifônicos. Na igreja da Ajuda eles se destacam e são datados, sobretudo, do final do século XIX até meados do século XX. Trazem variados temas: naufrágios, partos difíceis, doenças contagiosas e inúmeros acidentes de trânsito ou domésticos, com crianças ou animais. As cenas retratadas mostram, principalmente, quartos de casas, enfermarias de hospitais, ruas das cidades e mares revoltos. E os motivos da desobriga são inúmeros e, por vezes, curiosos: o salvamento de uma mula, a cura de doença pulmonar, o livramento de um parto trabalhoso, entre outros tantos. Algumas obras são anônimas e, talvez, jamais saibamos o nome dos artistas que as fizeram. Outras, no entanto, trazem assinatura dos chamados “riscadores de milagres”, que tinham suas oficinas nas proximidades do santuário e tentavam captar o drama do momento votivo e traduzi-lo na cena que ganha forma no ex-voto pintado. Entre esses, o mais presente no acervo atual tem por assinatura “Linho Pintor”, com obras das décadas de 1940 e 1950.

Não precisa muito esforço para perceber a riqueza do acervo da sala de milagres de Nossa Senhora da Ajuda. A cidade tem sua história contada naqueles quadros, naquelas esculturas, naqueles textos. Ali se revelam os trânsitos de gentes, de valores, de mercadorias, de visões de mundo. Ali também se registram memórias da vida e da morte, do trabalho e do lazer, da terra e do mar, do público e do privado, da fé e da arte. Preservar, documentar e divulgar esse patrimônio porto-segurense é tarefa urgente e necessária. E conhecer este pequeno corredor chamado de sala é, milagrosamente, uma experiência de contato com a vida e o sobrenatural.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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Porto Seguro

Fazenda é invadida em Arraial D`Ajuda

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A fazenda Tropa Costeira foi invadida neste derradeiro domingo (20) por volta das 7h da manhã, localizada na BA-986 em Arraial D’Ajuda, a propriedade já foi invadida e desocupada duas vezes. Lideranças do distrito denunciam que há prejuízos causados por queimados e desmate de árvores para construção de barracos improvisados.

No mesmo dia do ocorrido, um vídeo de uma liderança da invasão foi disparado no aplicativo Whatsapp. “Estamos aqui, na Fazenda Tropa Costeira, estão aqui os companheiros fazendo os acampamentos. Essa terra é uma terra totalmente devoluta, não tem produção nenhuma e o povo na rua, passando fome, necessidade, precisando trabalhar. Toda hora chega gente aqui e se você quiser vir pra cá se abrigar aqui no Arraial d´Ajuda, venha hoje, venha pra ficar. Nós vamos tirar 5 mil m² para cada um fazer o seu quintal produtivo”, promete.

A propriedade é avaliada em cerca de R$ 40 milhões e no local teria sido construído um hotel fazenda com recursos do Banco do Brasil, no entanto, sem quitação por parte do proprietário. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente já foi acionada e compareceu no local com a equipe de fiscalização, de acordo com moradores, para uma ação mais efetiva, os proprietários deveriam tomar providências. Os atuais donos já teriam sim enviado advogados para resolver a questão.

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