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Tenho medo do medo

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Som de passos ecoam pela estrada vazia. O ímpeto em cada passada revela a pressa do caminhante que se aventura na noite que se apresenta vestida de nuvens negras e ameaçadoras. Um vento gélido sussurra uma provável tempestade e, encolhido no próprio abraço, nosso personagem mantêm o foco. O olhar não se desvia para as sombras distorcidas que surgem ponto a ponto ao longo do caminho. Sua respiração é controlada, assim como o medo que arrepia a sua pela mais que o frio da noite. À sua esquerda uma coruja grita, e cada célula do seu corpo grita na mesma intensidade. Mas ele permanece em silêncio. Trêmulo, continua, certo de já estar próximo do seu destino. “Falta pouco”, consola-se. “Logo depois da próxima curva e à sombra da grande árvore encontrarei o endereço e, ali, um descanso quente e seguro.” E tal expectativa o impulsionava. Tão logo venceu a curva, e da grande árvore aproximou-se, ergueu os olhos para encontrar a visão do local que o salvaria. Porém, de chofre estacou. Uma descarga elétrica percorreu todo o seu corpo, enquanto um vórtice de aço envolvia a sua garganta. Um vulto branco e fantasmagórico flutuava solto, em meio à neblina que baixava. Com os olhos arregalados e a retina inundada pelo inexplicável, nosso caminhante não ficou para desvendar o mistério. Esquecendo-se do cansaço, do frio e da chuva que começava a cair, fugiu do local o mais rápido que suas pernas podiam levá-lo. O medo o salvara da terrível ameaça que um lençol esquecido no varal poderia lhe causar.

No livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, aprendi como o medo sequestra a nossa capacidade de raciocinar e enxergar com clareza a realidade. Ele ensina que a nossa visão e audição estão diretamente ligadas a 3 partes do nosso cérebro; o neurocortex (parte racional), amídala (parte emocional) e o tálamo (parte frontal do cérebro). Tudo o que vemos e ouvimos primeiro é recebido pelo tálamo, que tem por função reconhecer as coisas. Depois a informação coletada é enviada simultaneamente para o neurocortex e para a amídala, onde a imagem será interpretada pela razão ou pela emoção, ou mesmo por ambas. Porém, as ditas regiões do nosso cérebro não trabalham harmoniosamente, respeitando regras e protocolos. Cada uma tem seus próprios mecanismos e “modus operandi”. Tudo vai depender de uma série de fatores que se abrem em um leque, variando de uma pessoa para outra.

A amídala, a grosso modo, tem por característica a pressa. Ela geralmente nos inunda com a adrenalina necessária para uma fuga rápida, como aconteceu com o nosso personagem ou nos prepara para a luta. É ela que nos incute a emoção, o impulso, as reações rápidas, a empatia ou o repúdio. A amídala está diretamente ligada à sobrevivência, à preservação da vida. Aqui as informações coletadas pelo tálamo são processadas de forma rápida e superficial, no intuito de poupar tempo. É a amídala que, muitas vezes, nos impede de bater o carro ou nos permite salvar o pote de vidro que cai. É o reflexo rápido, o agir sem raciocinar. E, a isso, Goliman chama de Inteligência Emocional, o qual eu entendo como instinto. Enfim, a amídala não precisa de muito conhecimento para desempenhar o seu trabalho de forma brilhante ou desastrosa.

Já o neurocortex, aparentemente, é o mais preguiçoso do trio. Ele precisa de tempo para absorver a informação, fazer conexões e, a partir daí, ter uma reação acertada. O neurocortex gosta de compreender todo o contexto, levando em conta todas as possibilidades, então necessita de dados, informações, conhecimento e treino. Em resumo, quanto maior o número de dados armazenados no órgão em questão, maior a capacidade cognitiva de discernir o certo do errado, do bem e do mal, do bom ou ruim, do perigo ou não.

Ao longo da história vemos como o conhecimento, de modo geral, foi controlado e limitado por determinados grupos e, em contrapartida, como o medo foi incutido para controle das massas. Adão e Eva, quando provaram do fruto do conhecimento, foram banidos do paraíso.  E por quê? Hoje sabemos a resposta. O conhecimento liberta. O conhecimento alimenta no sentido figurado e literal. O conhecimento fortalece. O conhecimento é poder. Sim, um cérebro onde o neurocortex é constantemente alimentado com conhecimentos diversos só faz uso dos impulsos e reflexos quando estritamente necessário. A nossa apressada amídala é, assim, preservada.

