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O que vem depois do Mês do Orgulho?

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Com a chegada do Mês do Orgulho LGBTQIA+ é visível o crescimento de peças publicitárias que incluem pessoas da comunidade, e que por muitas vezes abordam diretamente discursos em prol da inclusão e do combate discriminação, à homofobia e a transfobia. Esse aumento considerável da população LGBTQIA+ nas mídias e nos mais variados veículos de comunicação é uma grande vitória que se consolida a longos passos feitos por militantes LGBTQIA+, que ao ocuparem diversos espaços passam a protagonizar também a própria produção de conteúdo e passam a consolidar um discurso cada vez mais humanizado  e positivo em relação aos corpos LGBTQIA+.

Essa possível visibilidade que se materializa durante o mês de junho é de fato muito potencializadora quando levamos em consideração que em um passado extremamente recente todas as representações midiáticas que envolviam questões ditas da “diversidade” eram marcadas com muita hostilidade e preconceito. Precisamos considerar que o discurso de ódio e a intolerância contra pessoas LGBTQIA+ está longe de terminar, e continuam se manifestando em veículos de comunicação em massa, como o mais recente caso envolvendo a apresentadora Patrícia Abravanel.

Durante o programa “Vem pra cá”, apresentado durante a manhã de terça-feira (01) no SBT, A apresentadora deu sequência a vários comentários envolvidos de preconceito enquanto comentava  a polêmica envolvendo Caio Castro e Rafa Kalimann, que compartilharam um vídeo de um pastor que fez uma fala homofóbica ( e criminal) durante o programa do Raul Gil (também da SBT!!!), se dizendo ser contra ao relação homoafetiva.

“Eu acredito que nós, mais velhos, e nós que fomos educados por pais mais conservadores, a gente está aprendendo, a gente está se abrindo, mas eu acho que é um direito também das pessoas respeitarem. Por que não concordar em discordar?”, questionou Abravanel na atração.

O que a apresentadora pede é o direito de permanecer destilando toda a sua ignorância e preconceito, o que ela demanda é o privilégio de permanecer à frente de um espaço de comunicação com grande alcance, sem ter a necessidade de se rever e de diretamente transformar e atualizar o seu discurso.  Mais adiante Patrícia pede paciência das pessoas LGBTQIA+ e que aconselha que elas devam ser menos agressivas. No entanto ela se nega a reconhecer a agressividade e a violência que atravessa constantemente as suas falas preconceituosas.

Patrícia, Caio Castro e Rafa Kalimann provavelmente desconhecem que em 2013 o Conselho Nacional de Justiça determinou que cartórios não poderiam rejeitar a celebração de casamentos homoafetivos. E que em 2017 o CCJ aprova no Senado projeto de lei que passa a reconhecer o casamento homoafetivo no código civil brasileiro. E que só em  2018 foi possível reconhecer o aumento da realização de casamentos homoafetivos em 61,7% em comparação ao ano anterior, segundo o IBGE.

Nesse sentido é de extrema importância que pessoas que carregam pensamentos homofóbicos e criminosos como os de Patrícia e do pastor que se apresentou no programa do Raul Gil possam compreender que algumas questões extrapolam o campo das opiniões, principalmente quando veiculadas em espaços de comunicação pública.

 O casamento homoafetivo é uma realidade no Brasil e no mundo, e discordar que uma prática real, cotidiana, e que constroem famílias, redes de afetos e comunidades, extrapola o entendimento de uma simples “opinião” e comentários públicos nesse sentido precisam ser combatidos e entendidos como discursos de ódio.

O discurso de ódio é considerado um tipo de violência verbal, e a sua base é a não-aceitação das diferenças, ou seja, a intolerância. Então, quando Patrícia pede o direito de discordar, ela pede o direito de permanecer em sua posição de poder verbalizando um discurso de ódio, falido e criminoso, e seguir chamando-o de opinião. 

Acontecimentos como esse reiteram a importância das ações que atravessam o mês de junho, mas também denunciam como esse trabalho de representatividade e de novas ocupações e discursos dos corpos LGBTQIA+ devem acontecer de modo contínuo e intenso. A volatilidade das campanhas publicitárias, que são produzidas muitas vezes para obter respostas de grupos específicos, visibilizam também o uso utilitário dos próprios corpos dissidentes e o medo constante do descarte, uma vez que se finaliza o mês da diversidade.

Portanto é preciso dizer que nossos corpos, discursos e dignidades não estão a venda, e não podem, nem devem ser associados às empresas e campanhas como uma simples commodity, como uma “Brand” ou um produto direcionado para um determinado público alvo. Somos cotidianamente sujeitos de uma incansável luta por respeito, cidadania e muitas vezes pela nossa própria vida. 

Se mostra urgente que as marcas e campanhas reconheçam a demanda de incorporar as nossas experiências e narrativas em todas as etapas de produção, gerando empregabilidade bixa, trans, sapatona, queer, intersexo, bi.

É preciso reconhecer que as nossas vozes e conhecimentos extrapolam também a nossa sigla, sendo a nossa presença fundamental para debater todo e qualquer assunto, mas também para garantir que não se pense direitos, comunicação, sociedade, política, afeto, comida, tudo o que se possa imaginar, sem que haja a presença de corpos dissidentes, precisamos ser ouvidos(as), e precisamos ter um lugar a mesa. 

A chegada das cantoras e atrizes Linn da Quebrada e Liniker a capa da Vogue Brasil, é um exemplo desse processo. É de extrema importância que corpos trans e pretos ocupem esses espaços de beleza, glamour e reconhecimento. E tem uma grande força e sensibilidade fazer com que que essa edição seja lançada no início do Mês do Orgulho, afinal essas mulheres devem ser celebradas pelo seu trabalho, pela sua história e pela sua potência em representar a pluralidade LGBTQIA+.

Para além do PINKMONEY e de toda rentabilidade que existe ao se aproximar e potencializar pautas LGBTQIA+, é preciso ressaltar que grandes são os avanços e as oportunidades que se materializam durante o Mês do Orgulho, mas é preciso exigir que essas práticas se façam presentes durante todo o ano. E que cada vez mais as empresas façam um acordo público em defesa de uma luta por representatividade em todas as etapas de produção, na criação dos conteúdos e na frente das câmeras. 

Professor, Artista e Bixa, nascido com o sol em Capricórnio. Pesquisador da cena, da dramaturgia, da performance. Licenciado Interdisciplinar em Artes pela UFSB e estudante de Artes do Corpo em Cena também na UFSB. Militante LGBTQIA+

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Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

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O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

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