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Porto Seguro

Geografia da fé: vivências religiosas, estratégias de dominação

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Legenda: Mapa de Porto Seguro, de autoria de Albernaz, onde se pode ver os topônimos religiosos
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A história dos nomes dos lugares da cidade pode revelar aspectos importantes da sua própria história social, política, econômica e cultural. Como um arquivo que faz o passado sobreviver à ação do tempo, atualizando, no presente, as memórias de acontecimentos, processos e vivências, os nomes não são simples recursos linguístico de classificação, diferenciação ou localização. Nomear os espaços é uma forma de interação humana com a paisagem natural, na qual o espaço biofísico se transforma em lugar de memória. Nesse ato, portanto, os lugares ganham histórias, afetos e sentidos, fazendo dos topônimos referências de curiosas unidades entre espaço e tempo, história e memória, geografia e poder.

Em Porto Seguro, não é difícil perceber a existência de uma geografia da fé. Como palco das primeiras ações da igreja militante que participou ativamente da conquista e colonização das terras e das gentes da América portuguesa, o território onde se alojou a cidade de Porto Seguro foi laboratório da instalação das primeiras capelas e freguesias, das primeiras experiências missionárias e das primeiras fabricações de narrativas de martírios e milagres. Assim, experiências de religiosos e expressões de religiosidades marcaram a geografia da cidade ao longo do tempo, deixando inscritos nos nomes dos lugares a dinâmica da igreja, de seus agentes e de seus fiéis.

Nomear, no entanto, não é apenas um ato de localização geográfica. Nomear é também um ato político. Representa uma forma de tomar posse. E foi assim que os portugueses, antes mesmo de decidirem um plano de exploração da nova conquista, batizou o primeiro sinal de terra avistado do alto mar. Como registrou Pero Vaz de Caminha: “Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz”. De uma só vez, a nomeação do acidente geográfico agregou a estratégia da conquista territorial com a da conquista espiritual, impondo ao lugar uma homenagem à festa cristã da Páscoa, cujo nome não tinha nenhum sentido para os habitantes naturais da terra que, há séculos, já avistavam e desfrutavam memórias e histórias sobre o grande monte de pedra.

Alguns anos depois de 1500, outro ato de batizado da terra fixou nome a outro lugar da cidade. Em 1503, dois frades franciscanos, com ajuda dos naturais da terra e de alguns portugueses, ergueram “com pressa uma pobre casinha com sua pequena igreja da invocação do seráfico patriarca São Francisco”, sendo “este o primeiro templo dedicado a Deus que se levantou em todo o Brasil”, como registrou o frei Antônio de Santa Maria Jaboatão em sua Crônica dos Frades Menores do Brasil, datada do século XVIII. Ali, naquela pequena ermida, se celebrou pela primeira vez também uma missa num altar fixo, onde se pôde cantar solenemente na liturgia católica o hino Gloria in excelsis Deo (Glória a Deus nas alturas). E, por isso mesmo, o sítio ganhou o nome de Outeiro da Glória.

A palavra outeiro tem origem grega. Nos tempos antigos, seu significado equivalia ao “vejo”. Nos dicionários portugueses da época colonial, outeiro era descrito como o “lombo de terra que se levanta da planície e faz um alto donde de descobre o campo”. Nestes termos, as falésias, que se jogam à beira do mar em todo litoral de Porto Seguro, feições típicas da Formação de Barreira que se espalham por quase toda costa brasileira, foram também chamadas de outeiro. E, aqui em Porto Seguro, o Outeiro da Glória, que abrigou a primeira igreja erguida na América portuguesa, cujas ruínas foram transformadas em patrimônio cultural nacional em 1968 e seus arredores foram considerados sítios arqueológicos de grande relevância nacional na década de 1980, ainda que mantenha viva através do nome a velha história colonial, foi objeto de desprezo cultural e da cobiça imobiliária por dois prefeitos da cidade, que, em diferentes momentos, promoveram a quase total destruição do sítio e a implantação de um reservado condomínio particular.

Os frades franciscanos, responsáveis pelas primeiras experiências de missionação junto aos povos indígenas na colônia portuguesa da América, também foram os autores da nomeação de outro topônimo da cidade. Na verdade, os religiosos souberam aproveitar um episódio trágico para mudar o nome de um rio, rebatizando o lugar a partir de sua narrativa religiosa missionária. Segundo frei Apolinário da Conceição (1733), na terceira leva de missionários que chegou em Porto Seguro na década de 1510, estavam dois frades italianos que decidiram se dirigir ao “sertão a buscar as desgarradas ovelhas que nele andavam perdidas para as conduzirem ao ameno campo da igreja”, desenvolvendo, com isso, as chamadas missões volantes, quando os religiosos saiam, de dois em dois, a pregar e batizar os indígenas nas suas aldeias mais distantes do litoral. Descendo para o sul pela costa do mar, “ao passar de um rio, o principal missionário fez dele passagem para a vida eterna e acompanhado de fervorosos desejos de salvar almas, acabou a sua vida entre as águas do mesmo rio, intitulado dali por diante rio do Frade”.

A partir desse acontecimento, inúmeras crônicas religiosas, memórias administrativas e relatos de viagens passaram reproduzir a mesma história para explicar o nome do rio. Com algumas modificações, o topônimo é descrito como do Frade ou dos Frades. Independentemente da variação, o fato é que o batizado foi, mais uma vez, um ato de conquista. Certamente, este rio não era anônimo antes do afogamento do frade franciscano. As populações nativas que viviam há séculos nesse território atribuíam um nome para ele. E, com certeza, este nome indígena trazia consigo outras histórias, outras narrativas e outros sentidos, que a colonização portuguesa buscou silenciar.

