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O Evangelho Segundo Quentin Tarantino

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Estando o Jesus Cristo entre dois ladrões, um deles olha para o lado e diz: “Não é você o filho de Deus, desce da cruz e salva-te, aproveita e leva a gente contigo”. Jesus ouvindo aquelas palavras olha para os céus, desce da cruz, provando ser ele o filho de Deus, olha para o ladrão, fazendo sinal de arminha e diz: “Morra, pecador! Você roubou, recebeu sua punição, bandido bom é bandido morto”.

Por óbvio, eu distorci o trecho bíblico da crucificação, retratado nos evangelhos com o propósito de mostrar o 5º evangelho, que não está na bíblia mas, é praticado pela maioria dos cristãos do século XXI, principalmente, os conservadores brasileiros, que defendem os princípios da moralidade e os valores da família tradicional, vos apresento o Evangelho Segundo Escreveu Quentin Tarantino.

Primeiro, para quem não conhece, Quentin Tarantino é um cineasta hollywoodiano cuja característica marcante é a violência surreal de seus filmes. Ainda não está ligando o nome à pessoa? Foi ele quem escreveu e dirigiu Kill Bill, Bastardos Inglórios, Django Livre e Jackie Brown. Já apresentei o nosso “apóstolo”, agora é hora de apresentar a “igreja”. Os praticantes do evangelho “quentiano”, em sua maioria são homens e mulheres de respeito, que prezam pelos valores da família, são perseguidos por causa da sua fé e se autodenominam “conservadores”. Quem bem definiu a alma do conservador brasileiro foi Nelson Rodrigues, em sua obra “Bonitinha, mas ordinária”, ele o descreve como sendo alguém que:

“ama as aparências e, portanto, esconde o que se passa entre quatro paredes. Sua ansiedade é ser o que não é ou, na prática, não existe – o ser humano que não existe nem nos contos de fadas – embora seja tão desarvegonhado quanto as demais pessoas, faz tudo escondido, para que assim possa, com extremo vigor, condenar a imoralidade alheia”

E o que Tarantino e Nelson Rodrigues tem a ver com os cristãos brasileiros? TUDO! Até porque, a maioria esmagadora dos cristãos são tudo curandeiros, coachs, psicólogos de botequim, analistas de casais, são tudo mesmo, MENOS CRISTÃOS. Explicarei o porquê.

O cristianismo, no geral, é uma religião de princípios não de práticas. Diferente de outras religiões, ela não exige sacrifício físico, de animais, peregrinações, mutilações corpóreas, etc., para ser um cristão basta você guardar os princípios básicos da bíblia. A partir disso que Lutero encabeçou os movimentos de reformas religiosas do século XVI, ele queria mostrar ao povo que eles não precisavam da igreja para ter acesso a Deus, era só guardar os princípios das escrituras. É uma interpretação simples de uma ordenança de Jesus, escrita no evangelho de Lucas: “Nega-te a ti mesmo e siga-me”. Cristo não mandou procurar uma sinagoga (templos da época), mandou segui-lo através da obediência aos seus ensinamentos.

Vamos fazer uma comparação simples: EUA é o maior país protestante (evangélico) do mundo, entretanto, tem menos de um quarto da quantidade de igrejas que existem aqui no Brasil. Os EUA foram consolidados nos PRINCÍPIOS, enquanto o Brasil é focado nas práticas. O cristão brasileiro precisa constantes cultos, missas e reuniões para mascarar a sua maldade e mau-caratismo natural, ou seja, o cristão brasileiro precisa da religião para mostrar que é bom.

Victor Kuligin, líder de um movimento missionário na África, deixa claro em seu livro “Dez coisas que eu gostaria que Jesus nunca tivesse dito” a dificuldade dos cristãos de agir com empatia e amor ao próximo. Já em “A gênese da honra”, Renê Terra Nova escreve sobre a importância de honrar ao próximo como princípio básico do cristão.

