Conecte-se conosco

[email protected]

Correspondências em rede – com Kauan Almeida

Publicado

em

Trocas de E-mail entre o colunista Vinicius Santos e o escritor e pesquisador Kauan Almeida.

Primeira Carta – Sobre o futuro e a palavra frente ao precipício

Kauan, 

tento me lembrar da última vez que te vi, em outro tempo, de corpo presente, não lembro! por mais que eu tente, não lembro, mas te imagino, seus cabelos longos e pretos, e me apego ao seu sorriso, sempre sincero, como pode a poesia sair tão fácil de você? não sei se de fato a escrita é algo tão simples assim para você, mas daqui, te admirando de longe, percebo que você faz parecer fácil, não porque nasceu com um dom, mas por ter se doado tanto que virou palavra-poesia, um texto desses que subverte todas as epistemologias. 

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é vini-1-1024x768.jpg

Ainda que eu tente não lembro da ultima vez que te vi, nem da primeira, mas lembro com certeza do sentimento, da sua elegância, essa que é uma dádiva tão sua, tão leonina, me lembro bem do magnetismo e da doçura que carregava e ainda sei que carrega.  

Tenho me perguntado para onde vão as palavras e o que se movimenta depois que elas se manifestam no corpo, no mundo, seja a palavra som ou a palavra imagem, seria toda palavra uma ruptura? Existe uma separação entre elas? Não sei se é isso o que importa. São todas as palavras um acontecimento? Como as palavras te acontecem?

Palavrear – palavra e ar

Durante o ano de 2020 eu sofri muito o futuro, um sofrimento que beirava a mágoa, me perguntava também, como curar uma dor enraizada no futuro?  Hoje percebo que em parte me vi magoado com o futuro, com a sua incerteza, com a sua demora, com o seu abandono, sabia que era no tempo que encontraria algum conforto, mas ele também me parecia vilão, que tempos são esses em que vivemos? O que pode o tempo se não me presentear com a espera? Me pergunto também sobre a ancestralidade, sobre a nossa história, de novo sobre o tempo, que respostas aqueles que nos antecedem apontam sobre o nosso futuro? Como existir no futuro? Como é perceber o tempo daí, desse corpo?

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é image3-768x1024.jpg

Como é se afetar pelo amor? pela sua força e horror? Para Drummond “Amor é o que se aprende no limite” ,  você já se encontrou no limite? Na beira do abismo você pula ou foge? O que você vê quando se encontra nesse precipício que é estar no limite, vivendo isso o que chamamos de amor?

Sobre afetos, homens, bixas, pretos, sobre a nossa linguagem, nosso sexo, sobre o desejo e o devir da liberdade, como é amar daí, desse corpo? Será que um dia o amor deixa de ser revolta?

Kau espero te ler, ver e abraçar ainda num futuro próximo

Ass,

Vinicius Santos  

Segunda carta  – Só escrevo aquilo me foge

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é IMG_20210306_192132_144-1024x1024.jpg

Desde que eu li a carta-pergunta-enigma que me enviou tenho tentado pensar nas dobras do tempo. é uma espécie de labirinto, sabe?! labirinto tal qual aquele outro, o da senhorita Jorge B. Xavier, de Clarice Lispector. é como se ao ler, algo se rompesse, não sei exatamente o quê, mas algo se quebrou e me pôs a pensar no impensável, essa sensação tão bem elaborada em Clarice, a sensação que à procura da dignidade, me vejo de quatro a olhar sob a cama papéis envelhecidos, feito uma cadela.

Isso é algo que não abro mão, certa vulgaridade da escrita: as mesmas mãos que escrevem uma mensagem linda no whatsapp, podem ser as que emitem sentenças. Mas a poesia não habita puramente a escrita, ela é justamente a impureza, a experiência da leitura como exercício espiritual, daí penso que a poesia seja o próprio método de libertação interior, como fala Octavio Paz. Isso é assustador, não acha? É um excedente da própria experiência que nos força a um novo ponto de vista, o que faz com que todo acontecimento — a palavra, por exemplo — seja espiritual. Sabe quando o Mateus Aleluia canta que toda palavra é o início de uma reza? pois é, penso assim.

