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O Cordel

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“— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida
, e o pouco que não foi morte
foi de vida Severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais Severina
para o homem que retira).”

(trecho de Morte e vida Severina, João Cabral de Melo Neto)

O cordel é mesmo uma das expressões artístico-cultural mais lindas. É também uma das manifestações literárias mais tradicionais da cultura brasileira, tendo destaque especificamente no nordeste do Brasil. É de origem Portuguesa e se popularizou no país colonizador do brasil entre os trovadores medievais lá por volta do século XIII e XIV, os trovadores eram poetas que contavam histórias para o povo nas ruas de Portugal, ou “cantavam historias” para ser mais preciso.

Quando eu conheci pela primeira vez a manifestação literária conhecida como Literatura de cordel eu era ainda uma criança. Assim como muitos amigos da infância, foi no cordel que comecei a criar gosto pela leitura, quando criança tínhamos pouco acesso a revistas em quadrinho e outros livros infantis que ajudaram tantas pessoas a iniciar uma trajetória de pequenos e novos leitores. Mesmo sendo um material distante a realidade social e econômica da minha família, lembro que meu pai sempre que podia trazia pequenas revistas infantis para eu ler, mas confesso que eu gostava muito mais quando ele aparecia com aqueles folhetos de cordel.

Isso se dava por dois motivos, na minha infância e no meu contexto de vivencia a maioria dos escritores de cordel tinham pouco estudo, isso facilitava a linguagem dos textos, deixando-os mais simples de se entender, sobretudo para uma criança. O outro ponto é que transmitia para nós uma realidade que não era estranha as nossas vivencias diárias, diferente dos quadrinhos escritos por “grandes artistas”.

Isso nos leva a duas reflexões indispensáveis quando começamos a falar de cultura e educação e relaciona-las ao cordel: no meu caso e no de outras milhares de crianças, essa é uma expressão popular educativa, alfabetizadora e subversiva produzida, divulgada e estimulada em grande parte por escritores pobres, para a população pobre. Isso demonstra a construção (mesmo que inconsciente) de um projeto de leitura de grandes proporções que acontecia e se espalhava cada vez mais pelo nordeste, sem nenhum tipo de fomento ou apoio governamental. Demostra em outras palavras, a resistência e o anseio do povo pelo conhecimento.

A outra discussão que vem à tona com essa questão é como a alfabetização de uma criança nordestina se tornava mais possível a partir da utilização de um gênero literário que não era estranho a ela. Era mais fácil para mim, por exemplo, assimilar a frase “zé gosta de rapadura’’ do que “Eraldo fez suco de uva”, porque meu avô trazia sempre um pedaço ou dois de rapadura para seus netos, e até uma certa idade eu não fazia ideia do que era uva.

Aprendi com o cordel o que entendi complexamente apenas muitos anos depois na universidade, que a educação e a escrita não são neutras, nunca. Paulo Freire Já nos falava sobre “O mito da neutralidade da educação, que leva à negação da natureza política do processo educativo e a tomá-lo como um quefazer puro, em que nos engajamos a serviço da humanidade entendida como uma abstração, é o ponto de partida para compreendermos as diferenças fundamentais entre uma prática ingênua, uma prática “astuta” e outra critica” (FREIRE, 1989, p.15)

O cordel foi para mim parte de meu processo educacional, e não foi neutro, foi crítico. Com ele aprendi a perceber a desigualdade de condições que vivíamos e a luta de minha família pela existência. Nele me vi como sujeito histórico e nele acredito que outras centenas de crianças ainda se enxergam. Mas o cordel não nos mostra apenas a morte Severina, nos mostra também a beleza da cultura de uma terra sofrida.

Para minha amiga Kéu Silva, uma das melhores poetisas do cordel que já li e ouvir

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Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

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O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

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