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Como moldar um professor para a longa distância

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escrevo esse texto enquanto professor e portanto sonhador. 

Eu tive o privilégio de voltar a escola pública depois de 12 meses distante daqueles corredores, das carteiras, dos quadros brancos, da sala dos professores, e principalmente longe dos estudantes. Algumas distâncias doem mais que outras, e dói estar na escola enquanto ela permanece vazia, não ocupada, solitária, solitária da presença daqueles que tornam a escola real e possível, solitária da presença dos alunos.

Para que servem aquelas paredes, aqueles livros, aquelas carteiras, sem a presença daqueles corpos pulsantes, críticos e cheios de devir? Por mais doloroso que seja confrontar o vazio das salas de aula, talvez essa possa ser uma chance, uma chance torta, mas uma chance de reavaliar não só a prática docente, mas o processo educacional como um todo.  

  No entanto mesmo parados, é muito difícil realmente P-A-R-A-R, estamos constantemente atrasados, correndo contra o tempo, tentando recuperar alguma coisa que ou perdemos ao longo do caminho ou que talvez nunca tenhamos realmente encontrado. E nesse movimento constante que nos acontece, mesmo quando somos obrigados a parar, que surgem os dolorosos acordos e comprometimentos que fazemos com nós mesmos, com a nossa consciência, com a nossa coletividade, com a nossa classe e principalmente com a nossa prática docente.

Construir a educação pública definitivamente é um dos desafios mais complexos e enriquecedores que um professor pode abraçar. A educação pública talvez deveria estar andando numa via oposta à educação privada, precisando estabelecer um ideal de qualidade que contraponha a lógica de mercado. Por isso me pergunto, ainda temos o objetivo de formar pensadores? Ainda temos o objetivo de formar sujeitos com ferramentas para atuar criticamente junto a sociedade? 

Como estabelecer métodos realmente eficazes enquanto corremos, o tempo todo, contra os prazos, contra o covid, contra  o congelamento de verbas, contra o desmonte da educação pública, contra as noções deturpadas do que realmente deve ser a experiência de uma prática educativa transformadora?

Ser professor, estar a frente de uma sala física ou virtual, é e sempre será uma grande responsabilidade, que respondemos não ao mercado e sim a nossa coletividade. Às pessoinhas que estão se tornando pessoas cada vez maiores, mais donas de si, mais empoderadas, ou não, porque a educação também pode falhar, pode desacreditar, cercear , por exemplo quando os estudantes deixam as escolas sem qualquer pretensão de sonho, de desejo de transformação de vida.

“Como ajudar estudantes a sonhar em tempos de pandemia?” taí um seminário pedagógico que eu definitivamente gostaria de participar, “Ferramentas pedagógicas para fabricar desejo a base de xerox e 3G”, outra excelente formação para o novo normal, mas que infelizmente ainda não está no mercado, sim eu disse mercado. Nós professores, podemos nos preparar com formações sobre tecnologia básica, acesso a plataformas de transmissão de aulas, de conteúdos didáticos, de bancos de questões digitais, mas como recuperar aquele poderoso acontecimento que só se fazia possível no encontro?

Um capítulo de livro poderia ser escrito sobre as barreiras das aulas online e também sobre as suas riquezas, mas primeiro é preciso chegar lá, primeiro é preciso estabelecer os recursos básicos e mínimos para que os estudantes possam finalmente chegar na era digital das Aulas Lives. Com os estudantes sem acesso a celular, notebook, wifi, professores recorrem a atividades impressas, e ao livro didático quando este é encontrado em quantidade possível de ser distribuída.

Como gerar as trocas? Como se embrenhar nas entrelinhas dos comentários que surgiam na sala de aula e que faziam ser possível o processo de aprendizagem, sem que eles existam pois agora residem no isolamento e no distanciamento? Como estabelecer uma comunicação que atravesse a dúvida e que a torne construtora de conhecimento? “Como fazer do seu Whatsapp a sua maior ferramenta pedagógica?” outro curso que seria muito útil, “Organizando os grupos de Whatsapp – para professores ansiosos” para este com certeza faltariam vagas. 

Ser professor para a longa distância, é primeiro entender que agora a casa é a sala de aula, e a família ora é co-professora ora também é estudante. A família que passou tanto tempo longe da escola, hoje precisa estreitar as relações, entendendo com mais profundidade como é complexo ensinar no nosso Brasil. Nesse processo esse novo professor para a estar mais próximo também dos contextos familiares em que cada estudante está inserido e que diretamente moldam a relação que cada criança consegue estabelecer com a escola. 

Ser professor para a longa distância é entender também que você se torna uma figura onipresente nas redes, e ou você desliga a internet do seu celular, ou às 3 da manhã você vai receber uma mensagem pedindo para tirar uma dúvida, ou perguntando a página do livro, nada mais revigorante do que acordar com um “Professor?”. 

As adversidades se triplicam quando se é uma professora, mulher e mãe, precisando equilibrar as tarefas de casa, o cuidado familiar, a atenção e educação dos próprios filhos com uma prática pedagógica que agora se estende por tempo indeterminado, sem intervalos e sem dias livres. Ser uma mãe em nossa sociedade sempre foi sinônimo de acúmulo de atribuições, numa lógica patriarcal em que os homens quando fazem alguma coisa para colaborar ainda acham que estão “ajudando” ou seja, não assumem que parte de todo o trabalho doméstico é sim sua responsabilidade, não há ajuda quando é sua obrigação. 

Mesmo correndo para se adaptar a essa nova norma, a essas novas ferramentas pedagógicas, ainda nos falta o tempo para entender de verdade que nova escola é essa que estamos vivenciando, e o que de novo nos é pedido enquanto professores. Vivemos um desmonte da educação pública desde a era Temer com o congelamento de gastos para a educação, agora com a contínua falta de investimentos se torna ainda mais urgente as estratégias de inovação e resistência por parte dos defensores da educação pública por todo o país.

A reforma da previdência defendida e aprovada com toda insistência do governo Bolsonaro é mais um exemplo dos desafios e desmontes que a educação e a segurança do servidor público vem sofrendo. É preciso insistir que um retorno apressado a as escolas, as salas de aula acarretará em mais mortes, colocando em perigo não só a classe docente, quanto também as famílias dos estudantes. Precisamos pensar novas estratégias para amparar a juventude que sofre com a ausência de um sistema educacional que ampare as suas demandas, e que potencialize uma prática docente inovadora, tecnológica e transformadora.

Professor, Artista e Bixa, nascido com o sol em Capricórnio. Pesquisador da cena, da dramaturgia, da performance. Licenciado Interdisciplinar em Artes pela UFSB e estudante de Artes do Corpo em Cena também na UFSB. Militante LGBTQIA+

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Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

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O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

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