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Coê, professor, tu manja de hip hop? Eu não, mas tu me ensina?

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Hip Hop se torna patrimônio cultural no município de Porto Seguro e estabelece que as instituições de ensino incentivem rodas, oficinas, fóruns e debates integrados ao tema relativo às relações étnico-raciais. O texto foi apresentado pelo vereador Vinicius Parracho, e traz outras disposições.

Certa vez ouvi de uma griô a seguinte frase: “Quem não senta pra aprender, não levanta pra ensinar”. De autoria da também professora, pesquisadora Marise Santana, a frase tem orientado cada vez mais a minha atuação como professor na relação com meus alunos. Foi, sentando pra aprender, que certa vez meus alunos, na prática, me apresentaram o hip hop. Sempre entendi que professor nunca sabe de tudo.

A seguir, caros leitores, apresento a vocês um pouquinho da minha experiência, especialmente com a batalha de rimas, que coordenei na escola em que atuo, em 2019, e também uma pequena entrevista com o Mc Megamente, representante do Batalha do Complexo.

Foi o Colégio Municipal Álvaro Henrique Santos que serviu de palco-espaço para apresentação de batalhas de rimas protagonizadas pelo grupo Batalha do Complexo. Assim como a escola, o grupo Batalha do Complexo está localizado no bairro Baianão, em Porto Seguro (BA). Para que saibam, nesta escola ministro aula de arte para o Ensino Fundamental 2, nos turnos manhã e tarde. É uma escola de grande porte e no seu entorno há muitas manifestações culturais que contemplam o axé, o zouk, o funk, pagodão baiano e o hip hop. E é nesta última manifestação citada que o Movimento Batalha do Complexo está inserido. Lembro do meu aluno do 8° ano: Professor, bora botar a Batalha do Complexo no intervalo cultural? Eu: Que batalha, menino? Ele: A batalha de rima dos moleques aqui do bairro. Por fim, eu disse: Não conheço muito tanto o movimento quanto os moleques, me ensina? Apresenta, que eu faço o contato.

Contato feito, tratei de organizar a tal batalha no Colégio.

A atividade chamada de Intervalo Cultural é desenvolvida no período de 20 minutos, tempo em que os estudantes saem para lanchar – rotina comum em todas as escolas. É sempre um corre corre, mas grande parte da comunidade escolar apoia, principalmente os estudantes, o que colabora para que no final dê tudo certo.

A participação desse grupo não foi a primeira dentro do Intervalo Cultural, antes realizamos outras atividades como karaokê, balé, capoeira, samba de roda. Posteriormente chegaria a vez da batalha de rimas, com a presença de vários Mcs que compõem a cena cultural de Porto Seguro e que são membros do Batalha do Complexo, sendo alguns veteranos e outros novatos.

 Organizado o espaço para a apresentação, vi a primeira vez uma cena nunca antes vista: um pátio com vários Mcs, a gurizada toda eufórica e vibrante ao redor, respondendo aos comandos desses artistas. Era assim: “Se tu ama essa cultura, como eu amo essa cultura, grita: hip hop! hip hop! Foi nesse momento que pensei: “Eita, o negócio é forte mesmo, vou correr atrás de estudar e conhecer mais”. Segui o pensamento da professora bell hooks, quando reflete sobre a necessidade de os professores se autoatualizarem. A reflexão me impulsionou a desbravar esse movimento global que é o hip hop e suas nuances. Então, consultei professores pesquisadores, li livros, entrei em páginas da internet, segui rapper no instagram e, principalmente procurei manter os laços com o grupo para apresentações futuras e ouvi-los sobre o assunto.

Batalha do Complexo em apresentação no Colégio Álvaro Henrique Santos

Como muitos sabem, o hip hop é um movimento cultural global, com origem nos Estados Unidos, e é representado por 5 elementos que compõem sua massa cênica: o breakdance, o Dj (disc jockey), Mc (Masters of Cerimony), grafite e conhecimento. Sendo uma expressão cultural de um grupo marginalizado, para o rapper e professor Richard Santos, autor do livro Maioria Minorizada (Telha-2020), o hip hop é uma das vozes das periferias globais. Para o professor, “Nascido como força bélica, artisticamente concebida por jovens atingidos por uma anomia social relacionado à sua origem identitária, de classe, o movimento hip hop segue resistindo, a partir do seu caráter militante, das atrativas soluções da industrial cultural, se mantendo vivo, ativo, forte, influenciando várias jovens no mundo”. Essa influência impactou na organização do grupo Batalha do Complexo e, em função disso, apresento a conversa que tive com o Mc Megamente que me contou um pouco sobre a principal função do grupo Batalha do Complexo; o que achou da Lei que torna o hip hop patrimônio imaterial da cidade; hip hop e escola e a importância de valorizarmos os Mcs e artistas locais.   

A seguir a transcrição do áudio enviado pelo Mc Megamente pelo whatsApp.

Mc Megamente em apresentação no Swag Gringows, Eunápolis.

