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AGORA É A VEZ E VOZ DELAS

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A história do Rap com o Brasil não é tão recente, o rap, (sigla para “rhythm and poetry”, traduzido como “ritmo e poesia”), chegou em nosso território no início dos anos 80, fazendo um grande impacto na cena de São Paulo e Rio de Janeiro. Mas não demorou muito para que o movimento se tornasse conhecido em todo país, gerando para além de uma legião de fãs, o desejo de produzir em diversos corpos que viam no Rap uma forma de se fazerem ouvidos. 

Nomes como Mano Brown, MV Bill, Sabotage marcaram toda uma geração e continuam impactando aqueles que ainda estão descobrindo toda a potência que o rap brasileiro tem e representa. Como todo movimento artístico, o rap também vem se reinventando, respondendo a demandas de quem consome e quer produzir, ampliando o alcance de representação e possibilidades de criação dentro desse estilo.

O Rap como todo e qualquer espaço social propagou por muito tempo a exclusão de corpos femininos do centro do palco, seja atuando enquanto potências vocais,  enquanto compositoras, produtoras e beatmakers. Mas hoje já podemos identificar grandes nomes que marcaram também a história como Dina Di, que é uma das grandes pioneiras do Rap ao lado de Negra Li,  Camila CDD, Karol Conka, Brisa Flow, Tássia Reis, Rosa Luz entre várias outras e muitas que ainda virão. 

A articulação das mulheres que produzem música tornou possível a criação do Womans Music Event, primeira premiação brasileira que celebra as produções realizadas por mulheres. Com o objetivo de empoderar as mulheres que fazem música no Brasil, a premiação em 2020 teve 17 categorias e entre as indicações várias eram destinadas para artistas do Rap.

A ocupação de mulheres na cena do rap potencializa diretamente um enriquecimento no campo da representação da mulher, que passa a ser vista nas letras como uma figura potente, criativa, complexa e ambiciosa. Com as mina mandando o rap as mulheres deixam de ser apenas objeto de desejo na canção. É nesse mesmo tom que novas artistas baianas seguem construindo o seu caminho, artistas como Emmer C, LaEla e Deb Santti, vem construindo trajetórias artísticas cheias de protagonismo e resistência. 

É preciso falar de protagonismo uma vez que a cena não está pronta e nem necessariamente “aberta”, cada uma teve e tem trilhando um longo caminho para se fazer ouvida, mas antes do som tocar nas rádios é preciso produzir. E é nesse momento em que a genialidade delas se torna mais evidente, já que cada uma precisa ocupar mais de uma função, desenvolver inúmeras técnicas e atuar em várias frentes para garantir que a sua produção se torne algo real e que receba toda a qualidade que almejam. 

Emmer C é cria do extremo sul baiano, com 27 anos, 9 anos são de estrada, de muito corre para se tornar uma das artistas do Rap com maior alcance em nossa região, entre as suas produções então Na Maciota, As Brabas – feat Má Reputação , Erê – KBSativa Mcs e o seu mais recente clipe “Manda Áudio” se aproxima 2,5 mil reproduções no youtube. sobre a necessidade de se autoproduzir Emmer diz:

Essa autoprodução eu enxergo como uma autoafirmação, afirmação do que eu sou, de onde eu vim, e do que eu quero passar com o meu trabalho, e isso diz muito sobre minha essência e minhas vivências enquanto mulher, mãe, aspirante da arte , estudante e artista independente. Me auto produzir é para mim poder incluir no meu trabalho a minha estética, seja ela na forma de se vestir, escrever, cantar, e com isso inspirar outras pessoas a não se limitarem em suas produções

Chegando ao final clipe de “Manda Áudio” o nome que mais aparece é o da Emmer C, num reflexo direto da versatilidade e do controle que a artista tem da sua obra. A artista se destaca também como empreendedora, a Arruda Ateliê é a sua marca de costura, customização e de garimpos de brechó, boa parte os looks que aparecem no clipe são assinados pela cantora.

