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Nada novo, de novo: a obsessão pelo “Descobrimento” em Porto Seguro

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a obsessão pelo descobrimento dominou a história local

A história também tem suas obsessões. Não a história experiência, mas a escrita da história. Mais precisamente, os agentes que escrevem e que arquitetam a memória histórica. E eles são muitos: historiadores, jornalistas, políticos, memorialistas, museólogos, escritores e tantos outros. Cada um à sua maneira, manifestam sua obsessão em vários suportes, com diferentes linguagens e sempre a busca da construção de um consenso na arena da história pública. Como uma explosão compulsiva, repetitiva e insana, descarregam sua fixação em livros, artigos, monumentos, exposições e comemorações cívicas.

Em Porto Seguro, a obsessão pelo “Descobrimento” marca a narrativa histórica sobre a cidade e monopoliza as políticas e as práticas de memória. É uma preocupação exagerada, um apego excessivo, uma verdadeira compulsão. O “Descobrimento” está em todos os cantos: nos nomes das ruas, nas praças, nos museus, nas propagandas, no calendário oficial e nas ações governamentais. Mais recentemente, a irracional tentação chegou à comemoração do “aniversário do Brasil” no dia 22 de abril. Entre equívocos e romantizações, nada de novo a se observar, pois há tempos a história parece se repetir com sua dupla face: tragédia e farsa.

A ideia do “Descobrimento” como origem da nação brasileira foi uma construção do século XIX. Não poderia deixar de ser diferente, obviamente. Afinal, o Brasil enquanto nação independente é obra do século XIX, iniciado com o grito do Ipiranga em 1822, mas continuamente ameaçado pela presença portuguesa na Bahia até 1823, pelas disputas políticas durante a primeira legislatura de 1826, pela tensão interna que fez d. Pedro I abdicar do trono em 1831 e pelas conhecidas revoltas e revoluções (muitas delas separatistas) que eclodiram no período regencial. Com o golpe da Maioridade de d. Pedro II, em 1840, o desafio de unificar o país em torno de um projeto nacional exigiu não só um pacto entre as elites, mas também um esforço de construção de uma narrativa que explicasse a origem, a identidade, a história oficial da nação. E é aí que a ideia do “Descobrimento” ganha força política e interpretativa na história nacional.

Os membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) participaram ativamente dessa discussão. Promoveram debates, realizaram estudos, planejaram viagens e publicaram trabalhos que fundamentaram a interpretação da história da nova nação. Francisco Adolfo de Varnhagen foi um dos mais exaltados nessa discussão, conseguindo reatualizar a antiga memória colonial do “descobrimento” de Pedro Álvares Cabral. Em um de seus escritos, de 1874, defendeu a tese da origem do Brasil: “Todo mundo sabe que Porto Seguro, no sul da Bahia, indica o local, para sempre memorável, onde o Brasil foi descoberto por Cabral, e que esta descoberta marca o ponto de partida da civilização do vasto império brasileiro”. Oficializada a ideia de “terra mãe do Brasil”, Varnhagen (que acabou por receber do imperador o título nobiliárquico de Visconde de Porto Seguro) não só resolveu o problema da origem da história nacional, como também imortalizou a participação da cidade Porto Seguro nessa história patriótica. Não à toa, como forma de retribuição, a cidade rendeu homenagens ao historiador ao nomear a praça que fica em frente da Casa da Lenha como Visconde de Porto Seguro.

A cidade se transformou em cidade-documento. Uma espécie testemunha viva da expedição cabralina. E a obsessão por rastrear as rotas de navegação e as pegadas dos primeiros portugueses que chegaram ao Novo Mundo alimentou uma série de estudos. Em 1899, por exemplo, a Comissão para Comemoração do IV Centenário do Descobrimento do Brasil do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, presidida pelo historiador Braz do Amaral, encomendou uma investigação de campo que foi realizada pelo major Salvador Pires de Carvalho e Aragão, cujo produto foi publicado no livro Bahia Cabrália, que traz hipóteses sobre a “verdadeira” rota de Cabral.

Ainda que esses estudos tenham apresentado posições divergentes, todos foram unânimes em reproduzir a obsessão pelo “Descobrimento”. Como resultado imediato, um grande clamor começou a pressionar a transformação da cidade-documento em cidade-monumento. Ainda na expedição marítima de 1899, o major Aragão defendeu a criação de um monumento em homenagem ao “Descobrimento”, propondo a construção de uma majestosa cruz de vinte metros de altura, que deveria ser assentada em um trono de cinco degraus de um metro cada e a face da cruz de um metro de largura. Em 1930, a sina obsessiva motivou o editor da revista Nação Brasileira, o porto-segurense Alfredo Martins Horcades, a iniciar um amplo movimento que envolveu políticos, intelectuais e a imprensa na proposta de construção de um monumento para “a perpetuação, em bronze, do feito histórico do Descobrimento do Brasil, em Porto Seguro, onde foi erguida a primeira cruz”. Mesmo que arquitetados em memórias oficiais, projetados em elegantes desenhos e engajados na mesma obsessão, as propostas de Aragão e de Horcades não saíram do papel. Em 1939, foi a vez de Assis Chateaubriand, diretor dos Diários Associados, promover o maior evento público que se teve notícia na cidade: uma grande revoada de aviões sob os céus de Porto Seguro para comemorar o que considerava ser o grande feito civilizacional dos “possantes braços lusitanos” quando plantaram nas terras porto-segurenses a “árvore da civilização branca no Brasil”. Embora tenha ganhado as páginas dos principais jornais e revistas do país, o raid do empresário e jornalista logo se reverteu em movimento fugaz, eternizado apenas nos arquivos, na placa comemorativa fixada na Casa de Câmara e Cadeia de Porto Seguro e na nomeação de uma das principais ruas da cidade de Assis Chateaubriand. Somente no fim da década de 1990 é que a proposta de um elogio monumental ao “Descobrimento” ganha materialidade, no contexto das famigeradas comemorações oficiais dos “500 anos do Brasil”. Na entrada da cidade, a ocupar lugar central na geografia da memória urbana, uma estátua de bronze de Pedro Álvares Cabral com a carta de Pero Vaz de Caminha em uma das mãos foi erguida e o prefeito João Carlos Matos de Paula rendeu homenagem ao “patrono do Brasil” numa placa fixada na base da estátua.

