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18 de abril, dia nacional do livro infantil, e a leitura de nossas crianças

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Amanhã, 18 de abril, é a data escolhida para a celebração da literatura infantil nacional. Isso porque, nesse dia, em 1882, nascia o escritor Monteiro Lobato, considerado, para alguns, o pai da literatura infantil brasileira. Por este motivo, além da celebração desse tipo de literatura, ocorre também a homenagem ao escritor, conhecido pela criação de textos para crianças, mas autor também de produções de outros segmentos.  

Sou mãe, como já mencionei em outros textos aqui desta coluna, de duas crianças, de 6 e 5 anos, respectivamente. E, neste contexto de pandemia, em que estou acompanhando ainda mais de perto o processo de alfabetização de ambos, estou muito envolvida com a literatura infantil. Diante disso, criei oportunidades para que meus filhos acessassem um leque maior de livros infantis sob uma perspectiva afrorreferenciada. Como uma mulher negra e mãe de crianças negras, penso a importância de reafirmar a autoestima deles desde muito cedo.

Trago aqui a lembrança de o autor supracitado tendo sido por muito tempo a referência de literatura para crianças. No entanto, optei por afastá-lo do processo educacional dos meus filhos, observando características que vão de encontro a um processo pedagógico no qual acredito e que atua na diminuição dos estereótipos e das marcas identitárias que o autor atribui a alguns de seus personagens.

Não é novidade que o criador do Sítio do Pica Pau Amarelo está submetido a polêmicas muitas, mediante a carga adjetival preconceituosa de muitos de seus personagens nessa e noutras obras. Como todos sabem, para além da escrita ficcional, Monteiro Lobato era um grande entusiasta da eugenia e tinha relações muito estreitas com Renato Kehl, considerado o pai da eugenia no Brasil.

Tudo isso já foi muito discutido por aí afora, e em 2011, torna-se então pública uma carta do escritor enviada a Arthur Neiva, data de 10 de abril de 1928, publicada na revista Bravo, em maio de 2011 e reproduzida por outros canais de comunicação. Ali vemos que o autor, aniversariante amanhã, defendia a Ku Klux Klan e os seus ideais, que envolviam a morte de outros indivíduos. Nessa carta que desmancha as dúvidas de seus mais resistentes defensores, o autor repugna a formação do povo de seu país. Eis um trecho:

“Paiz de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é paiz perdido para altos destinos. André Siegfried resume numa phrase as duas attitudes. ‘Nós defendemos o front da raça branca – diz o Sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brazil’. Um dia se fará justiça ao Klux Klan (…) que mantem o negro no seu lugar”. (Fonte: Geledés)

E o autor continua:

“estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca — mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”. (Fonte: Ge

Há quem diga que o contexto histórico dava licença a autor para determinados usos, mas isso não o imuniza do ato definidamente inaceitável. E nada, absolutamente, justifica. Lobato não produzia seus textos se não fosse imbuído da crença defendida. E isso torna motivo para vetar a publicação? De maneira alguma. Os pais têm o direito de comprar as obras do autor e apresentá-las a seus filhos. Seja por qual razão for. O que é questionável é o poder público propagar a visão racista de Monteiro Lobato. Daí retornar à ideia de repensar a obra entre a seleção dos livros didáticos.

“Ah, mas então, retiremos os termos racistas do autor”. Desnecessário. O próprio Monteiro Lobato adaptava suas obras. E, além disso, essas alterações não afetam o sentido da obra original que atinge crianças e adolescentes negras/os. A alteração dos termos em sua obra nada mais é do que a persistência na salvação da obra do autor diante das inúmeras mudanças por que o país está passando. Rejeitá-las é impossível. Mas, para que essa percepção seja sentida, é necessário aquele toque de empatia tão caro e raro em nossos dias…

As leituras muitas que fazemos para os nossos filhos, a partir das ficções cheias de magias, mistérios etc., carregam em seu bojo as nossas marcas culturais, as nossas crenças, as nossas “verdades”. As crianças não nascem racistas. Elas aprendem com os adultos a partir dos seus entendimentos da palavra-mundo…

Novamente, recorro a nossa maioria populacional de pretos e pardos, 56%; e, com isso, uma necessidade de os estabelecimentos de ensino, em todos níveis, da educação infantil à pós-graduação, de investimento em obras literárias produzidas por sujeitos pertencentes a grupos de maiorias minorizadas, dentre eles negros e indígenas.

Quantos desses estabelecimentos levam a sério a implementação das leis 10.639/03 e 11.645/08, que modificaram a Lei de Diretrizes e Bases Nacional de Educação?  Quantos desses locais trazem na descrição de seus documentos oficiais regimentais o acolhimento aos sujeitos historicamente esquecidos pela nossa sociedade de práticas ainda tão coloniais?

O Brasil dispõe hoje de uma vasta produção literária, comprometida com a educação das relações étnico-raciais; uma produção que confronta a “história única” de determinado grupo. E sabemos qual!

Utilizemos esta data de 18 de abril para refletir sobre quais ensinamentos estamos direcionando às/aos nossas/os pequenas/os e como queremos que eles/as encarem o Brasil e o mundo que têm insistido em práticas de retrocesso e conservadorismo, acirrando o abismo das desigualdades.

Permitamo-nos ouvir mais as nossas crianças e com elas perceberemos não apenas a sua expansão imaginativa, mas como elas enxergam com muito mais acolhimento e afeto aqueles/as que o cercam e tratam quaisquer possibilidades de diferença como um elemento de beleza, e não de exclusão.

Boa semana!

REFERÊNCIAS

DIAS, Mauricio. Monteiro Lobato, racista empedernido. Disponível em: https://www.geledes.org.br/monteiro-lobato-racista-empedernido/ Acesso em 14 abr. 2021
REGINALDO, Lucilene. Obra infantil de Monteiro Lobato é tão racista quanto o autor, afirma historiadora. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/02/obra-infantil-de-monteiro-lobato-e-tao-racista-quanto-o-autor-afirma-autora.shtml?origin=folha Acesso em 14 abr. 2021

 

É mãe do João Victor e da Flor de Maria. Mulher negra, filha de pai e mãe negros, mulher de axé, ativista social, professora e doutoranda. Membro da Academia de Letras de Porto Seguro, da Academia de Letras do Brasil e da Organização Universal Zulu Nation.

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Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

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O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

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