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Pobreza menstrual e alguns impactos em estudantes de escolas públicas baianas

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Desde o início de 2020 estamos acompanhando a mídia de uma maneira geral falar massivamente sobre a importância de lavar as mãos frequentemente com água e sabão, utilizar o álcool em gel 70% e principalmente, usar máscaras, realizando frequentemente a troca das mesmas para que se mantenham ferramentas eficazes de proteção contra o novo Coronavírus. Este conjunto de estratégias é de fundamental importância para a proteção e bem-estar de cada indivíduo na luta contra a Covid-19.

Esta enorme e necessária visibilidade dada a Covid-19 deveria ser comum em outros assuntos também relacionados à saúde pública. Mas, infelizmente, não percebemos o mesmo engajamento e mobilização para uma questão muito mais antiga e que atinge e aflige milhões de mulheres, meninas e homens transexuais mundo afora: a “pobreza menstrual”. Este inclusive é um dos assuntos de saúde pública que tem sofrido há muito tempo com uma frequente e perturbadora invisibilidade.

A verdade, é que em plena era digital, a menstruação que deveria ser encarada como um processo natural e intrínseco ao corpo de tantas pessoas, ainda é visto como um enorme tabu, sendo um tema inclusive negligenciado e tratado de forma preconceituosa em muitos ambientes e em diferentes culturas, o que também contribui para o aumento do processo de desinformação entorno do tema.

Mas você já ouviu falar e sabe o que significa o conceito de “pobreza menstrual”? A pobreza menstrual é à falta de acesso aos itens básicos como absorventes higiênicos que podem ser descartáveis ou reutilizáveis no período menstrual, revelando uma enorme carência econômica das pessoas em situação de pobreza para adquirir esses itens, o que acaba impactando diretamente na saúde e qualidade de vida das meninas, mulheres e homens transexuais em situação de vulnerabilidade socioeconômica, sendo uma realidade muito presente em países pobres ou em desenvolvimento, como é o caso do Brasil.

Em nosso país, a pobreza menstrual é tão presente em todas as regiões brasileiras, que poderia ser utilizada como um dos índices que revelam a desigualdade social e a péssima distribuição de renda entre a população.  Para ilustrar bem essa situação, a marca de absorventes Sempre Livre realizou em 2018 uma pesquisa online que apontou que 22% das meninas de faixa etária entre 12 a 14 anos no Brasil, não têm acesso a produtos higiênicos adequados durante o período menstrual. A situação fica ainda pior quando se trata de adolescentes na faixa etária entre 15 a 17 anos, pois o número sobe para 26%.

Observem os dados acima, notem que as faixas etárias atingidas pela pobreza menstrual coincidem diretamente com a vida escolar destas meninas e adolescentes, mas precisamente, com os períodos escolares denominados de Ensino Fundamental 2 e o Ensino Médio. Mas o que esta relação entre pobreza menstrual e vida escolar, afeta estudantes, principalmente e quase que exclusivamente, estudantes de baixa renda? Bem, como professora da rede pública baiana há dezessete anos, tendo lecionado na rede municipal de ensino por quatro anos e na rede estadual há treze anos, passando por municípios como Ubaitaba, Itabuna, Ilhéus, Itapetinga e Porto Seguro, pude ouvir inúmeros relatos e presenciar diversas situações ligadas às dificuldades socioeconômicas de estudantes da rede pública do estado da Bahia, e não é necessário refletir muito para fazer um link importante: a evasão escolar durante o ciclo menstrual de centenas de alunas é uma realidade e ela está intrinsicamente ligada a pobreza menstrual.

Durante todo este tempo em que atuei como docente em escolas da rede municipal e estadual em diferentes municípios baianos pude ouvir desabafos preocupantes de adolescentes que relatavam fazer uso de materiais indevidos para conter o ciclo menstrual, dentre estes: o uso de um único absorvente durante 24 horas seguidas, uso de plástico, uso de três calcinhas ao mesmo tempo, papel higiênico, jornal, trapos de tecidos, pedaços de algodão e até mesmo folhas de caderno escolar, materiais estes improvisados e que certamente colocavam a saúde destas pessoas em risco.

O fato é que as escolas públicas baianas, sejam elas municipais ou estaduais, não estão preparadas para o acolhimento das estudantes no período menstrual. Se nos banheiros falta o básico como sabonete e papel higiênico, o que dizer sobre os absorventes higiênicos? Para se ter uma ideia, a recomendação dos ginecologistas é trocar de absorvente, no máximo, a cada seis horas, no caso dos modelos descartáveis tradicionais. Para uma pessoa com ciclo menstrual de cinco dias, seriam 30 absorventes por ciclo, com um custo médio de R$ 20 por mês por mulher da casa. Se em uma mesma residência tivermos duas pessoas jovens com ciclos menstruais de cinco dias cada, o valor a ser investido na compra de absorventes passa para R$ 40 por mês, valor este que para quem vive em situação de pobreza ou de miséria, é muito e pode impactar sobre o orçamento familiar.

