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Porto Seguro

Pinga doce e amarga: as bebidas alcoólicas em Porto Seguro

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Imagem: Cauinagem dos índios Kamakã, região do Jequitinhonha (Maximiliano de Wied, 1817)

O álcool, sem sombra de dúvidas, tem um lugar cativo na história de Porto Seguro. Produzido pela fermentação ou pela destilação, foi base para diferentes bebidas alcoólicas que ocuparam o cotidiano, a geografia e as práticas religiosas da cidade. Ainda que tenham sofrido forte campanha negativa que buscava desprezar e silenciar seus usos e sentidos vinculados aos setores populares, especialmente dos indígenas e dos negros, as bebidas alcoólicas resistiram e sua presença na história de Porto Seguro continua bastante atual.

Na história mais recente da cidade, o álcool moldou imagens e representações sobre diferentes lugares do município. No início da década de 1970, jovens que se concentravam para beber nos primeiros bares que brotavam na velha Avenida Portugal decidiram batizar o lugar de Passarela do Álcool – alcunha que, com o passar do tempo, se consagrou à medida que inúmeros bares e restaurantes se instalavam na principal rua da cidade, aproveitando as belezas dos casarios históricos e o quadro pitoresco da paisagem natural. Transformado em atrativo turístico, o lugar foi durante anos o território da vida boêmia, tendo sofrido recentemente um desvairado e inexplicado ato de renomeação, que mais uma vez faz da cidade uma vítima de memoricídio. Na década de 1990, outro lugar ganhou destaque por causa de uma bebida alcoólica. O país inteiro conheceu a vila d´Ajuda através de uma música do Asa de Águias que disseminou a magia paradisíaca arraiana, cantando lugares coloridos e divertidos como Mucugê e Pitinga, e convidando a todos a conhecerem o “sabor legal” da “capetinha do Arraial”. Assim, a cidade foi reafirmando e reatualizando uma memória etílica que, em verdade, tem raízes seculares.

Nos tempos mais remotos, a aguardente foi a principal bebida alcoólica a circular pelas terras porto-segurenses. Produzida nos engenhos de açúcar que se instalaram ainda no século XVI, a bebida era destilada da cana em alambiques de metal e considerada um subproduto do açúcar. Com o desbaratamento da atividade açucareira, pequenos trapiches continuaram a fabricação da bebida, de modo que, em 1803, o inglês Thomas Lindley descreveu um engenho em Vale Verde, que possuía aguçada técnica e simplificada tecnologia, ainda que produzisse “forte aguardente”. Ao longo de todo período colonial, os rendimentos municipais foram encorpados com os subsídios cobrados sobre a comercialização da aguardente dada a importância do produto no mercado local.

A aguardente era (e ainda é) uma bebida com múltiplos usos e diversos significados. O mais comum, obviamente, está relacionado ao divertimento: a bebida consumida pura tem força de animar, aproximar e libertar as pessoas. Em outras ocasiões, a aguardente também tinha propriedade culinária, compondo bebidas e comidas adaptáveis à realidade da região. Em 1817, o viajante alemão Maximiliano de Wied, ao enfrentar o sol escaldante das terras porto-segurenses, buscou alívio num “esplêndido refresco” comum entre os moradores, que era feito com água, suco de limão, açúcar e aguardente. Mais curioso foi a exploração de suas (supostas) propriedades medicinais. Segundo os usos e costumes da terra, a aguardente servia para combater febrões, inflamações diversas, feridas, picadas de cobras e até doenças contagiosas. O mesmo viajante naturalista contou como os índios escravizados do ouvidor de Porto Seguro José Marcelino da Cunha haviam se curado de varíola pelo “poder da aguardente, que lhes foi administrada em grandes doses”.

As bebidas alcoólicas sempre tiveram também usos místicos e misteriosos. Algumas delas ganharam dimensões centrais nas celebrações religiosas. Tornaram-se bebidas mágicas que conectavam o mundo natural com o mundo sobrenatural. O cauim era uma delas. Produzido pela fermentação da mandioca, esta bebida esteve presente em quase todas as comunidades indígenas da região. Em 1803, o alferes Vanceslau da Trindade denunciou os moradores indígenas de Trancoso e Vale Verde por usarem as “bárbaras bebidas do cauim” quando iam celebrar suas “superstições antigas”, todos “pintados de jenipapo e tintas roxas”, fazendo suas bebedeiras para curar “os doentes das enfermidades a que chamam de mal de caipora e mal da lua”. Ainda hoje, como forma de (re)existência, os Pataxó continuam celebrando a vida com cauinagens em seus rituais mais importantes, como no Aragwaksã na Reserva da Jaqueira.

A história das bebidas alcoólicas em Porto Seguro, no entanto, não se restringiu ao divertimento, à economia e às práticas curativas. Assim como em todo resto do Brasil, a produção, o consumo e a comercialização destas bebidas estavam profundamente marcados pelos grilhões da escravidão, da opressão religiosa e do controle dos corpos. Aguardente, suor e sangue formaram a tríplice unidade da dominação colonial. Da perseguição às bebedeiras indígenas ao pagamento do trabalho dos índios com pipas de aguardente, a bebida foi se metamorfoseando em múltiplos símbolos: de fuga, de enganação, de exploração e de resistência. Invenção humana para adoçar a vida, as bebidas alcoólicas também embebedaram amargamente os viventes, geralmente movidos pela ganância ou pela desesperança.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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Porto Seguro

Fazenda é invadida em Arraial D`Ajuda

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A fazenda Tropa Costeira foi invadida neste derradeiro domingo (20) por volta das 7h da manhã, localizada na BA-986 em Arraial D’Ajuda, a propriedade já foi invadida e desocupada duas vezes. Lideranças do distrito denunciam que há prejuízos causados por queimados e desmate de árvores para construção de barracos improvisados.

No mesmo dia do ocorrido, um vídeo de uma liderança da invasão foi disparado no aplicativo Whatsapp. “Estamos aqui, na Fazenda Tropa Costeira, estão aqui os companheiros fazendo os acampamentos. Essa terra é uma terra totalmente devoluta, não tem produção nenhuma e o povo na rua, passando fome, necessidade, precisando trabalhar. Toda hora chega gente aqui e se você quiser vir pra cá se abrigar aqui no Arraial d´Ajuda, venha hoje, venha pra ficar. Nós vamos tirar 5 mil m² para cada um fazer o seu quintal produtivo”, promete.

A propriedade é avaliada em cerca de R$ 40 milhões e no local teria sido construído um hotel fazenda com recursos do Banco do Brasil, no entanto, sem quitação por parte do proprietário. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente já foi acionada e compareceu no local com a equipe de fiscalização, de acordo com moradores, para uma ação mais efetiva, os proprietários deveriam tomar providências. Os atuais donos já teriam sim enviado advogados para resolver a questão.

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