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Napinotor Patixi

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Fotomontagem: FUNAI

Em tempos sem Pandemia, o Dia do Índio seria comemorado nas escolas infantis com as crianças pintando os rostos e voltando para casa com um cocar de papel colorido. Essa imagem folclórica e estereotipada seguirá com elas por toda a vida, assim como o estudo da História oficial nas séries seguintes que conta como os portugueses descobriram o Brasil.

Tudo errado!

Os portugueses chegaram a esta terra em 1500 com Pedro Álvares Cabral. Os espanhóis vieram antes com Cristóvão Colombo em 1492 nas Antilhas. Muito antes, lá por 980, os vikings e Leif Eriksson aportaram no Canadá. Os vikings não se estabeleceram, mas espanhóis e portugueses dividiram a América, que depois também recebeu os ingleses e alguns franceses. Mas nenhum deles descobriu o continente. Quando os europeus vieram, já havia uma população ameríndia heterogênea em cultura e línguas.

Os primeiros humanos pré-históricos se espalharam pela América vindos da Ásia e Oceania. Dos astecas e maias da América Central, aos hopi ao norte, ou aos incas ao Sul e a tantas outras nações, todo o novo mundo já era a casa de milhões de pessoas muito antes de qualquer europeu. Os brancos procuravam um novo caminho para as Índias Orientais, encontraram as Ocidentais, nomeadas assim por Colombo e todos que aqui estavam passaram a ser chamados de índios.

O que aconteceu não foi descobrimento, foi invasão. Não foi civilização, foi genocídio. Nos primeiros cem anos, 90% dos indígenas foram exterminados, principalmente por doenças trazidas pelos colonizadores, como a gripe, o sarampo e a varíola. Só no Brasil, estima-se que eram mais de 1.000 povos, somando cerca de 4 milhões de pessoas. Hoje são 305 povos, aproximadamente 900.000 pessoas, ou 0,4% da população do país.

Esses povos tiveram papel fundamental na nossa formação cultural e étnica. Mas em pleno século XXI a grande maioria dos brasileiros ignora a imensa diversidade indígena e suas contribuições.

Primeiro, é preciso saber algumas coisinhas direto da fonte. Eles rejeitam a palavra “índio”, que vem cheia do estereótipo de preguiçosos, atrasados e inúteis, uma figura “selvagem” ou “infantil” que precisava ser “civilizada” e até “tutelada”. Eles preferem indígena, o “originário de determinado país, região ou localidade; nativo”. Outra denominação que com o tempo se mostrou pejorativa é “tribo”, substituída agora por aldeia.

Pensar nos indígenas como aldeados que só caçam, pescam e descansam em redes também é comum. Mas a cultura nativa brasileira inclui uma agricultura especializada. Por exemplo, os Yanomami cultivam 500 plantas que utilizam como alimento, medicamento, na construção de casas e em outras necessidades. Os Tukano conhecem 137 variedades de mandioca. Aliás, a mandioca que produz a farinha nossa de cada dia e centenas de outros produtos industrializados. O guaraná, fruto que virou refrigerante, era conhecido pelos indígenas Sateré Mawe muito antes de ser comercializado.

Indígena hoje vive na cidade, usa roupas como qualquer outra pessoa, estuda, trabalha, tem celular e internet. Nem por isso, abandona sua identidade cultural ou esquece sua História, uma delas que não é muito falada é a Batalha dos Nadadores, que aconteceu na praia do Cururupe, zona sul de Ilhéus-Bahia em 1559 e prova a coragem e habilidade dos guerreiros Tupinambá. O padre Manoel da Nóbrega testemunhou a luta e narrou o episódio em uma carta.

Cada aldeia é uma família e todos se consideram parentes, então, quando um indígena foi morto e o assassino ficou impune, os nativos mataram três brancos e cercaram a Vila de São Jorge, sede da Capitania dos Ilhéus. Os moradores pediram ajuda ao governador-geral do Brasil Mem de Sá em Salvador. Ele veio em pessoa e comandou um massacre que descreveu assim: “…na noite que entrei nos Ilhéus fui a pé dar em uma aldeia que estava a sete léguas da Vila em um alto pequeno… a ante manhã duas horas dei n’aldeia e a destruí e matei todos os que quiseram resistir, e à vinda vim queimando e destruindo todas as aldeias que ficaram atrás…”

Ao saberem do ocorrido, os sitiantes deixaram o cerco para enfrentar o governador, mas foram emboscados por Vasco Rodrigues Caldas, braço direito de Mem de Sá. Os nativos se jogaram ao mar em fuga. Mas os brancos tinham indígenas aliados de outras aldeias que eram exímios nadadores e que também foram a nado no encalço dos inimigos. A luta aconteceu a cerca de 4km da costa. Quase todos os Tupinambás foram mortos. Os que conseguiram se salvar, derrotados, pediram paz e submeteram-se aos portugueses.