Outra materialização da obsessão pelo “Descobrimento” se manifestou na cidade no processo de patrimonialização, em 1968 e 1973. O tombamento de Porto Seguro foi justificado não por possuir uma rica paisagem natural, ou um conjunto arquitetônico singular, ou diversificadas manifestações culturais; mas, isto sim, por possuir os “mais caros remanescentes do início da história pátria, ali iniciada pelos integrantes da frota cabralina, desde a visão do Monte Pascoal aos primeiros contatos com a nova terra”. Essa obsessiva visão, que só enxerga como cultura aquilo que expressa uma suposta memória nacional e de filiação europeia, foi reforçada a partir desse período para a turistificação de Porto Seguro, que acabou por transformar a cidade em um produto, um atrativo, um lugar-objeto.

A ideia de “Descobrimento” somente faz sentido para quem olha a história a partir da perspectiva exclusivamente portuguesa. Classificar o dia 22 de abril como nascimento do Brasil é um anacronismo absurdo, pois Cabral não estava a serviço de um (impossível) projeto brasileiro, mas, ao contrário, português. De tudo, fica a certeza da necessidade urgente de vencer essa obsessão, assumindo um compromisso com a (re)visão crítica do passado local. Nesse esforço, a cidade precisa expressar as lembranças que, ao longo de anos, foram forçosamente silenciadas, como a revolta dos Abatirá no início da colonização, as reformas urbanistas setecentistas, as lutas antilusitanas da época da independência, o Fogo de 1951 em Barra Velha, além das inúmeras manifestações do nosso rico e diversificado patrimônio que, sem sombra de dúvida, vai além do Descobrimento.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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1 Comentário

1 Comentário

  1. José Arlindo

    26 de Abril, 2021 at 21:10

    O professor Chico Cancela mais uma vez nos brinda com um texto primoroso. Elucida com clareza e precisão, uma das mais obscuras narrativas sobre a nossa origem. Com Chico, a história de Porto Seguro e do Brasil está sendo passada à limpo.

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Porto Seguro

Abrasel cria regional Costa do Descobrimento

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Proprietários de bares e restaurantes da Costa do Descobrimento ganharão um importante instrumento de fortalecimento do setor, com a criação do conselho da Abrasel – Costa do Descobrimento. A eleição e constituição da entidade serão realizadas dia 28 de junho, às 16h30, no Sebrae, com apresentação e aclamação de chapa única, escolhida em consenso com lideranças do setor. A participação presencia é exclusiva para os candidatos aos Conselhos. Demais interessados podem participar virtualmente pelo Zoom.

“Com muito trabalho, estamos alcançando essa conquista para o nosso setor, que é um dos mais representativos do Brasil em número de estabelecimentos”, afirma Alex Di Pasquale, conselheiro presidente da entidade. Segundo ele um dos objetivos da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) na região, é desenvolver a cultura do associativismo, fortalecendo a entidade e consequentemente, os empreendimentos do setor.

“Este período que estamos atravessando é um dos piores da história do setor de A&B, um dos mais prejudicados e que mais estão sofrendo. Com esse trabalho estamos trazendo um sinal forte e positivo de esperança para o setor. Queremos ser um canal direto com as instituições e outras entidades”, salienta Alex.

Morocha Club conhecido em Porto Seguro e no mundo; tendência é crescer, conforme as coisas forem melhorando – Com muito trabalho, estamos alcançando essa conquista para o nosso setor, que é um dos mais representativos do Brasil em número de estabelecimentos”, afirma Alex Di Pasquale

Entre as metas, ele enumera ainda o aumento do número de associados e o acesso a linhas de créditos. “Neste momento, precisamos nos recompor, nos reerguer, não é para desistir”, enfatiza Alex, ressaltando que a Abrasel está organizando, em parceria com a Secretaria Municipal de Turismo, dois Festivais de Gastronomia: Raízes, em Porto Seguro, de 30 junho a 17 julho, e a terceira edição do Esquina do Mundo, em Arraial d’Ajuda, no mês de Novembro.

A Abrasel Costa do Descobrimento reunirá empreendimentos de Porto Seguro, Arraial d´Ajuda, Trancoso, Caraíva, Cabrália, Eunápolis e Belmonte. Nos termos do Estatuto Social, a chapa que será eleita por aclamação no dia da assembleia, com a seguinte composição:

– Conselheiro-presidente: Alex Di Pasquale (Portinha)

– Conselheiros: Martin Gimenez (Morocha Club) e Giovanni Fabrizio  Abbate (Don Fabrízio); suplentes: Eduardo Oberlaender (Maré) e Caio Santos (Banzé)

– Conselho Fiscal: conselheira-presidente: Ana Carolina Kratz Costa (Bahia Bonita); conselheiro Eder Longas Garcia (Barraca de Pitinga); suplentes: Mariela Sylvia Estevez e Silvia Carmen (Arapati).

Publicado em Jornal do Sol

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