Conecte-se conosco

[email protected]

Por que sofreram tanto os pretos em Amor de Mãe ?

Publicado

em

Amor de Mãe, novela assinada pela escritora e dramaturga baiana Manuela Dias, foi desde o início uma grande surpresa para o público, inovando no modo de contar a história, no jogo de câmeras, no ritmo das cenas e até no próprio enredo. Amor de Mãe se destaca justamente por ter na sua trama principal três mulheres e as suas adversidades enquanto mães nesse nosso Brasil. 

A busca de Lurdes por Domenico, a superproteção de Telma com o seu filho Danilo, e o sonho de Vitória em se tornar mãe depois de perder o bêbê quase no fim da sua gestação. É partindo desses lugares de afeto e desejo que Amor de Mãe entra na casa e no coração de muitas famílias brasileiras. Com Tais Araújo, Jessica Ellen, Erica Januza, Dan Ferreira, Douglas Silva, Nando Brandão, Mariana Nunes  e Raphael Logam, a novela marca a teledramaturgia pela grande quantidade de atores negros, mas ainda longe de ser um número equiparado com os atores brancos. 

Alguns dos atores negros de Amor de Mãe.

No entanto no decorrer da dramaturgia, ativistas e influencers negros passam a questionar a forma como os personagens são representados na telinha, ainda que Amor de Mãe não reproduza muitos esteriotipos racistas em torno dos personagens, Manuela parece seder a um vício cruel de colocar esses personagens em situações constantes de sofrimento.

Somos levados a questionar se é válida essa representatividade carregada de cenas tristes, até que ponto é valida a representação da dor de pessoas negras para segurar audiência ou para compor um enredo emocional? 

É importante mencionar as grandes cenas que trazem o protagonismo dos atores negros e também dos debates raciais. Como no primeiro capítulo com a formatura da Camila e o seu discurso emocionante sobre ser professora e negra, ou a cena no hospital em que a atriz com muito sucesso comove todo o público ao falar sobre o desgaste e a cobrança que impera sobre as mulheres negras e o cansaço de ter que ser constantemente uma mulher forte, o desabafo de Camila ecoou em muitas outras mulheres que sentem a mesma dor. 

Outro momento marcante é quando Vitória defende o seu filho adotivo de um episódio de racismo dentro de um Shopping, ou o próprio fato de Vitória ser uma advogada rica e bem sucedida sem nenhuma justificativa prévia, ela apenas é um sucesso. É importante ressaltar que a Manuela Dias se demonstra realmente engajada em dar visibilidade a esses debates contemporâneos e também o seu desejo de construir cenas fortes para os seus personagens e atores, segundo a escritora, essa é uma forma de mostrar o quanto ela ama esses personagens. 

Nas redes sociais influencers começam a questionar a banalização do sofremento e da morte dos personagens negros dentro trama. Da Morte de Wesley, um policial justo e engajado na profissão, até a morte de Rita, mãe biológica de Camila que é atropelada por Telma, até a morte de Marconi, alvejado por tiros o personagem morre gritando o seu nome numa cena que poderia sim ser muito potente, mas reitera como os personagens negros podem facilmente serem descartados.

O ator Raphael Logam que já recebeu duas indicações ao Emmy Internacional de melhor ator, aparece rapidamente na trama como um professor gay substituto, aparentemente apenas para gerar ciúmes e apanhar do Danilo (Chay Suede). o Advogado Lucas interpretado pelo ator Nando Brandão, que se tornou fiel escudeiro do grande vilão Álvaro, se entrega para morte e é assassinado por Penha como queima de arquivo em plena luz do dia, no mesmo episódio em que o Davi interpretado pelo Vladimir Brichta sobrevive até a um tiro na cabeça. 

A morte de Lucas , Rita e Wesley fez a internet levantar o questionamento, será que para os personagens negros a morte seria o único caminho de absolvição? O sofrimento quase recreativo que atravessa a trajetória de Camila personagem maravilhosamente bem interpretada por Jéssica Ellen, é algo que incomodou bastante o público mais engajado, que para além de uma boa interpretação perceberam o quanto uma personagem forte e complexa foi se transformando quase em um saco de pancadas da vilã protagonista Telma. 

Camila engravidou numa ação forçada pela Telma, perdeu o bebê e útero, levou um tiro na guerra entre polícia e tráfico, apanhou de policial durante a ocupação da escola, sofreu com as interferências de Telma para acabar com o relacionamento amoroso com Danilo, foi atropelada a mando também da Telma, passou um bom período de cadeira de rodas e agora tem o seu filho sequestrado no penúltimo episódio.

Vitória a personagem de Taís Araújo que ao longo da trama passou de uma mulher que lutava pelo sonho de mãe, para uma mulher com dois filhos, um que ela abandonou quando ainda era jovem e outro adotado, o pequeno Tiago. No penúltimo episódio a mãe biológica do Tiago, Zenaide, interpretada pela gigante Olivia Araújo reaparece determinada e recuperar o seu filho.

Esse se torna mais um momento de dor e sofrimento no percurso da personagem Vitória, e com o embate entre as duas mães, a autora perde a oportunidade de criar uma bela narrativa de afeto e maternidade entre duas mulheres pretas que em suas diferentes trajetórias de vida enfrentam desafios para serem mães.

Será que para honrar um personagem e construir grandes cenas emocionais, ele deve constantemente estar em situações de sofrimento? Por que atrelar esses acontecimentos a uma personagem negra é também um gesto de violência? Por que a autora permite que um personagem branco herói viva com uma bala alojada no cérebro, e ao mesmo tempo permite que um personagem negro só seja absolvido de seus erros com a morte? Por que essas escolhas dentro da dramaturgia reiteram o racismo e também evidenciam a falta de dramaturgos negros na televisão? Por que autores brancos ao representar personagens negros encontram no sofrimento todo o conteúdo emocional para a sua dramaturgia? 

É muito importante ressaltar os avanços de Amor de Mãe na representatividade, em pautas sociais e o engajamento com debates atuais. Importante também ressaltar o sucesso de uma autora mulher e baiana, importante também as grandes atuações de Taís Araújo, Jéssica Ellen, Regina Casé, Adriana Esteves e do grande elenco negro da novela.

Identificar essas falhas é um passo fundamental para chegarmos numa representação dramatúrgica que não reitere em nenhum aspecto o racismo da nossa sociedade, construindo uma dramaturgia que celebra a vida, a complexibilidade e o talento de pessoas negras, dentro e fora das telas.

Professor, Artista e Bixa, nascido com o sol em Capricórnio. Pesquisador da cena, da dramaturgia, da performance. Licenciado Interdisciplinar em Artes pela UFSB e estudante de Artes do Corpo em Cena também na UFSB. Militante LGBTQIA+

Continue lendo
Propaganda
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

[email protected]

Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

Publicado

em

Por

O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

Continue lendo

Copyright © 2021 DiBahia CNPJ: 41.275.067/0001-16