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Porto Seguro

Solar dos Martírios: história, arquitetura e narrativas

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Solar dos Martírios, pintado pelo luso-brasileiro Jorge Maltieira em 1961.
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No gracioso bairro do Pacatá, às margens do rio Buranhém e esquina com a rua Quintino Bocaiúva, uma verdadeira obra de arte do neoclassicismo baiano tem lugar cativo no embelezamento da paisagem urbana de Porto Seguro. Construída, provavelmente, em meados do século XIX, a casa, desenhada tipicamente como uma casa de chácara, foi encomendada pela poderosa família Horcaides, que, espalhada por todo extremo sul da Bahia, possuía destacados membros na política, no judiciário, nos negócios e até na imprensa nacional. O modelo da construção do imóvel se adaptava à atmosfera geral do sítio, pois o Pacatá era o último bairro da cidade baixa, onde elegantes sobrados e casarões se erguiam diante das calmas águas do rio, acompanhados por uma distante vegetação de mangue e uma prainha que recebia canoas e pequenas embarcações.

O solar, antigamente, estava articulado a um encantador pomar que abrigava coqueiros, mangueiras, bananeiras, laranjeiras e fruta-pãozeiros. Adaptando-se à bucólica paisagem, a construção ocupava o canto direito do campo frutífero e se lançava, sem qualquer mediação de portões ou cercas, sobre a rua lateral e frontal. Com essa configuração, cumpria facilmente sua função de moradia aprazível de uma rica família porto-segurense. Atualmente, diminuída quase que por completa a área verde e alterado também o panorama do bairro, o prédio serve como uma escola privada, preservando, contudo, parte significativa de seu relevante valor cultural.

No aspecto arquitetônico, aliás, tem a casa um singular interesse. A cobertura tem telhado de duas águas, que forma um sótão pelo desvão, apresentando na fachada lateral um frontão simétrico em forma triangular e assentado sobre cornija, decorado ainda com duas marcantes janelas. Na fachada frontal, moldurada por cunhais e cornija, três janelas e a porta principal se destacam com seus vãos em arcos plenos. Apesar da repetição do modelo em pouquíssimas outras casas espalhadas pela cidade, este tipo de construção do estilo neoclássico se difundiu na Bahia a partir de 1830, sendo comum não só no litoral como também no sertão.

Tem igualmente o solar um certo grau de ecletismo que enriquece a obra. No acesso lateral, pela atual rua Quintino Bocaiúva, o portão do antigo quintal carrega uma preciosa expressão da transição do barroco para o rococó. A obra foi moldurada por cunhais e cornija, trazendo vão em arco pleno, decorada com delicado frontão que apresenta no centro uma medalha, adornada com curvas e contracurvas, tendo no centro a inscrição de duas letras, aparentemente E e D. No conjunto original, que foi delicadamente pintado pelo luso-brasileiro Jorge Maltieira em 1961, todo o desenho do muro que acompanhava o portão parecia formar um quadro delicado com diversos tratamentos decorativos.

Não são apenas os atributos arquitetônicos que dão ao solar um caráter de patrimônio cultural de extrema relevância para Porto Seguro. Ali, segundo a tradição local, foi o palco de uma das histórias mais tristes, trágicas e marcantes da cidade. Ainda no século XIX, a casa teria sido habitada pelo juiz Chaves e sua esposa Josefina. Tomado por ataques desvairados de ciúmes, o magistrado transformou sua companheira em verdadeira prisioneira e passou a martirizá-la em sessões diárias de tortura. Os gritos e lamentos da mulher rompiam as grossas e frias paredes do solar, despertando rumores e inquietação na população diante de tamanho infortúnio. Depois de muito sofrimento, Josefina teria se libertado, supostamente, por meio do suicídio, envenenando-se com erva-paris.

Impossibilitada do descanso eterno junto aos cristãos, foi enterrada pelo povo da cidade no fim da antiga rua Nova, no lado esquerdo da estrada que dava nas proximidades da ladeira de acesso à cidade alta. Ali recebeu humilde sepultura: uma pequena cerca, singelas flores e uma cruz com simples inscrição – “aqui jazes Josefina”. A trágica história da moça alteraria para sempre o nome do solar e do logradouro da sua sepultura. Como um lugar de memória das dores de Josefina, a casa ganhou o título de Solar dos Martírios. E, como uma sacralização da conquista de sua liberdade frente à brutal violência de seu marido, a rua que abrigou sua campa foi imortalizada como Cova da Moça.

Um só lugar: uma despretensiosa casa de chácara. Simplesmente, uma construção de pedra, tijolo, adobe e cal. Surpreendentemente, uma obra de arte em soluções arquitetônicas encantadoras e precisas. Historicamente, um arquivo imponente de uma das lendas mais significativas da cidade. A quem diga, inclusive, que, por muito pouco, Josefina não se transformou na santa de Porto Seguro. Seja como for, instalado há quase dois séculos na bela rua do mangue, o Solar dos Martírios é história e patrimônio da cidade.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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Porto Seguro

Fazenda é invadida em Arraial D`Ajuda

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A fazenda Tropa Costeira foi invadida neste derradeiro domingo (20) por volta das 7h da manhã, localizada na BA-986 em Arraial D’Ajuda, a propriedade já foi invadida e desocupada duas vezes. Lideranças do distrito denunciam que há prejuízos causados por queimados e desmate de árvores para construção de barracos improvisados.

No mesmo dia do ocorrido, um vídeo de uma liderança da invasão foi disparado no aplicativo Whatsapp. “Estamos aqui, na Fazenda Tropa Costeira, estão aqui os companheiros fazendo os acampamentos. Essa terra é uma terra totalmente devoluta, não tem produção nenhuma e o povo na rua, passando fome, necessidade, precisando trabalhar. Toda hora chega gente aqui e se você quiser vir pra cá se abrigar aqui no Arraial d´Ajuda, venha hoje, venha pra ficar. Nós vamos tirar 5 mil m² para cada um fazer o seu quintal produtivo”, promete.

A propriedade é avaliada em cerca de R$ 40 milhões e no local teria sido construído um hotel fazenda com recursos do Banco do Brasil, no entanto, sem quitação por parte do proprietário. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente já foi acionada e compareceu no local com a equipe de fiscalização, de acordo com moradores, para uma ação mais efetiva, os proprietários deveriam tomar providências. Os atuais donos já teriam sim enviado advogados para resolver a questão.

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