Conecte-se conosco

Sociedade

31 de março de 1964

Publicado

em

A terceira lei de Newton nos diz que “para toda ação, há uma reação igual e oposta”, o regime militar brasileiro é a aplicação prática dessa lei nas ações político-sociais.

Não comemorem ainda, viúvas da ditadura, esse artigo não será sobre os hipotéticos benefícios que os milicos trouxeram para o Brasil… Relaxa também, socialista de iPhone, esse artigo também não fala sobre a perseguição, supostamente, arbitrária do regime contra estudantes e revolucionários “inocentes”, de quem seu professor tanto falou. Esse artigo é sobre contexto histórico e, principalmente, COERÊNCIA.

Em História, chamamos de anacronismo o ato de tentar forçar a interpretação de um fato ou período histórico com as concepções de outro, por exemplo, é anacrônico tentar entender a condenação física de açoites e crucificação, comuns no Império Romano, com a dinâmica social que temos no século XXI. Por isso, para nós, historiadores, o contexto fala muito mais que o fato em si.

O contexto do golpe de 64 se dá em meio ao maior conflito ideológico da história mundial: a Guerra Fria. Momento em que EUA e URSS (União Soviética), expandem sua influência pelo mundo. Esses dois NUNCA entraram em conflito direto, até porque, isso estragaria as personagens, haja vista que ambos queriam se vender como mocinhos. Politicamente, essa polarização inútil se manifesta desde a Revolução Francesa (1789): direita e esquerda, burguesia e proletariado, comunistas e liberais, coxinhas e mortadelas e, o mais atual, PTralhas e Gado (HAHA’). Voltando à Guerra Fria, ambos os países, como dito, não entraram em conflito direto, entretanto, financiaram diversas guerras pelo mundo como Guerra da Córeia, Afeganistão, Vietnã e, o episódio mais importante, a “rachadinha” (essa não foi do Flávio) que dividiu a Alemanha em duas.

Lenin, ditador soviético, pregava que “a única moral comunista é aquela que serve a seus próprios interesses”. Começa a apostar na desinformação e mentira como política pública (parece com os últimos governos brasileiros, né? Mas ainda estou em 1945). Com essa regra geral, os soviéticos criam a cartilha comunista que rezava, entre outros artigos:

  • Propagar, legal ou ilegalmente, notícias, verdadeiras ou não, para fins de agitação pública e incitação a conflitos internos (guerra civil);
  • Consolidar ideais comunistas em sindicatos e cooperativas (inclusive militares) com objetivo de conduzir e manipular grandes massas;
  • Acatar, obrigatoriamente, todas as decisões da internacional comunista mesmo que envolvessem cometimento de crimes, atos terroristas e guerra civil.

Seguindo essa cartilha, nasce o PCB (Partido Comunista Brasileiro), de Luís Carlos Prestes, que chegou a ser eleito senador da República e também foi casado com a espiã da KGB, Olga Benário (aquela que seu professor vende como heroína e ícone do feminismo… Tem até filme sobre ela). Certa feita, em uma entrevista para O Globo, perguntaram a Prestes “numa eventual Guerra entre Brasil e soviéticos, de que lado o senhor lutaria?”, a resposta dele foi sem hesitação: “lutaria pelos soviéticos, porque a luta de classes sobrepõe o sentimento nacionalista”. Faço um parênteses, para te fazer lembrar que, quando um dos filhos do atual presidente estava flertando com a embaixada americana, o discurso do nosso chefe de governo era bem parecido com o de Prestes, porém, era mais gourmetizado: Make America Great Again!

Com a queda do ditador Vargas, em 1945, o presidente eleito, Dutra, rompe laços diplomáticos com os soviéticos e se alinha com os americanos para a reconstrução econômica brasileira e viabilização do plano S.A.L.T.E. (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia). Continuamos alinhados com os EUA no retorno democrático populista de Vargas e JK. Em 1961, assume o presidente Jânio Quadros e, a partir daqui, o regime militar começa a ganhar forma.

Jânio Quadros queria se manter isentão, então se reaproxima dos soviéticos, da China de Mao Tse Tung, Cuba e, o ápice, passa por cima do Estado Maior, e condecora Ernesto Che Guevara, notório genocida, com a Ordem do Cruzeiro do Sul, maior honraria que uma pessoa pode receber do governo brasileiro.

Com total ingovernabilidade, ele senta-se com Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, para conspirar o fechamento dos Parlamentos (municipais, estaduais e federais). Lacerda não só recusa a proposta como, no mesmo dia, torna público as intenções golpistas de Quadros.

Em agosto de 1961, Jânio renuncia. Seu vice, João Goulart (Jango), estava fumando charutos cubanos com Mao, na China, e é convocado a voltar para tomar posse. Por ser muito alinhado com governos comunistas, a ala mais radical das forças armadas, queria que o PARLAMENTO impedisse a posse de Jango, alegando razões de segurança nacional.

Antes de voltar a Brasília, Jango se reúne com Leonel Brizola, que sugere ser, aquele, o momento ideal de uma revolução popular. Em seguida foi se aconselhar com o dinossauro político, Tancredo Neves, que sugeriu um “parlamentarismo provisório” para reduzir os danos e o desgaste político. Ele aceita. Meses depois, vence o presidencialismo em plebiscito desnecessário convocado pelo governo. Finalmente Jango se torna presidente do Brasil.