Muito tempo pensando em tudo, e tudo é tanta coisa que me parece falho escrever. Um abraço às vezes dá conta de tudo que guarda um instante, então, escrevo dentro do instante como um abraço em você. Você me questiona sobre o amor, só posso escrever daquele que considero o único possível, o único que me permite a um só tempo, a fidelidade e a infidelidade como reverência, falo do amor à poesia.\

I – a poesia não tem borda – é como se houvesse qualquer coisa incinerável em mim

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é PicsArt_02-17-01.54.24-768x1024.jpg

O meu contato com a poesia é sempre um quando. Não sei como e não sei onde e muito menos o porquê, talvez, como uma vez escutei da Sandra Corazza, “se eu soubesse já estaria morto”. Eu sempre enxergo os versos como pequenas insurreições na folha, a poesia não tem borda. Quando eu era pequeno lia poemas nos livros didáticos do meu irmão, adorava os livros de língua portuguesa, porque neles havia poemas. O desarranjo dos versos me agrada porque me descentra, me quebro junto às linhas e quando vejo já não sou o mesmo. Não há como saber de qual matéria o pensamento se dá, às vezes, um único verso me dá a pensar o que nenhuma outra coisa poderia me oferecer. Dar a pensar. Tá aí, talvez esse seja o meu ponto de excitação, é como se houvesse qualquer coisa incinerável em mim e algum verso em algum lugar fosse a substância necessária para um incêndio. A poesia me dá linhas de pensamento, pois, ao ler, a escritura já é outra simplesmente porque se encerra na experiência do instante. Nesse sentido, sou escritor antes mesmo de ser alfabetizado. Quando tomo às mãos os versos de Nicanor Parra, já não há Nicanor Parra. É isso, a poesia violenta o testamento, violenta todo o delírio de posse construído pela e através da escrita no ocidente. 

II – a poesia é o ponto falho do discurso – meu projeto de ausência

Escrever que também é ler é a constituição do meu projeto de ausência. Só escrevo aquilo que me foge, aquilo que desejo expurgar de mim pela via da morte. No verso cada palavra se bifurca, é nele onde, por excelência, a palavra se desassocia da coisa e multiplica-se, a poesia é o ponto falho do discurso, o simulacro da palavra. Por isso, sempre achei fraca demais a verborragia discursiva sobre a palavra certa, quando, na verdade, a palavra precisa errar muito pelo mundo para que, assim, suja de mundo, passe a testemunhar somente pelo lampejo de sua presença. Quando digo que a leitura e a escrita são os meus projetos de ausência é, pois, pela possibilidade da fuga, do desaparecimento da minha carne. Se algum dia alguém ler, já não será mais um “Eu” ali —até porque nem eu sei se me sou —, mas uma ficção ou o tecido translúcido, mesmo que tentem atravessá-lo para ver o que há por trás, não haverá nada além do próprio tecido, das linhas que se cruzam, do coser dos fios de palavras. 

III – poesia violenta – poemas são cortes

Toda poesia exerce uma vocação revolucionária no interior do próprio pensamento, ou seja, na criação poética há um domínio do absurdo que só pode ser exercido através da violência. A poesia violenta a linguagem pois desmonta o estatuto da representação, ela é anterior à fala e se nutre da fala para ganhar uma forma, assim que ganha forma no mesmo instante já se transmuta. Octavio Paz escreveu uma sentença linda a esse respeito: “O poema é uma criação original e única, mas também é leitura e recitação – participação. O poeta o cria; o povo, ao recitá-lo, recria-o. Poeta e leitor são dois momentos de uma mesma realidade“. Veja, ele coloca o poema como participação, a palavra participação vem do latim participare e parte cipere, evocando o sentido de receber algo de outrem, mas esse algo recebido nunca o é por totalidade, é sempre parcial. Os escolásticos produziram a máxima de que “o que é recebido o é segundo o modo de ser do recipiente” ou “nada pode receber acima de sua medida”, assim, o poema fala a todos e a cada um em particular e, nesse particular, cada um pega aquilo que pode pegar. O exercício revolucionário da poesia se dá no momento em que se faz constante, um único poema é capaz de distorcer o espaço-tempo da representação e se fazer muitos em um e assim esgotar a interpretação justamente pela sua impossibilidade. Não se interpreta poemas, poemas são cortes.

