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A tragédia da covid-19 na Índia que não aparece nos números oficiais e o mundo desconhece

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MATÉRIA ESPECIAL Infecções e mortes no país vêm batendo seguidos recordes. Mas especialistas apontam que precariedade no sistema de registro de óbitos sugere que realidade é ainda mais dramática do que a exibida nos dados oficiais.

Na semana entre 18 e 25 de abril, a Índia relatou 2,24 milhões de novos casos de coronavírus, o maior número computado por qualquer país em um período de sete dias. Também registrou 16.257 mortes, quase o dobro das 8.588 mortes contabilizadas na semana anterior, segundo dados do Ministério da Saúde indiano.

A Índia tem apresentado taxas diárias de mais de 300 mil casos nos últimos seis dias. O país computou nesta terça-feira (27/04) mais de 323 mil novas infecções diárias e mais de 2.7 mil mortes relacionadas à covid-19 nas últimas 24 horas.

Ao todo, cerca de 198 mil pessoas morreram, enquanto mais de 17,6 milhões de pessoas foram infectadas com o vírus na Índia, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, dos EUA.

Corpos queimando fora dos crematórios e até nas calçadas mostram que tragédia é maior que os números dizem

“Tragédia é muito maior”

As cifras impressionam, mas especialistas acreditam que o número real de mortes por covid-19 pode ser muito maior do que os das autoridades sanitárias do país. “As cenas angustiantes de pacientes morrendo em ambulâncias e corpos queimando em piras fora dos crematórios e até mesmo nas calçadas das cidades mostram claramente que a tragédia é muito maior”, diz o médico particular Anoop Saraya.

A taxa de mortalidade relativamente baixa da Índia não conta toda a história e há suspeitas de que há uma subnotificação substancial em vários estados do país.

Casos suspeitos não estão sendo incluídos na contagem final, e as mortes pela infecção estão sendo creditadas a problemas de saúde subjacentes, dizem observadores.

“Parece haver uma grande discrepância entre os registros oficiais de mortes atribuídas à covid-19 e os relatos de cremações e enterros, que são muito diferentes do que o que normalmente seria esperado”, afirma Gautam Menon, professor de física e biologia da Universidade Ashoka.

“Essas discrepâncias sugerem que os números verdadeiros estão sendo suprimidos”, avalia o especialista em saúde. “O número real de mortes por covid-19 pode ser de 5 a 10 vezes os números oficiais. Junto com a subnotificação de casos e as altas taxas de infecções que estamos vendo em todo o país, a verdadeira escala da pandemia pode ser muito pior do que os números sugerem”, acrescenta.

Pacientes de covid-19 em hospital de Nova Déli

Atrasos em testes

Shahid Jameel, virologista e diretor da Escola de Biociências Trivedi da Universidade Ashoka, também afirma que o número real de mortos é maior do que o registrado, com base em relatórios de cremações e de cemitérios.

Ele destaca que o aumento da demanda por testes de covid-19 criou atrasos, fazendo com que os laboratórios que emitiam resultados em horas passassem a demorar dias para um diagnóstico. “Um problema que está acontecendo é que os resultados dos testes estão demorando muito para chegar. Aconteceu com meu primo em Uttar Pradesh. Ele foi testado em 13 de abril, e o resultado do teste ainda não chegou”, relata Jameel.

“E ele não será relatado como morte por covid-19, embora ele tivesse todos os sintomas, incluindo uma pontuação muito alta de infecção pulmonar e indícios de de inflamação elevados no sangue. Existem milhares de casos como esse.”

Preparativos para uma cremação em massa de mortos por covid-19 na Índia

Precário registro de mortes

Em cidades menores como Surat, Kanpur e Ghaziabad, que têm relatado um alto número de mortes pelo vírus, cremações em massa têm ocorrido em espaços abertos por causa da escassez de espaços para crematórios e mortes em cifras muito superiores aos números oficiais.

Embora muitos países tenham lutado para registrar o número preciso de mortes pelo coronavírus, na Índia, o problema foi agravado pela falta de um sistema de registro de óbitos eficaz em muitas partes do país.

A causa da maioria das mortes no país não é atestada por um profissional médico treinado, tornando os dados sobre a taxa de letalidade pouco confiáveis. “Como o registro de óbitos é precário na Índia, o governo terá poucos dados para responder ao impacto da covid-19 em grandes partes da população que vive em áreas rurais”, explica o renomado virologista Jacob John.

Se essas mortes tivessem sido monitoradas por um sistema de registro, elas poderiam ter sido usadas para um direcionamento melhor das medidas de socorro do governo, assim como das respostas do sistema de saúde.