Atualmente, os descendentes dos Tupinambá vivem na vila de Olivença, perto do Cururupe e geralmente são chamados de “caboclos”, depreciativamente. Por essas e outras violências sofridas no decorrer dos 5 séculos de colonização, eles não tem o que comemorar hoje, 19 de abril, Dia do Índio. A data foi criada em 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas. Neste dia, em 1940, tinha acontecido o primeiro Congresso Indigenista Interamericano, no México, onde a comunidade indígena conseguiu que os governantes dos países de toda a América se comprometeram em acatar a luta por respeito e igualdade de direitos dos Povos nativos. Além da data comemorativa, o Brasil ainda tem uma lei (nº 11.645, de 10 de março de 2008), que incluiu no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Está sendo cumprida? Não acredito…

Escrevi esse textão em homenagem a uma etnia que me corre nas veias, pois minha avó era filha de uma indígena Tupinambá com um português.

Ah, o título “Napinotor Patixi”? Significa “minha aldeia” no idioma patxohã, resgatado e recriado pelos Pataxó de Porto Seguro.

Os Pataxó e os Tupinambá foram os primeiros povos contactados no Brasil, por isso mesmo os mais espoliados e descaracterizados. A luta deles e de todos os outros originários é diária na defesa dos direitos e do território, na manutenção da cultura e agora até na sobrevivência diante de uma Pandemia que tem matado anciãos, enterrando verdadeiras bibliotecas de sabedoria. O massacre continua…

Jornalista que sempre trabalhou em emissoras de TV, faz reflexões sobre História, Política, Meio Ambiente, Artes em geral. Tudo que der um estalo na mente!

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Abará – Do tabuleiro da Baiana para o mundo

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É um dos pratos da culinária baiana e como o acarajé também faz parte da comida ritual do candomblé.

O abará tem a mesma massa que o acarajé: a única diferença é que o abará é cozido, enquanto o acarajé é frito.

O preparo da massa é feito com feijão fradinho, que deve ser quebrado em um moinho em pedaços grandes e colocado de molho na água para soltar a casca. Após retirada toda a casca, passa-se novamente no moinho, desta vez deverá ficar uma massa bem fina. A essa massa acrescentam-se cebola ralada, um pouco de sal, duas colheres de dendê.

Quando for comida de ritual, coloca-se um pouco de pó de camarão, e, quando fizer parte da culinária baiana, colocam-se camarões secos previamente escaldados para tirar o sal, que podem ser moídos junto com o feijão, além de alguns inteiros.

Essa massa deve ser envolvida em pequenos pedaços de folha de bananeira, semelhante ao processo usado para fazer o acaçá, e deve ser cozido no vapor em banho-maria. É servido na própria folha.

Abalá

Ingredientes

  • 1 kilo de feijão fradinho demolhado por 1 noite
  • 100 gramas de camarão seco moído
  • 100 gramas de cebola ralada
  • 100 gramas de amendoim e castanha de caju torrados e moídos (fundo misto)]
  • 250 mililitros de azeite de dendê
  • ½ colher de chá de gengibre ralado
  • folhas de bananeira
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Modo de preparo

Para fazer esta receita de abará passo a passo comece por lavar bem o feijão: coloque-o em uma vasilha grande com água, remexa e tire com uma peneira as cascas que se soltarem. Escorra o feijão e repita até a água sair limpa.

De seguida bata o feijão no moinho, para transformar em purê, e depois bata com uma colher de pau, para ficar leve e volumosa.

Dica: Também pode bater no liquidificador, adicionando um pouco de água. Acrescente o camarão moído, a cebola, o fundo misto e o gengibre. Misture, adicione azeite de dendê e envolva tudo para obter uma massa homogênea e amarela.

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O passo seguinte do abará é passar as folhas de banana no fogo, para que fiquem mais flexíveis. Depois enrole porções da massa anterior nas folhas, como se fosse uma pamonha, e
coloque a cozinhe no vapor ou em banho-maria, por 40 minutos.

Dica: Se cozinhar o abará no vapor, cubra com aparas da folha da bananeira, que ajuda a reter o vapor e a deixar o abará mais úmido.

Após o passo anterior, seu abará está pronto! Sirva quente ou frio, puro ou acompanhado de molho de pimenta , camarão seco, caruru, vatapá, caruru e salada de tomate verde simples.

Bom apetite!

Fonte http://m.nossas-raizes.com/a-comida-dos-orixas/

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