Para mim a moda e a música sempre caminharam juntas, eu gosto muito de me vestir e me sentir bem e ainda assim passar uma mensagem com as roupas, estilos, cabelos, maquiagens. Deixar a minha marca, e fazer da minha arte uma ferramenta de multiplicação, uma das formas que utilizo para fazer isso é, aderir roupas de brechó, marcas independentes”

foto – Vulgo JR

Laela é uma jovem artista do rap, atua como beatmaker e Mc, nascida em Cruz das Almas ela mora em Salvador desde os 7 anos, hoje com 19 anos aponta como uma das mais promissoras artistas estreantes do Rap.

“Percebi a necessidade de me autoproduzir a partir do momento que me entendi como mulher, artista independente e periférica

Sobre ser beatmaker no mundo do Rap a artista conta que precisou se provar para conseguir seu espaço,

São poucas as beatmakers existentes no cenário, pelo menos na minha bolha. A aceitação, hoje em dia, é bem melhor. Alguns anos atrás alguns duvidavam bem mais da minha capacidade, isso melhorou com o tempo mas continua existindo, mesmo que menos”

Sobre as barreiras enfrentadas pelas mulheres no Rap, a artista que já passa de 1,200 visualizações no youtube, e que está preparando o seu álbum de lançamento, aponta que,

Foto – Vulgo JR

“ainda que continue sendo excludente, o cenário está mais frutífero para as mulheres devido às pioneiras desse processo, que iniciaram-no com muita persistência e garra. Só estamos tendo um espaço maior hoje em dia graças às que vieram antes”

A artista Deb Santti, 23 anos, da cidade de Ilhéus, teve o seu primeiro contato com a música junto a Igreja, mas já escrevia e cantava desde muito cedo. O contato com o Rap veio com 16 anos, mas foi só em 2018 que teve o primeiro encontro com um estúdio, gravando um feat com o Leo Xamã, e em 2020 foi para o estúdio e lançou o seu primeiro trabalho solo, a música Buscando Entre Linhas.

“Sempre fui muito curiosa e sempre gostei de participar inteiramente dos meus projetos. E é por isso que hoje, sou a produtora da maioria deles.”  

O segundo passo veio a produção de “Disciplina” que para a artista foi uma tragédia que deu certo, segundos antes da gravação a câmera quebrou e precisando se reinventar ela decidiu fazer uso de um notbook, e não é que deu certo?

“Isso demonstra o quão desafiador é um trabalho independente. É divertido, mas é desafiador, pois coisas assim podem acontecer, e você nunca sabe o que vem depois. Não temos todos os recursos, usamos o que a nossa criatividade nos permite mas é gratificante ver o resultado. É um trabalho que eu amo fazer.”

Por ser tão exigente com o seu trabalho e por ser o que ela mais ama fazer, ela garante sempre dar o seu melhor, e foi nesse processo que Deb se introduziu na direção e na edição, se fazendo sempre presente no processo de produção.

“Meu ultimo trabalho, foi o Prato Rude. E além de dirigir e editar, fui também a responsável pelo processo de gravação no meu home studio.

e quero dizer para todo mundo acreditar nos seus sonhos e fazer o que está a seu alcance, porque dá certo, a gente não tem tudo não, mas a gente usa o que a gente tem”

Nas narrativas dessas três mulheres e artistas, é possível identificar o amor e prazer que elas construíram em torno da música, junto com a dedicação e destreza de se fazerem vistas e ouvidas num universo originalmente feito por homens. Cada uma em seu território, vem construindo caminhos de resiliência através da música, com letras potentes e engajadas, as mulheres do Rap da Bahia vem consolidando um caminho de referência e muita resistência. E se você ainda não adicionou essas minas na sua playlist, está na hora de correr para não perder o bonde, mas já deixo meu aviso, coloque o capacete, porque só tem pedrada!

Professor, Artista e Bixa, nascido com o sol em Capricórnio. Pesquisador da cena, da dramaturgia, da performance. Licenciado Interdisciplinar em Artes pela UFSB e estudante de Artes do Corpo em Cena também na UFSB. Militante LGBTQIA+

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2 Comments

2 Comentários

  1. Emmer Carvalho

    4 de Abril, 2021 at 10:43

    PERFEIÇÃO !!!! SÓ TENHO A AGRADECER PELO ESPAÇO 💓💓💓💓💓

  2. Ana Raquel

    5 de Abril, 2021 at 08:19

    Parabéns pela reportagem que soma na luta pelo empoderamento das mulheres em qualquer cena que desejamos.

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Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

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O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

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