Mas, por que essa galera faz tudo errado? Simples, os cristãos tem a necessidade de estarem sempre certos e se fazerem de vítima o máximo possível. Não sei quem foi que criou a expressão “ódio do bem”, mas tenho quase certeza que foi um cristão. Os “seguidores de Jesus” tendem a achar que estão acima do bem e do mal por serem cristãos. Nesse momento de pandemia, criei ainda mais nojo dos religiosos, com a bravata de “a pandemia é invenção do diabo para fechar igreja”, “lockdown e medidas restritivas são perseguição à igreja”, usaram esses argumentos para esconder a real intenção deles: seu dízimo é mais importante que sua vida. Kuligin escreve sobre esses cristãos/líderes de hoje:

“Muitos cristãos gostam de pensar que estão sendo perseguidos por causa de Cristo, mas, na realidade, estão sendo perseguidos porque merecem. São pessoas rudes e execráveis, o tipo que aparece em funerais de homossexuais com cartazes dizendo ‘Deus odeia os gays’. Tal comportamento tende a gerar ódio pela sua hipocrisia e, por consequência, ódio pelo Deus que dizem servir. Quando são perseguidos, isso acontece porque são desprezíveis, nada mais. Será a homossexualidade pior que o ódio desferido a partir dos púlpitos?”

O mundo inteiro tentando achar uma solução para a maior crise sanitária da história recente do mundo e nós, brasileiros, sendo obrigados a ver a Suprema Côrte decidir se deve ou não permitir reuniões religiosas com aglomeração de pessoas em dias de isolamento social. Note aqui a hipocrisia, se invés de líderes religiosos, fossem organizadores de eventos querendo fazer festas, tal qual o carnaval, esses mesmos cristãos que foram ao STF estariam com forcados e tochas condenando todos ao inferno e dizendo que “a igreja está sendo perseguida por não poder fazer cultos mas festa ‘mundana’ pode”, entretanto, como não foi assim, o discurso é “a igreja está sendo perseguida porque a justiça não reconhece os cultos, missas e reuniões como serviço essencial”. Entende que, independente do resultado, sempre estaremos num ciclo de vitimismo sem fim?

Para finalizar, a prova de que vivemos um período regado pelo Evangelho de Tarantino, vou citar apenas três episódios recentes: Flordelis, Dr. Jairinho e Pr. José Olímpio. A primeira, supostamente, planejou e mandou matar o filho-genro-marido dela, Pr. Anderson Carmo. Motivação: controle financeiro da igreja. Sim, religião é negócio, movimenta dinheiro e deveria ser taxada como qualquer outro ramo empresarial. Ponto! O vereador Dr. Jairinho, por sua vez, foi apoiado por inúmeros líderes religiosos durante a campanha eleitoral, ele mesmo se dizia cristão, e foi preso, junto com a esposa, acusados de matar o menino Henry, formando assim o casal Nardoni 2.0, com um pouco mais de crueldade. Por fim, Pr. José Olímpio, que disse, publicamente, orar pela morte do ator Paulo Gustavo (internado em estado grave, com COVID-19), segundo o pastor, o trabalho do ator colabora para a proliferação da homossexualidade entre a juventude. Poderia citar inúmeros outros casos, porém, o maior argumento que corrobora a burrice dos cristãos de hoje é o discurso de “bandido bom é bandido morto”, contrariando, completamente, os princípios bíblicos que eles dizem defender.

Eu acredito, inclusive, ter errado no título deste artigo, nem Tarantino teria criatividade, sangue frio e estômago para escrever tais histórias, nem ele teria, para com seus personagens, tanto desprezo pela vida como tem os cristãos de hoje. Encerro o artigo de hoje citando Taciano, o Sírio, estudante de religiões do século II d.C., convertido ao cristianismo e discípulo de Justino. Taciano define as práticas da igreja como

“competição vã de prêmios e coroas, que incitam contendas, não por ações boas, mas pela insolência de divergir e debater, sendo ganhador aquele que melhor golpeia e que mais lucro obtém”

É isso, querido leitor, a pandemia serviu, entre outras coisas, para desnudar as hipocrisias dos grandes líderes religiosos quem vendem feijões mágicos, águas de rios sagrados e soluções sobrenaturais em troca de favores financeiros, deixando de lado a vida humana, visando, exclusivamente, seu benefício próprio. Pois, enquanto milhares morrem, diariamente, de COVID-19, tais líderes celebram cultos e eventos com centenas e, até mesmo, milhares de pessoas, marchas para Jesus e festas, com o único fim de proclamar um “evangelho” egocêntrico e lucrativo.

Sinceramente, fico imaginando a cara de Jesus observando tudo isso. Serão mesmo, tais lideranças, instituídas por Deus ou serão eles meros mercadores da fé? Oremos.

Professor de Humanidades da rede pública, graduado em História, Geografia e Sociologia, especialista em Ciência Política e Antropologia, coordenador acadêmico e, agora, colunista DiBahia. Missões: Explicar o Brasil para os brasileiros e expor a hipocrisia das ELITES RELIGIOSAS de nossa região.

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