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Economia

Venezuelanos recorrem a criptomoedas contra hiperinflação

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Para o venezuelano Gabriel Jiménez, voltar para o país natal seria perigoso. O programador de 31 anos vive exilado há dois anos nos Estados Unidos, de onde tenta promover uma revolução de criptomoedas na Venezuela com uma moeda digital chamada Reserve.

Em circulação desde março deste ano, a nova criptomoeda tem como objetivo contornar a altíssima inflação da Venezuela. Os políticos socialistas no governo “não têm soluções para nosso país” e nem para sua moeda corrente depreciada, o bolívar, disse ele à DW.

Oficialmente encarregado de projetar a primeira criptomoeda da Venezuela há três anos, Jiménez – então um jovem fundador de startups de 27 anos de idade – viu uma chance de vencer a hiperinflação e se vingar clandestinamente do detestado governo socialista do país.

Gabriel Jiménez, criador da criptomoeda Petro e hoje exilado nos Estados Unidos

Antes que o governo de Nicolás Maduro o abordasse para discutir a criação de uma moeda digital, Jiménez fazia parte do movimento antigoverno, tendo participado de vários protestos de rua. Na época, a economia do país sul-americano rico em petróleo já estava em queda livre.

Petro: a primeira criptomoeda estatal do mundo

Jiménez viu uma oportunidade de mudar seu país a partir de dentro. Se uma criptomoeda parecida com o Bitcoin fosse feita da maneira certa, pensou, ele poderia dar ao governo o que ele queria – uma maneira de contornar as sanções financeiras excruciantes impostas pelo governo do ex-presidente americano Donald Trump –, enquanto também introduziria furtivamente uma tecnologia que daria aos venezuelanos certo grau de liberdade.

A perigosa empreitada transportou Jiménez da vida de um ativista para o centro das sombrias instituições de poder da Venezuela. No entanto, a primeira moeda digital estatal do mundo, a Petro, que ele ajudou a criar, não se tornou o tipo de revolução que ele esperava.

Maduro (à direita) aposta na Petro para amenizar os efeitos das sanções americanas e da crise econômica doméstica

Por estar ancorada nas reservas de petróleo da Venezuela, a Petro quebra os princípios do Bitcoin e de outras criptomoedas, cujos valores não derivam de recursos naturais ou moedas fiduciárias do governo, mas apenas das leis da matemática. Antes e depois do lançamento da Petro, em fevereiro de 2018, Jiménez também foi repetidamente forçado a alterar o chamado “relatório branco” do token, informando em qual plataforma de blockchain a moeda era negociada.

“Fui ingênuo na época e ainda me dói muito ver como a Petro está sendo mal usada como arma política do governo”, disse ele, acrescentando que acabou sendo forçado a fugir para o exílio para escapar de prisão e punição.

Inflação e uso de moedas digitais disparam

Suas negociações com o governo Maduro fizeram de Jiménez uma figura controversa e que perdeu muita confiança dentro da criptocomunidade global. Ele se diz, no entanto, ainda determinado a combater a inflação descontrolada de seu país, que em março forçou o governo a emitir uma nota de 1 milhão de bolívares – no valor de cerca de meio dólar.

Só no ano passado, a taxa de inflação anual chegou a 6.500% na Venezuela, fazendo com que as economias dos venezuelanos virassem fumaça e acelerando o movimento de fuga para o dólar americano.

Segundo o think tank venezuelano Ecoanalitica, cerca de 66% de todas as transações financeiras no país já são feitas na moeda americana. Ao mesmo tempo, as negociações de criptomoedas pagas com bolívar venezuelano aumentaram, mostram os dados da plataforma de criptomoeda LocalBitcoins.

Analistas de blockchain da Chainalysis, de Nova York, também dizem que os criptotraders da Venezuela estão entre os mais ativos do mundo, próximos aos dos EUA e da Rússia quando se trata de negociações peer-to-peer (P2P) de criptomoedas baseadas em dólar.

José Maldonado, jornalista que escreve para a plataforma especializada de notícias Cointelegraph, diz que hoje é possível pagar até vendedores ambulantes com moedas digitais em algumas das maiores cidades venezuelanas, como Caracas, Maracaibo ou Valência. A tendência também está se espalhando para lojas tradicionais, disse ele à DW por e-mail.

Pagamento com petros em uma loja em Caracas

“Quer se trate de móveis, roupas ou mantimentos – praticamente tudo pode ser comprado com criptomoedas”, disse ele, acrescentando que as moedas preferidas dos venezuelanos são principalmente Bitcoin, Ether, Dash e Eos.