Situações vivenciadas por estudantes, como vazamento de absorventes, ou chegada da menstruação no ambiente escolar, seriam facilmente contornadas se houvessem políticas públicas efetivas que pensassem com seriedade na saúde das pessoas de baixa renda. As escolas públicas deveriam contar com banheiros adequados, devidamente equipados com chuveiros, sabonetes, toalhas e absorventes higiênicos para que se tornassem ambientes realmente acolhedores para milhares de adolescentes de baixa renda.  Porém, observamos exatamente o contrário: muitas vezes, no ambiente escolar, absorventes vazam e sujam a roupa de sangue, o que causa enorme constrangimento entre as meninas e adolescentes, pois na maioria das vezes estas pessoas não possuem outro absorvente higiênico para fazer a troca e a escola também não oferece nenhum suporte para que a higiene menstrual possa ser realizada adequadamente. Somando-se a isso, muitos dos estudantes baianos ainda consideram a menstruação como um assunto a não ser falado, outros tratam como motivo de vergonha ou chacota e para agravar ainda mais a sucessão de constrangimentos que passam as pessoas jovens atingidas pela pobreza menstrual, surge a gota d’água:  é uma burocracia enorme para a estudante ir embora para casa quando seu fluxo menstrual vaza na escola! Em boa parte das vezes, ela precisa explicar a situação para docentes, coordenadores pedagógicos, vice-diretores ou diretores, ficando extremamente exposta, até finalmente ser liberada para ir embora para casa.

Em um contexto como este, onde a grande exposição, o constrangimento e a insegurança emocional e financeira são evidenciadas, torna-se fácil perceber por quais motivos adolescentes no período menstrual optam por ficar em casa, mesmo que isto possa ocasionar uma série de transtornos, como a evasão escolar, a perda dos conteúdos, o déficit no processo de ensino-aprendizagem, interferir na saúde física e emocional, além de acentuar ainda mais a desigualdade social e de gênero no estado da Bahia e por conseguinte, em nosso país.

Faz-se necessário entender a seriedade deste assunto e como ele pode gerar consequências negativas as pessoas atingidas. Normalizar a menstruação como um processo orgânico e existente no corpo humano, falar e discutir sobre o assunto nas escolas desde as séries iniciais até o ensino médio, ofertando informações de qualidade aos nossos estudantes através de campanhas educativas, distribuição de cartilhas e fomentando o diálogo dentro da comunidade escolar, são ferramentas potentes para começarmos a mudar este cenário, mas não é só isso! Políticas públicas precisam ser efetivas e propositivas neste assunto, encarando a pobreza menstrual como uma questão emergencial e de saúde pública. Embora em alguns estados brasileiros já existam projetos de lei que dispõem sobre a oferta de absorventes higiênicos em unidades da rede de atenção primária à saúde, sendo uma boa medida, ainda não é o suficiente, pois precisamos estender a oferta de absorventes higiênicos dentro das escolas públicas de uma maneira geral.

No caso do estado baiano, existe uma notícia atual e muito boa: muito recentemente foi apresentado na Assembleia Legislativa da Bahia, um projeto de lei da deputada Olívia Santana do PC do B, que tem como intuito, incluir na Política Estadual da Saúde da Mulher um capítulo voltado para a conscientização e combate à Pobreza Menstrual da mulher e da adolescente, com garantia da distribuição gratuita de absorventes higiênicos nas unidades básicas de saúde, escolas da rede pública estadual e unidades prisionais e de ressocialização de mulheres e adolescentes.

Já que desde 2014, a Organização das Nações Unidas – ONU reconheceu o direito à higiene menstrual como questão de direitos humanos e saúde pública, a sociedade brasileira deve buscar apoiar iniciativas que ofereçam visibilidade a pobreza menstrual e a partir disso exigir políticas públicas que tragam a dignidade para milhares de adolescentes em idade escolar na Bahia, no Brasil e no mundo, ajudando a democratizar o acesso ao que deveria ser considerado básico: os itens de higiene menstrual, para que as pessoas, antes vítimas da pobreza menstrual, possam enfim viver este período com dignidade, de maneira positiva, saudável e plena.

Geógrafa, especialista em Meio Ambiente e Desenvolvimento, professora da rede estadual de ensino da Bahia, ativista social com diversos projetos na área ambiental e de ensino e aprendizagem, coordenadora de projetos de emancipação e empoderamento de mulheres do campo e das periferias.

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Brasileira é a primeira negra latino-americana a escalar o Everest

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A brasileira Aretha Duarte, de 37 anos, se tornou a primeira negra latino-americana a escalar a maior montanha do mundo, o Monte Everest, no Nepal. A subida até o topo durou 54 dias. 

A atleta, que é originária de Campinas, no interior de São Paulo, começou a recolher resíduos recicláveis nas ruas, como plásticos e metais, para conseguir juntar o dinheiro necessário para a expedição. Com a ajuda da mãe, a cozinha aposentada Euleide Antônia de Freitas, foram arrecadados 130 toneladas desse material em 14 meses.

Ela também fez vaquinhas, bazares de roupas e teve ajuda de empresários para angariar os R$ 400 mil necessários. “Muita gente acreditou comigo e fez essa realidade acontecer”, disse Aretha à CNN.

A subida até o topo durou 54 dias

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