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Bichos escrotos, homens-bicho, porcos e coelhinhos peludos…

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Quem tem mais de cinquenta anos deve se lembrar de uma antiga publicação da Editora Abril intitulada “Os Bichos” – Seus fascículos chegavam às bancas de revistas para serem encadernados em forma de enciclopédia, fazendo grande sucesso entre a garotada. A obra trazia uma imensa variedade de bichos, sendo esses vertebrados, invertebrados, carnívoros, herbívoros, pré-históricos… Enfim, uma mostra bem organizada da fauna e que por suas belas pinturas da natureza dialogavam com a arte. Para mim, com os meus oito anos, “ai que saudades que eu tenho”, a obra era encantadora, aguçando a minha curiosidade e me fazendo pensar sobre cada um deles: nas suas relações entre pares e com outros animais ou vegetais que integravam a cadeia alimentar. Por muitos anos devorei aquelas páginas, que gradativamente, em um processo natural de extinção, foram desaparecendo até sumirem da nossa estante, ficando, porém, guardadas na minha memória afetiva. Esta foi, decididamente, a leitura preferida da minha infância! Na adolescência na década de 80, já nos primeiros anos do Ensino Médio, com os meus 14 anos e sem a ingenuidade infantil, deparei-me com o “bicho-homem”, ou por que  não o “homem-bicho”, catando comida no lixo, no belo-feio poema escatológico de Manuel Bandeira, datado de 1947: um período difícil, pós guerra, no qual vivíamos no Brasil um abismo social. Da época de sua publicação para 1981, quando o li, pouco havia mudado e a fome atingia grande parte da imensa massa paupérrima brasileira que nesse período se encontrava faminta  e sufocada por anos de ferocidade da Ditadura Militar. Nas ruas de Salvador, vivendo a minha adolescência aterrorizado pelas feras repressoras da fauna estatal, olhava horrorizado gente remexendo os sacos de lixo à procura de restos de alimento: o retrato perfeito de um poema real. Como esquecer?  Nessa mesma época, ainda terminando o meu Ensino Médio, fui estimulado por um professor de literatura, “maluco beleza”, com ares de “bicho-grilo”, a penetrar fundo entre as Vidas Secas de Graciliano Ramos. Na sua leitura impressionou-me o diálogo de Fabiano consigo. “(…)

– Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimando, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: – Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.” (Fragmento de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos)

E veio à mente a luta das espécies por sobrevivência e a sua condição de força naquele ambiente seco onde o “ser bicho” era extremamente necessário. O romance primoroso publicado em 1938, traz ainda a humanização do bicho, representada na figura da Cadela Baleia e o humano descendo à condição animal, numa simbiose que nos faz pensar na nossa própria condição… E fui amadurecendo entre as leituras e os diversos bichos que surgiam com o passar dos anos.  No entardecer da década de 80, envolvido com a redemocratização da selva, com lutas por eleições diretas e transitando entre a “Geração Coca-Cola”, UNE, DCE e UJS vivia plenamente a minha rebeldia, questionando em coro: “que país é esse?”. Por esses tempos chegam aos meus ouvidos, como um gruído, os “Bichos Escrotos”, do Punk Rock da Banda Titãs, no antológico álbum “Cabeça de Dinossauro”, onde ratos, baratas e pulgas eram conclamados a saírem dos lixos… Se por um lado eu via naquela letra um tapa na cara da sociedade elitista, arrumadinha e preconceituosa representada pela oncinha pintada, a zebrinha listrada e o coelhinho peludo – mandados “se foder” aos berros pela banda – por outro enxergava os bichos escrotos que habitavam os porões da ditadura: generais de 4 estrelas, torturadores, assassinos… A música havia sido parcialmente censurada em 1986 em decorrência do palavrão, como afirmaram em entrevistas os músicos. O LP estourou e fazia parte dos álbuns de rock brasileiro que eu mais escutava enquanto planejava minhas revoluções por minuto… Com o andar do tempo veio, então, a almejada redemocratização. Eu me preparava para entrar para a faculdade e na minha procura por novas leituras deparei-me com a “Revolução dos Bichos”, ou “Animal Farm”, livro escrito pelo inglês George Orwell e publicado em 1945. Uma fábula satírica no qual os porcos, juntamente com outros animais explorados pelo fazendeiro, armam uma revolução para tomar o poder dos homens e instituir tempos melhores para os animais… Os porcos, porém, que se destacaram na liderança do movimento, ao tomarem o poder passam a agir de forma totalitária e autoritária como se fossem humanos, e por fim, ironicamente, caminharam com duas patas junto a eles… A lição do livro, uma crítica, entre outras razões, aos descaminhos do regime socialista implantado na Rússia, ficou em mim como algo inerente à condição humana na qual o “poder” corrompe, independente do sistema. Nas décadas seguintes pude ver porcos capitalistas caminhando pelas esferas políticas do Brasil: um país que se refez após uma Ditadura Militar carnívora e sangrenta, conseguindo com uma nova Constituição e governos civis proporcionar muitos avanços sociais para a população, mas que não foi capaz de se livrar dessa máxima de Orwell a qual – generalizando – nos transforma em porcos corruptos a andar com as duas patas. Hoje, aos   54 anos, tendo passado a vida entre os diversos bichos desse imenso zoológico chamado Brasil e pensando a atual situação do País, volto a refletir sobre os “escrotos” cantados pelos Titãs… Ao que parece o lixo ditatorial de 64 continua espalhado pelo Território Nacional e os animais asquerosos, peçonhentos e violentos que por 21 anos aterrorizaram a floresta, causando tantas mortes, tiveram as suas crias e com elas, novamente, passaram a ameaçar o equilíbrio ambiental brasileiro. É de se pensar sobre o futuro… Há outros bichos que na sua diversidade nos trazem inúmeros ensinamentos, entretanto, apesar de toda nossa humanidade não conseguimos assimilar o que há de positivo nos diversos exemplos de vida em equipe e de cooperação que estes nos proporcionam. É triste! Optamos, como homens e mulheres primatas, por viver o nosso capitalismo selvagem.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

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Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

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O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

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