Outro lugar que ganhou nome por força da fé foi a povoação que se ergueu num outeiro nos arredores da ermida criada, no fim da década de 1540, em honra a Nossa Senhora. A obra também foi atribuída aos padres regulares, mas, desta vez, dos pertencentes à Companhia de Jesus, recém-chegados à América portuguesa junto com governador geral Tomé de Souza, em 1549. Desde o princípio, as histórias sobre a pequena igreja produziram narrativas miraculosas relacionadas a uma fonte que brotou sob intercessão da Santa da Ajuda, fazendo que, mesmo com a saída dos jesuítas, o templo se transformasse na “casa de maior concurso e devoção que há por aquelas partes do Brasil, pelos grandes e prodigiosos milagres que a Senhora ali vai obrando”, como afirmou Baltasar Teles, em 1645. Assim, uma pequena povoação ganhou vida para auxiliar os romeiros que chegavam em volumoso número para pagar suas promessas, cujo nome veio acompanhado da preposição de posse: Arraial de Nossa Senhora da Ajuda, hoje simplesmente Arraial d´Ajuda.

O povoado da Senhora da Ajuda também ocupou lugar nas crônicas coloniais. A pequena aldeia de pescadores e de auxiliares dos serviços da fé, foi se desenvolvendo sempre a reboque da centralidade da igreja. Em 1913, o Correio de Porto Seguro descreveu, num delicado texto assinado por um talentoso escritor de codinome Elmano, os aspectos geográficos do pitoresco lugar, reafirmando sua condição de acessório à ermida da Santa: “Descortina-se também a 3 quilômetros do lado sul em face do mar, a colina fronteira, onde assenta o mimoso panorama do arraial d’Ajuda, cercado de mangabeiras, entre palmeiras, lindos córregos e perenes mananciais, com largo vargedo ourelado por longa fimbria de areia flava, do subsolo monazítico, onde o tridente piscoso debruça-se em amplo sorriso pelos cachopos da praia repletos de mariscos; no meio do arraial, dominando a penedia ergue-se garbosa a ermida favorita, onde venera-se com viva fé, a imagem da virgem d´Ajuda que se festeja em Agosto e é centro de assídua peregrinação”.

 Com o passar do tempo, outros topônimos foram incorporando as marcas da história de fé da nossa sociedade. Não apenas do cristianismo militante da época moderna. Mas, também, de outras fés que se manifestavam e ainda se manifestam no cotidiano do povo da cidade. Os exemplos não caberiam, com justiça, neste texto. Mas vale a pena observar, a título de exemplo derradeiro, o Céu da aldeia de Barra Velha, localizado num outeiro nas proximidades da povoação, onde os Pataxó dos tempos antigos se reuniam para ramiar com os Tapuias nos dias de lua cheia. Pelos cantos da cidade, conhecendo sua história, compreendemos os encantos e os desencantos dos nomes que ela carrega.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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Porto Seguro

Abrasel cria regional Costa do Descobrimento

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Proprietários de bares e restaurantes da Costa do Descobrimento ganharão um importante instrumento de fortalecimento do setor, com a criação do conselho da Abrasel – Costa do Descobrimento. A eleição e constituição da entidade serão realizadas dia 28 de junho, às 16h30, no Sebrae, com apresentação e aclamação de chapa única, escolhida em consenso com lideranças do setor. A participação presencia é exclusiva para os candidatos aos Conselhos. Demais interessados podem participar virtualmente pelo Zoom.

“Com muito trabalho, estamos alcançando essa conquista para o nosso setor, que é um dos mais representativos do Brasil em número de estabelecimentos”, afirma Alex Di Pasquale, conselheiro presidente da entidade. Segundo ele um dos objetivos da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) na região, é desenvolver a cultura do associativismo, fortalecendo a entidade e consequentemente, os empreendimentos do setor.

“Este período que estamos atravessando é um dos piores da história do setor de A&B, um dos mais prejudicados e que mais estão sofrendo. Com esse trabalho estamos trazendo um sinal forte e positivo de esperança para o setor. Queremos ser um canal direto com as instituições e outras entidades”, salienta Alex.

Morocha Club conhecido em Porto Seguro e no mundo; tendência é crescer, conforme as coisas forem melhorando – Com muito trabalho, estamos alcançando essa conquista para o nosso setor, que é um dos mais representativos do Brasil em número de estabelecimentos”, afirma Alex Di Pasquale

Entre as metas, ele enumera ainda o aumento do número de associados e o acesso a linhas de créditos. “Neste momento, precisamos nos recompor, nos reerguer, não é para desistir”, enfatiza Alex, ressaltando que a Abrasel está organizando, em parceria com a Secretaria Municipal de Turismo, dois Festivais de Gastronomia: Raízes, em Porto Seguro, de 30 junho a 17 julho, e a terceira edição do Esquina do Mundo, em Arraial d’Ajuda, no mês de Novembro.

A Abrasel Costa do Descobrimento reunirá empreendimentos de Porto Seguro, Arraial d´Ajuda, Trancoso, Caraíva, Cabrália, Eunápolis e Belmonte. Nos termos do Estatuto Social, a chapa que será eleita por aclamação no dia da assembleia, com a seguinte composição:

– Conselheiro-presidente: Alex Di Pasquale (Portinha)

– Conselheiros: Martin Gimenez (Morocha Club) e Giovanni Fabrizio  Abbate (Don Fabrízio); suplentes: Eduardo Oberlaender (Maré) e Caio Santos (Banzé)

– Conselho Fiscal: conselheira-presidente: Ana Carolina Kratz Costa (Bahia Bonita); conselheiro Eder Longas Garcia (Barraca de Pitinga); suplentes: Mariela Sylvia Estevez e Silvia Carmen (Arapati).

Publicado em Jornal do Sol

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