IV – o fim é uma ilusãoNão há gramática que impeça a palavratodo desejo é abolição

Algumas palavras nos ferem pelo seu justo poder de ferir. A palavra-máscara por cima da máscara-palavra. No poema há uma produção incessante de sentidos, de modo que o próprio sentido seja sempre uma distância a ser percorrida e jamais se pode ter a certeza do encontro. Nenhuma palavra é sentença, ainda que as sentenças sejam formas palavreadas de fim. O poema como um vazio e um adiamento. Oráculo do tempo ancestral. Desde que cheguei a Porto Alegre não faço outra coisa senão ler poemas e escrever com sangue alguns versos ruins. A linguagem tem se tornado o meu mito de Sísifo, rolo a pedra sabendo que o fim é uma ilusão, mas a proposta de esgotamento me parece interessante o suficiente para fazer da maldição o absurdo a que me desdobro. A poesia me faz suportar a vida e viver em tantos suportes quanto me for possível até que os versos rasguem o papel e se inscrevam na carne. Escrever na carne com a carne como só os loucos podem e ser justa a minha loucura, o meu absurdo, a minha tirania dupla contra o mundo e contra mim. A linguagem em sua política é puramente poética e toda política que não se faz poética é por si fascista. Não é a questão para que serve o poeta em tempos de penúria, mas com que poesia a linha revolucionária se faz? Sophie de Mello Breyner Andresen escreveu que “a forma mais eficaz que o poeta tem de ajudar uma revolução é ser fiel à sua poesia. Escrever má poesia dizendo que se está a escrever para o povo, é apenas uma nova forma de explorar o povo”. Quando me duplico não escrevo para o povo, mas para o instante, a minha lealdade à poesia é anterior aos ideais das roupas que nos querem a pele, ainda que pele e poesia sejam forças eminentemente políticas que são domadas pela linguagem e, paradoxalmente, são traiçoeiras às proposições linguísticas. Não há gramática que impeça a palavra.

VArriscar a minha crença no mundo através do meu amor pelo mundo que se apresenta ante a mim. Caminho com os fraturados, os que não sabem sobre a nota atordoada, mas que se correm o imprevisível, que são tomados pelo swing de atenção, os que fragmentam as Leis por ouví-las bêbadas, os de unhas sujas, pervertidos, putos, bêbados, poetas e toda sorte de gente que não vive sob o assombro de Deus, que reinventa a anatomia da delicadeza. Um dia me disseram que eu era negro, n’outro que eu era viado e eu percebi que a minha presença aterrorizava a fantasia de esquecimento erguida sobre cemitérios coloniais. Desde então crio corpos como crio poemas ou crio poemas ao criar corpos, “o corpo é sempre o futuro daquilo que se diz “entre-nós”, como escreveu Barthes. Penso sobre os que buscam as causas e efeitos do mundo, vão ao passado com seus discos rígidos, leem biografias como palavras bíblicas e retornam, pobres senhores do tempo, todos devorados em seus devotos juramentos de efeito, puros corpos soterrados. Escrevo para experimentar uma vulnerabilidade das coisas, escrevo quando me olho demais e vejo que sou uma coisa dentre as coisas. Escrevo como meu projeto de ausência, palavra por vir. Os grandes varões da teleologia, os ministros do futuro, os coreógrafos do tempo, todos exterminados pela escuta dos povos, pelo toque do tambor, pela pele que de tanto ser órgão desorganiza o tempo por ser externa, a escuta através da margem. A poesia como margem, onde toda palavra é fuga e todo desejo é abolição. O tempo geológico dos versos que me faz acreditar que o mundo, tal como o conhecemos, com seus alicerces produzidos dentro de laboratórios ocupados por polvos tentaculares de decência, verdade e brancura, não existe. A minha ficção é a destruição.

Ass,

Kauan Almeida

Professor, Artista e Bixa, nascido com o sol em Capricórnio. Pesquisador da cena, da dramaturgia, da performance. Licenciado Interdisciplinar em Artes pela UFSB e estudante de Artes do Corpo em Cena também na UFSB. Militante LGBTQIA+

Continue lendo
Propaganda
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

[email protected]

Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

Publicado

em

Por

O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

Continue lendo

Copyright © 2021 DiBahia CNPJ: 41.275.067/0001-16