Desde quando existe a Batalha do Complexo e quem são os fundadores?

Existe desde o dia 15 de abril de 2017. Essa é a data oficial. A gente se organiza na Praça do Trabalhador, no Baianão. Um dos fundadores foi o Tobby Aburame, que hoje só é admirador e apoiador do movimento.

Qual a principal função do grupo Batalha do Complexo?

Como tudo na vida, começou com brincadeiras entre amigos mesmo…rimando ali um com outro, acabou aumentando o movimento, entrando novos Mcs e mais pessoas querendo entender essa cultura. Antes era só pra se divertir, acabou formando o movimento Batalha do Complexo.

O que você achou da Lei sanciona pela Câmara de Vereadores que declara o hip hop como patrimônio cultural do município? No que ajuda o movimento?

Achei uma lei de extrema importância, pois ela coloca em pauta uma cultura de rua que vêm movendo muitos jovens, incentivando o acesso ao conhecimento, ajudando na não marginalização da cultura. Também ajuda na organização do movimento, na ocupação de espaço, principalmente por meio de editais que serão divulgados, como está no documento que li hoje.

Qual a importância do Hip Hop dentro da escola?

A importância do hip hop na escola é exatamente o incentivo à cultura, à educação, que dá uma nova visão aos jovens da periferia, inclusive esses que são o grupo mais fraco da sociedade, em questão de estrutura. Com o apoio do professor Thawan Dias, do Colégio Álvaro Henrique, e do professor Rafael Venâncio, do Colégio Paulo Souto, a gente tem estado motivado em seguir com o trabalho. Os dois, cada um nas suas escolas, fizeram um trabalho que tratava sobre explicar o que era um Mc, o hip hop, a dança, o grafite, e isso colabora muito para ampliar o repertório cultural dos estudantes.

Qual foi a sua sensação de poder se apresentar no Colégio Álvaro Henrique Santos junto com seus amigos, também Mcs?

Foi algo novo e estranho. Não sei muito bem o que falar. Foi um estranho que me deixou feliz e nervoso ao mesmo tempo. Era um outro público, no entanto, foi inspirador também, por questão do reconhecimento. O Fundamental recebeu a gente de braços abertos, diferente de como recebem os estudantes do Ensino Médio e Superior, na minha opinião. O fundamental tem um carinho por nós, tanto que na rua quando eu passo eles gritam “Oh, Megamente! Oh, Megamente!”. Foi algo especial 

Pra finalizar, você acha que apoiar e valorizar os artistas locais, principalmente os Mcs de rap, motiva-os? Como podemos colaborar?

Ajuda muito. Devemos sempre valorizar os da casa. Os pequenos artistas. Ao invés de contratar grandes cantores de fora, dando lucro pra gente de fora, é bom incentivar aqueles que buscam seu sucesso e são da cidade. E mais, é importante sempre a gente compartilhar as músicas deles, se inscrever no canal do youtube, comentar nas publicações…E não tô falando só sobre os Mcs, tô falando dos outros artistas em geral. Temos na cidade grafiteiros, b-boys, Djs, produtores.

Para finalizar, sobre essa ideia de valorizar artistas locais, amanhã será dia de lançamento do clip do artista e poeta, Riaj Oliveira. É a segunda produção audiovisual de sua carreira. Junto com o clipe será lançando oficialmente o movimento Porto na Voz, que se desenha como um “movimento de identificação e valorização do Rap da Cidade de Porto Seguro e Região”, nas palavras de Riaj. Na sua página do Instagram (@akatheriaj) diz que o movimento é sobre uma identidade hip hop portosegurense. Segundo Riaj, o movimento surgiu a partir de algumas inquietações como: “O que é ser portosegurense?”, “Como é ser baiano?”, “O que isso acarreta na minha formação?”, “Você se nega ou se abraça?”.

Mc Riaj Oliveira (short vermelho e camisa preta) e sua tropa – Bastidores do clip Porto na Voz

As perguntas do Riaj são provocativas e tratam de questões importantes sobre identidade, autorreconhecimento, autovalorização, resiliência e, sobretudo, de uma insurgência artística. “Pegando essa visão”, termino com perguntas estimuladoras, principalmente direcionadas para professores e professoras: quais as contribuições do hip hop na minha sala de aula? Como posso contribuir para uma educação plural em termos de manifestações culturais artísticas?  O que nego e abraço na minha sala de aula dialoga com as demandas estudantis? Tenho me autoatualizado?

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2 Comments

2 Comentários

  1. Batalha do complexo

    21 de Abril, 2021 at 21:16

    Muito obrigado por nos dá uma atenção, professor. Isso mais que nunca é inspirador e fica registrado as ações boas que buscamos sempre estar passando!! Agradeço e um abraço da cena Rap de Porto Seguro 🙌🏾

  2. Aka The Riaj

    22 de Abril, 2021 at 09:52

    Incrível!!✊🏿🥇

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Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

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O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

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