“Infelizmente, não temos sistema de saúde público neste país. A causa das mortes raramente é registrada”, lamenta John.

Uma das maiores populações da terra e não tem sistema de saúde publica. Preço amargo.

Mortes fora dos hospitais

Na ausência de um sistema confiável de registro de óbitos, o Programa de Vigilância Integrada de Doenças (IDSP) do governo tem coletado dados sobre casos de covid-19 e óbitos em laboratórios de teste e em hospitais. No entanto, a principal limitação do IDSP é que ele não tem como rastrear as mortes fora dos hospitais.

“No cenário atual, a crescente contagem oficial de casos na Índia pode representar apenas a ponta de um iceberg. Por causa das baixas taxas de testes fora das grandes cidades, o número de casos reais e as mortes podem ser de 10 a 30 vezes maiores”, afirma Vikas Bajpai, do Progressive Medicos and Scientists Forum.

Edição Fábio Del Porto

Por DW

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Aquecimento global ameaça cidades costeiras, alertam peritos da ONU

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A subida do nível do mar, as inundações e a intensificação das ondas de calor ameaçam as cidades costeiras em todo o mundo, diz relatório provisório do Painel Intergovernamental de Especialistas sobre a Evolução do Clima (IPCC, na sigla em inglês).

De Bombaim a Miami, Daca ou Veneza, essas cidades e os seus milhões de habitantes que vivem na foz dos estuários ou nas linhas sinuosas da costa estão “na linha da frente” da crise climática, que corre o risco de redesenhar os mapas dos continentes, afirma o documento.

“O nível do mar continua a subir, as inundações e as ondas de calor são cada vez mais frequentes e intensas e o aquecimento aumenta a acidez do oceano”, observam os cientistas no relatório de 4 mil páginas sobre os impactos das mudanças climáticas.

De acordo com os peritos climáticos, é preciso “fazer escolhas difíceis”.

Praia da Boa Viagem em Pernambuco, avanços constantes do mar e prejuízos econômicos e sociais

Sob o efeito combinado da expansão dos oceanos e do degelo causado pelo aquecimento, a subida do nível do mar também ameaça contaminar os solos agrícolas com água salgada e engolir infraestruturas estratégicas, como portos ou aeroportos.

Um “perigo para as sociedades e para a economia mundial em geral”, alerta o IPCC, lembrando que cerca de 10% da população mundial e dos trabalhadores estão a menos de dez metros acima do nível do mar.

“Para algumas megalópoles, deltas, pequenas ilhas e comunidades árticas, as consequências podem ser sentidas muito rapidamente, durante a vida da maioria das populações atuais”.

De acordo com os peritos, o nível do oceano pode subir 60 centímetros até ao final do século.

“O destino de muitas cidades costeiras é sombrio sem uma queda drástica nas emissões de CO2”, dizem os pesquisadores, acrescentando que “qualquer que seja a taxa dessas emissões, o aumento do nível dos oceanos acelera e continuará a ocorrer durante milénios”.

“A maioria das cidades costeiras pode morrer. Muitas delas serão dizimadas por inundações de longo prazo. Em 2050, teremos uma imagem mais clara”, disse Ben Strauss, da organização Climate Central.

Mas, apesar dessas previsões sombrias, as cidades costeiras continuam a crescer, multiplicando as vítimas em potencial, especialmente na Ásia e na África.

Segundo o documento, um aquecimento global acima do limiar de 1,5 ºC (grau centígrado), fixado pelo acordo de Paris, teria “impactos irreversíveis para os sistemas humanos e ecológicos”. Os peritos afirmam que a sobrevivência da humanidade pode estar ameaçada.

Com as temperaturas médias subindo 1,1 °C desde meados do século 19, os efeitos no planeta já são graves e podem se tornar cada vez mais violentos, ainda que as emissões de dióxido de carbono (CO2) venham a ser reduzidas. 

BR 367 em orla norte de Porto Seguro, problemas constantes para maquiar uma questão bem maior no futuro

Falta de água, fome, incêndios e êxodo em massa são alguns dos perigos destacados pelos peritos da ONU.

O relatório de avaliação global dos impactos do aquecimento, criado para apoiar decisões políticas, é muito mais alarmante que o antecessor, divulgado em 2018.

O documento deverá ser publicado em fevereiro de 2022, após a aprovação pelos 195 Estados-membros da ONU e depois da conferência climática COP26, marcada para novembro em Glasgow, na Escócia.

Prevista originalmente para novembro de 2020, a 26.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26), com líderes de 196 países, empresas e especialistas, foi adiada devido à pandemia de covid-19.

Agência Brasil

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