Maldonado observa ainda que a bolsa global de criptomoedas Binance se tornou tão conhecida quanto o maior banco comercial do país, o Banco da Venezuela.

Brinquedo de ricos, de expatriados e do governo

Na Venezuela, são sobretudo as elites e os membros da classe média alta que podem se aventurar no mundo das criptomoedas. Em muitas partes do país, a conexão de internet costuma ser muito fraca para permitir o acesso ao comércio de moedas. “Para a maioria da população, o uso de moedas digitais continua sendo uma ilusão”, disse Maldonado.

Ainda assim, as criptomoedas são a salvação financeira para muitos venezuelanos, pois são uma maneira fácil e econômica de permitir que seus parentes no exílio enviem dinheiro para casa. O descontentamento generalizado com os governantes socialistas do país obrigou 5 milhões de venezuelanos, de uma população total de 30 milhões, a deixar seu país.

Maduro tem usado a Petro como ferramenta de propaganda para aumentar o apoio público à sua política social

Petro luta por reconhecimento

No final do ano passado, cerca de 8 milhões de funcionários públicos recebiam meio Petro cada, cerca de 30 dólares, como bônus de Natal. Quem tivesse interesse precisava se registrar em uma plataforma digital do governo. Desde 2021, o pagamento de tributos também pode ser feito em Petros.

O esforço do governo para promover o uso de seu token digital parece estar dando frutos. Em meados de 2020, operadores de postos de gasolina relataram que cerca de 15% de todos os pagamentos de combustível foram feitos com a Petro.

Mas também há relatos de que as autoridades estão usando cada vez mais o token para transferir suas riquezas para o exterior, porque, da mesma forma que o Bitcoin, o comércio de moedas digitais é uma forma ideal de acobertar dinheiro ilegal.

Jiménez acredita que trabalhar no projeto Petro foi um erro, que agora o leva a trabalhar ainda mais duro como forma de compensação. A única coisa boa que saiu disso tudo, afirma, foi uma aceitação mais ampla das criptomoedas na Venezuela.

Embora o uso cresça lentamente entre a população em geral, aqueles que utilizam moedas digitais estão gradualmente recuperando partes cada vez maiores de sua liberdade financeira. E mesmo que o risco de grandes oscilações de valor seja alto, argumenta Jiménez, as criptomoedas ainda são um investimento que vale a pena, dada a queda aparentemente sem fim da moeda oficial da Venezuela.

Frango milionário
Quem quer fazer compras na capital venezuelana, Caracas, tem que enfrentar longas filas e, até antes da reforma monetária, trazer montes de dinheiro vivo. Esse frango de pouco mais de dois quilos custava 14,6 milhões de bolívares, o equivalente a dois euros. Foto de Carlos Garcia Rawlins, da agência Reuters.

Por DW

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Economia

Por que o dólar ‘emperrou’ nos R$ 5 e o que o impede de cair mais?

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Especial CNN – Depois de cair 14% em três meses, taxa de câmbio está presa há duas semanas na cotação entre R$ 5 e R$ 5,10, e hesita em passar para a faixa dos R$ 4

Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo

Desde quando voltou a bater impressionantes R$ 5,88, no início de março, o dólar engatou numa ladeira que o derrubou em poucos meses até os R$ 5,03 de seu fechamento nesta quinta-feira (17). A queda desde o pico foi de 14%.

É o menor valor e também o mais próximo do piso dos R$ 5 desde a última vez em que a moeda norte-americana viu a cara dos R$ 4, em 10 de junho do ano passado, quando fechou valendo R$ 4,94 para depois subir e nunca mais voltar.  

Já faz, no entanto, duas semanas que a cotação do dólar cruzou para menos dos R$ 5,10 pela primeira vez em 2021, e aí parou. No pregão da quarta-feira, ela até chegou a ficar por um instante nos R$ 4,98, mas foi de novo trazida para cima dos R$ 5 depois que o banco central dos Estados Unidos abalou os mercados ao dizer que pode subir seus juros antes do previsto. 

Há duas semanas na cotação entre R$ 5 e R$ 5,10

É como se o dólar estivesse preso numa armadilha psicológica entre o R$ 5 e o R$ 5,10 que o impede de finalmente cruzar a linha e começar a testar novos territórios na casa dos R$ 4, abrindo o caminho para que possa voltar aos patamares em que era negociado antes da pandemia. No início de 2020, o dólar era cotado na faixa de R$ 4. 

