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Sociedade

A cultura do rapé e seu poder medicinal

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Os povos indígenas do Brasil dominavam (e ainda dominam) conhecimentos espetaculares relacionados as plantas, cada povo explora e constrói esses conhecimentos de acordo com o que seu meio (bioma) de vivência ofereceu historicamente, seja ao explorar as experiencias para construir o saber sobre as plantas nativas dos diversos territórios abitados por esses povos, seja ao plantar gêneros alimentícios e cultivar ervas. Mesmo os povos que cultivavam plantas em detrimento da prática de colhê-las nas matas, precisavam em determinado momento transportá-las de dentro da mata para o local de plantio e cultivo, para isso era/é necessário o domínio de um amplo conhecimento sobre cada planta colhida/plantada.

No texto O uso das plantas silvestres da américa do sul tropical, Lévi-Strauss nos mostra que “a utilização de plantas silvestres implica conhecimento de técnicas exploratórias refinadas que vão muito além da simples recoleção de espécies.” (LÉVI-STRAUSS, 1987). Afinal, a própria ciência com todos os instrumentos tecnológicos mais avançados dedica tempo e esforços para entender a complexidade das plantas, e assim poder usá-la. Por isso mesmo é, no mínimo, intrigante como esses povos conseguem dominar tal conhecimento de forma interativa e natural com o meio.

O manuseio dessas plantas e o domínio do conhecimento de suas propriedades dá origem a um campo útil, necessário e indispensável para a sobrevivência dos povos indígenas: a medicina tradicional, ou etnomedicina indígena. Aqui destacamos o nosso assunto principal de hoje, o RAPÉ.

O Rapé é um produto milenar de origem indígena, um pó fino a base de folhas, cascas e raízes recolhidas na mata ou de cultivo próprio, geralmente misturada com tabaco. Utilizado a milhares de anos para energização e limpeza espiritual, o rapé é uma marca clara da relação interétnica entre as nações indígenas que habitavam Aby Ayala antes da invasão e colonização. É possível encontrar povos de diversas regiões do Brasil que utilizam o rapé da mesma maneira a milhares de anos, conhecimentos que foram trocados em contatos de diferentes povos.

Assim como várias outras práticas tradicionais estranhas aos costumes europeu, o rapé de tabaco foi apropriado pelo capitalismo mercantil colonizador e passou a ser um produto comercial caro, refinado e de luxo entre a população branca do Brasil e da Europa em meados do século XVII, sendo um dos principais produtos naturais consumido pelo patriarcado burguês europeu.  

Além do uso medicinal, é fácil encontrar povos que atribuem sentidos cosmológicos sobrenaturais ao rapé, utilizando-o como portal de passagem para o plano espiritual, por exemplo “No Médio Purus, o rapé é o veículo vegetal dessa viagem cósmica para grande parte dos grupos indígenas” (Mendes dos santos, 2015). Pode ser utilizado para limpar as energias ruins presentes no corpo, para conecta-se com os encantados ou para nos trazer discernimento para alguns assuntos.

Além do tabaco, o murici é bastante utilizado para a produção do rapé, servindo para melhorar o funcionamento dos vasos sanguíneos e para concentração, já que aguça a memória. Outras plantas utilizadas para o preparo do rapé é a Jurema preta, o cacau, a camomila, sálvia, menta, amescla, canela de velho e outras.

Atualmente o rapé continua sendo bastante utilizado entre os povos tradicionais, é também um produto considerado exótico e muito procurado por não-indígenas, sobretudo o rapé de tabaco. É importante compreendermos que a produção deste produto passa por processos que apenas que tem um profundo conhecimento sobre as plantas utilizadas devem fazer, o manuseio errado das ervas utilizadas pode trazer diversos problemas ao usuário.

Por isso mesmo é muito importante que a aplicação ou compra do rapé seja feita com pessoas que realmente domine esses conhecimentos, preferencialmente com indígenas que produzem e utilizam esse produto.

Ao Grande Otto Payayá, mestre na medicina do Rapé

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Fernanda Souza

    7 de Junho, 2021 at 10:48

    Que texto massa! Tão rico de informações e super bem escrito. Parabéns, João! Adoro ler o que você escreve! <3

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Abará – Do tabuleiro da Baiana para o mundo

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É um dos pratos da culinária baiana e como o acarajé também faz parte da comida ritual do candomblé.

O abará tem a mesma massa que o acarajé: a única diferença é que o abará é cozido, enquanto o acarajé é frito.

O preparo da massa é feito com feijão fradinho, que deve ser quebrado em um moinho em pedaços grandes e colocado de molho na água para soltar a casca. Após retirada toda a casca, passa-se novamente no moinho, desta vez deverá ficar uma massa bem fina. A essa massa acrescentam-se cebola ralada, um pouco de sal, duas colheres de dendê.

Quando for comida de ritual, coloca-se um pouco de pó de camarão, e, quando fizer parte da culinária baiana, colocam-se camarões secos previamente escaldados para tirar o sal, que podem ser moídos junto com o feijão, além de alguns inteiros.

Essa massa deve ser envolvida em pequenos pedaços de folha de bananeira, semelhante ao processo usado para fazer o acaçá, e deve ser cozido no vapor em banho-maria. É servido na própria folha.

Abalá

Ingredientes

  • 1 kilo de feijão fradinho demolhado por 1 noite
  • 100 gramas de camarão seco moído
  • 100 gramas de cebola ralada
  • 100 gramas de amendoim e castanha de caju torrados e moídos (fundo misto)]
  • 250 mililitros de azeite de dendê
  • ½ colher de chá de gengibre ralado
  • folhas de bananeira
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Modo de preparo

Para fazer esta receita de abará passo a passo comece por lavar bem o feijão: coloque-o em uma vasilha grande com água, remexa e tire com uma peneira as cascas que se soltarem. Escorra o feijão e repita até a água sair limpa.

De seguida bata o feijão no moinho, para transformar em purê, e depois bata com uma colher de pau, para ficar leve e volumosa.

Dica: Também pode bater no liquidificador, adicionando um pouco de água. Acrescente o camarão moído, a cebola, o fundo misto e o gengibre. Misture, adicione azeite de dendê e envolva tudo para obter uma massa homogênea e amarela.

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O passo seguinte do abará é passar as folhas de banana no fogo, para que fiquem mais flexíveis. Depois enrole porções da massa anterior nas folhas, como se fosse uma pamonha, e
coloque a cozinhe no vapor ou em banho-maria, por 40 minutos.

Dica: Se cozinhar o abará no vapor, cubra com aparas da folha da bananeira, que ajuda a reter o vapor e a deixar o abará mais úmido.

Após o passo anterior, seu abará está pronto! Sirva quente ou frio, puro ou acompanhado de molho de pimenta , camarão seco, caruru, vatapá, caruru e salada de tomate verde simples.

Bom apetite!

Fonte http://m.nossas-raizes.com/a-comida-dos-orixas/

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