Quando olhamos para trás com olhos de quem quer ver enxergamos como o medo e a limitação do conhecimento controlou e manipulou populações inteiras. Na idade Média cerca de 90% da população era analfabeta e assim era mantida. As mulheres, até há algumas décadas eram, no máximo, alfabetizadas, mas totalmente desestimuladas à leitura. As classes menos favorecidas e, injustamente, rotuladas como inferiores, deveriam ser mantidas como tal, e o único caminho para isso era privando-os do saber. Na construção da humanidade e das civilizações alguém precisava fazer o trabalho pesado e sujo, e para subjugar e convencer o outro a desempenhar aquilo que não se quer fazer, só reduzindo-o a uma máquina orgânica. E a maneira mais rápida e eficaz de se fazer isso é inibir o neurocortex e inundar a sempre tensa e apressada amídala com o medo.

Quando o ser humano é privado de desenvolver as suas capacidades, de conhecer a si mesmo e o mundo à volta com liberdade, ele se preocupa apenas em garantir a sua existência, a sua sobrevivência, mesmo que de forma mesquinha e insalubre. Sobre os pilares do medo as grandes civilizações cresceram e prosperaram. Sobre os pilares do medo a escravidão perdurou por séculos, e não me refiro apenas aos negros. Sobre os pilares do medo as ideologias se espalharam pelo mundo. Sobre os pilares do medo os corruptos prosperaram.

Hoje, século 21, sinto como se tivesse embarcado numa máquina do tempo, e tivesse retrocedido para um dos períodos negros da história. Fico perplexa ao ver o medo ser disseminado por todos os meios de comunicações no intuito único de inflar as amídalas das pessoas, para que essas mesmas sejam incapazes de racionalizar, ou pelo menos que fiquem confusas e perdidas, tirando-as, de uma forma ou de outra, do lugar seguro que é o conhecimento.

Hoje, século 21, observo pessoas reagindo impulsivamente ao invés de agirem em ações conscientes e racionais.

Hoje, século 21, deparo-me com uma geração com valores deturpados e um conhecimento parco e tímido de quase nada. E esses mesmos, por não terem tido um neurocortex qualitativamente alimentado, apenas gritam, argumento único daqueles que não tem argumentos.

Hoje, século 21, presenciamos como a política se beneficia do medo em razão dos seus interesses, e vemos como até as pessoas mais instruídas intelectualmente podem ser sequestradas e aprisionadas pelo medo.

Hoje, século 21, observo os mais diversos tipos de mortes pelo simples medo da morte, algo inerente à condição humana. Vejo as pessoas morrendo de fome, de depressão e das mais diversas doenças. Vejo a economia morrendo, empresas falindo. Vejo conflitos emergindo em função das divergências. Vejo uma nação sendo dividida. Vejo a morte sorrindo como que vitoriosa. Vejo, inconformada, mais que a morte do corpo físico, mas a morte do diálogo, do respeito e da liberdade.

Hoje, século 21, vejo grande parte das pessoas se escondendo, ou mesmo fugindo, desesperadas, como a alegoria sugerida no início do texto. Sim, uma reação natural e de certa forma justificável, mas eu, de minha parte, não escondo a admiração a todos aqueles que resolveram ficar e encarrar de frente o mal que nos acomete.

Hoje, mais do que ontem, eu me recuso a viver com medo e, ao invés de me encolher na cama e me cobrir com o cobertor por medo do escuro, prefiro me erguer e acender a luz.

Alda Therkovsky É Mulher, Empresária, Escritora, Poetisa, Sonhadora e Visionária. Autora dos livros: O Mistério das Pirâmides, O Memorial da Bruxa, A Conquista do Éden, Margarida no Jardim, A Alface Valente e Deus é Ateu.

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Reunião de alinhamento da rede de proteção a mulher

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Na manhã desta sexta (18/06), reuniram-se na sede do 8° BPM, representantes dos órgãos que compõem a “Rede de Proteção a Mulher”, no município de Porto Seguro.

O evento foi marcado pelas presenças das seguintes autoridades: Dra. Michelle Menezes Quadros Patrício, Juíza de Direito; Delegada Elisabeth Salvadeu, representante da DEAM; Sr. Lucas Magalhães, representante da Coordenação Regional do DPT; Sra. Moana Fernandes Novaes de Oliveira, Coordenadora do CRAM (Porto Seguro); Sra. Kâdara Pataxó, representante do CRAM (Santa Cruz Cabrália); Subten PM Anderson dos Santos, Coordenador Adjunto do CICOM; Dra. Tatiana Câmara de Assis, Defensora Pública; e, o Delegado Marcelo Mota, representante da 1° DT, além do Comandante e Subcomandante do 8° BPM, o Ten Cel PM Alexandre e o Maj PM Lima Neto, respectivamente.

O encontro serviu para traçar um balanço acerca das atividades desenvolvidas, analisando os resultados alcançados até o momento, bem como, projetar as futuras ações de melhorias e eventuais correções.

ASCOM/8° BPM

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