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Lute como como um Professor, Lute como João

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A denúncia histórica feita pelo professor João no BBB é mais uma lembrança de que novos tempos estão se formando, e que os processos de resistência irão  se tornar cada vez mais constantes e públicos. João inicia a sua fala dizendo o quão difícil é o gesto da denúncia, o quão difícil é se colocar na frente de tantas pessoas (maioria branca) para denunciar todo o racismo recreativo que permeia as relações cotidianas tecidas dentro e fora do BBB.

O racismo é uma prática estrutural em nossa sociedade, e pode definir desde a renda até a expectativa de vida das pessoas negras, define o acesso a oportunidades, e por vezes até o direito à infância. O racismo pode ser praticado de forma recreativa também, acontece por exemplo com a piada que geralmente “não é para ofender”, mas ofende porque tem o comentário racista enquanto elemento central, e faz uso do humor para seguir reproduzindo gestos violentos e silenciadores. 

Esse racismo recreativo acontece também quando por exemplo o BBB deixa de se posicionar contra o racismo e passa apenas a exibir todo acontecimento, se isentando e o equiparando com outros atritos que já aconteceram na casa e que estão longe de carregar marcas tão profundas de um passado e presente cruel e que perpetua também o genocídio da população negra.

O programa ao decidir não incluir a palavra “racismo” na edição, e ao apresentar o episódio como apenas mais uma narrativa dentro da casa, equiparando a uma briga pela comida ou alguma fofoca, perde a oportunidade de conduzir um novo tratamento no modo como os comportamentos racistas são aceitos e normalizados em espaços de alcance da grande mídia. 

A fala do apresentador ao longo do programa é de que “textão não define BBB” como se toda a miliância e trajétoria do movimento negro no Brasil se resumisse a textão de internet. Esse episódio se torna um marco na edição com a maior presença de participantes negros.

Eu, enquanto público, aguardo ansioso a saída do Rodolffo pela eliminação por votação pelo público, mas entendo que mais do que nunca que esse era um caso de expulsão, lembrando que a prática de racismo é crime, penalizado por lei. No mesmo dia em que todo o caso aconteceu, na noite da festa a convidada para se apresentar foi a cantora Ludmilla, que acabava de sair de um processo judicial contra a socialite Val Machiori também por racismo, e também por um comentário ridicularizando cabelo crespo.

O caso do João se resume ao participante Rodolffo comparando o cabelo do Monstro que era uma fantasia de homem das cavernas com o cabelo do João, que na mesma hora contrária a fala do colega, mas sem muita energia devido a todo o constrangimento de estar passando por aquela situação. Vale lembrar que o Monstro dentro do programa é uma punição, ou seja, todo o vestuário é pensado para ridicularizar, para gerar desconforto, não é nem de longe para ser algo bonito, então quando Rodolffo tece essa comparação fica impossível perceber algum traço de respeito ou de valorização do crespo do João.

No momento ao vivo em que o João decide compartilhar o acontecido com os colegas, o participante Rodolffo volta repetir que para ele, “o cabelo era sim parecido”, perdendo uma grande chance de se desculpar, o cantor segue com comentários genéricos, evidenciando a dificuldade de que homens como ele sentem de reconhecerem os seus erros e abandonar os seus lugares de privilégio. Rodolffo permanece no discurso de que não havia intenção de machucar, sem demonstrar nenhum interesse em compreender que para além da intencionalidade, o conteúdo do comentário era sim racista e não há justificativas, e sim a oportunidade de aprender e se desculpar. 

O sofrimento do João de ter que expor as suas feridas, de ter que reviver as suas inseguranças não pode ser banalizado em prol do entretenimento, foi perceptível o desconforto e o abalo emocional por parte do professor, mas que ainda assim encontrou coragem para denunciar esse gesto de violência. Na mesma noite em que foi reconhecido por boa parte da casa como um dos melhores jogadores João também passa a ser reconhecido pelo público como um homem de coragem, um professor, gay ,preto, que não foge da luta e não se cala frente à opressão. 

Professor, Artista e Bixa, nascido com o sol em Capricórnio. Pesquisador da cena, da dramaturgia, da performance. Licenciado Interdisciplinar em Artes pela UFSB e estudante de Artes do Corpo em Cena também na UFSB. Militante LGBTQIA+

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Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

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O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

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