É uma barreira bastante similar à que parece estar prendendo o Ibovespa, o principal índice acionário da bolsa brasileira, que, depois de bater uma série de recordes sucessivos e chegar aos 130 mil pontos pela primeira vez de sua história, pareceu desistir e fica agora flutuando em pequenas oscilações para baixo disso. 

O dólar é conhecido por ser o indicador mais traiçoeiro que existe: como varia a cada segundo e por qualquer coisa, os economista já sabem que fazer projeções para ele é garantia de erro. Ainda assim, acompanhar sua tendência é ter um importante termômetro de como está a economia doméstica em relação ao restante do mundo. 

130 mil pontos pela primeira vez de sua história, pareceu desistir e fica agora flutuando em pequenas oscilações para baixo disso. 

Economia mais fortes e juros mais atrativos

Significativa melhora tanto nas perspectivas para o PIB do Brasil quanto para o seu resultado fiscal, com uma dívida que não deve mais ficar tão pesada quanto se chegou a imaginar após os gastos vultosos da pandemia, são os principais fatores que ajudaram a virar a chave do dólar nos últimos meses e empurrá-lo ladeira abaixo até o chão dos R$ 5.

Os aumentos fortes já feitos pelo Banco Central na taxa básica de juros do país desde março também entram na conta, já que juros mais altos ajudam a atrair investidores para os títulos domésticos.

Com essa mudança de cenário, já há os primeiros que falam em um dólar que pode se firmar em breve em algum novo lugar abaixo dos R$ 4 – a corretora Genial Investimentos, por exemplo, diz em relatório recente que a moeda pode seguir caindo até os R$ 4,60 até o final deste ano, caso não haja nenhuma grande nova reviravolta no Brasil ou no mundo. 

“A menos que o Fed [Federal Reserve, banco central americano] decida começar a reduzir as compras de ativos financeiros no mercado antes do esperado, o que parece pouco provável, a valorização do real deverá persistir, podendo atingir um nível próximo a R$ 4,60 no final de 2021”, escreveram os analistas da corretora.

Para outros, porém, o mais provável é que o dólar continue estacionado nesta barreira dos R$ 5, podendo eventualmente passar temporadas de alguns dias abaixo disso, mas sempre voltando para a parte de cima depois. 

“Os problemas estruturais fiscais do país ainda estão aí; os auxílios emergenciais, que ajudaram a segurar o PIB, causaram um rombo muito grande nas contas”, diz Fernando Bergallo, diretor da operadora de câmbio FB Capital. “Esse dólar só rompe a barreira dos R$ 5 e vem para R$ 4,70 ou R$ 4,80 com as reformas andando.”

valorização do real deverá persistir, podendo atingir um nível próximo a R$ 4,60 no final de 2021

Na dependência dos EUA

“Estamos hoje melhor do que estávamos pouco tempo atrás para passar pelos riscos externos”, disse  a economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico. 

“Mas não consigo enxergar o dólar consistentemente abaixo dos R$ 5, ficando em R$ 4,70 ou R$ 4,50, por exemplo. Ele deve continuar flutuando ao redor desses R$ 5 ou R$ 5,10, porque, quando começar a discussão a respeito do ‘tapering’ [redução dos estímulos] nos Estados Unidos, será um cenário desfavorável para os países emergentes.”

O “tapering”, ou “estreitamento” em inglês, é o nome dos economistas para a retirada gradual dos estímulos extraordinários que o banco central norte-americano, o Fed, passou a injetar no ano passado, no auge da pandemia. São bilhões de dólares vertidos todos os meses sobre a economia em compra de títulos do mercado financeiro, o que garante que o dinheiro e o apetite dos investidores continuem girando.  

Como, porém, tanto a economia quando a inflação dos EUA já estão andando muito mais forte do que o imaginado, a expectativa é que esse megapacote de incentivos do Fed comece a ser enxugado em algum momento do segundo semestre. E um dos resultados inevitáveis disso é a redução desse apetite do dinheiro global por ativos de risco, fazendo com que países emergentes percam capitais enquanto o dólar volta a se fortalecer em relação a suas moedas. 

A projeção da Armor Capital é de um dólar a R$ 5,30 ao final de 2021. No Boletim Focus, relatório semanal do Banco Central com projeções feitas por mais de 100 bancos e consultorias, a expectativa média está em R$ 5,18, o que significa ainda um aumento em relação aos patamares de hoje. Ainda assim, já é uma forte revisão em relação a semanas anteriores, quando esse número estava em R$ 5,30.

Especial CNN Brasil

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