Durante seu governo, Jango tomou uma série de medidas que não coadunam com a democracia como, por exemplo, incitar e convocar greves para pressionar o parlamento a votar suas pautas. Nesse mesmo período o PCB sofre uma cisão: de um lado o PCB “raiz”, que queria expandir o comunismo a partir da mídia, da cultura e da educação, principalmente nas universidades (isso não mudou até hoje). Doutro lado o PC do B, do deputado Francisco Julião, que pregava reforma armada com apoio de operários, militares e camponeses, inclusive, sobre os camponeses, Julião fez uso da reforma agrária como bravata e chamariz para recrutar, o lema era “reforma agrária na lei ou na marra” (qualquer semelhança com o MST do PT é mera coincidência).

Seu professor de História do ensino médio, provavelmente, plantou na sua cabeça que as guerrilhas foram resposta ao golpe”, quando, na verdade, os fatos e fontes apontam para o contrário, mas, vou deixar isso para seu próprio juízo de valor.

Jango toma uma série de medidas inconstitucionais como estatização arbitrária de empresas, congelamento de aluguéis, desapropriação compulsória de terras, limitação de repasses financeiros ao exterior e, adivinha, taxação de fortunas (e você achando que isso era coisa recente, HAHA’). A economia vai à bancarrota, inflação de 100% ao ano, a miséria, desemprego e falta de habitação vão à estratosfera. Como se não bastasse, ele tenta forçar um estado de sítio, para poder governar livremente sobre estados e municípios, sim, eu sei, parece arte do Bolsonaro tentando conter a devastação da pandemia, mas essa de estado de sítio é manobra velha.

Em um dos seus pronunciamentos à nação, acompanhado de Brizola, Jango diz: “essa constituição e essa ‘democracia’ que está aí é, na verdade, um sistema político para beneficiar os poderosos e as elites. Precisamos convocar um plebiscito para dissolver o Congresso e o Judiciário. Precisamos taxar os ricos e impedir que eles tirem do Brasil o seu dinheiro”.

Dada a instabilidade do país, Castelo Branco, alerta Carlos Lacerda sobre uma possível tentativa de golpe para lhe tirar o governo da Guanabara. Tal golpe estava sendo arquitetado pelo Almirante Aragão. E aqui, caro leitor, vem um dos episódios da História Brasileira que eu mais gosto, Lacerda, além de não dar a mínima para a tentativa de golpe, ainda usa a rede nacional de rádio para ameaçar o almirante de morte! Exatamente isso, um governador ameaçou um militar de alta patente de morte em rede nacional. Abaixo segue a transcrição do icônico discurso:

“Almirante Aragão, venha tomar o Palácio que te mato com meu próprio revólver, Canalha! Traidor! A sua hora chegou! Foge enquanto é tempo! Garanta sua impunidade! Bandido! Matador! Mandante de inocentes soldados para matar outros soldados, para mascarar sua desonradez. Canalha! Traidor!”

O povo vai para as ruas, para a maior manifestação popular voluntária da História do Brasil, pedindo a renúncia de Jango e eleição de um novo presidente. Jango vai a Porto Alegre se reunir com Brizola para articular um enfrentamento à oposição popular, não descartando os riscos de Guerra Civil. Erro cabal: Jango não colocou essa viagem na agenda oficial, não havia registros de sua viagem em lugar nenhum. Pela constituição de 1946, o parlamento poderia declarar VAGA a presidência em caso de ausência não informada do presidente e do seu vice.

Em 31 de março de 1964, Auro de Moura e Andrade, presidente do Congresso Nacional, em sessão conjunta do Congresso, declarou:

Atenção! O senhor presidente da República deixou a sede do governo, deixou a nação acéfala. Numa hora gravíssima da vida brasileira, abandonou o governo! E essa comunicação faço ao Congresso Nacional, essa acefalia configura a necessidade do Congresso Nacional, como poder civil, imediatamente, tomar a atitude que lhe cabe nos termos da Constituição Brasileira. Está sob a nossa responsabilidade a população do Brasil, o povo, a ordem! Sendo assim, declaro vaga a Presidência da República”.

Está dado o GOLPE! O golpe não foi militar, foi parlamentar, pois, foi sabido, naquele mesmo dia, que o presidente estava em território nacional.

Esse episódio me levanta os seguintes questionamentos: Por que Jango não foi a Brasília reclamar seu cargo? Por que Brizola, tendo imunidade parlamentar, já que era deputado federal, não foi a Brasília reverter a situação causada pela suposta vacância da presidência? Nunca saberemos!

Após as ações de Moura e Andrade, o general Mourão Filho, autor do Plano Cohen de Vargas, coloca os tanques e tropas na rua, para garantir a ordem pública e evitar uma possível guerra civil. A Presidência é passada, interinamente, para Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, sucessor natural da Presidência, até que, em eleição indireta (como mandava a constituição), o parlamento elege o General Humberto de Alencar Castelo Branco, com 98% dos votos, para assumir o Planalto, de forma temporária.

A eleição de Castelo Branco contou com o apoio de deputados e senadores de TODAS as vertentes ideológicas, direita e esquerda. Castelo Branco toma posse em 15 de abril de 1964 e, o resto da História, estamos carecas de saber.

O professor Marco Antônio Villa, em um de seus livros, dedicado exclusivamente ao Regime Militar Brasileiro, afirma que “sim, em 1964 o Brasil foi golpeado, igualmente, pela direita e pela esquerda e o resultado nós vemos até hoje. Uma mancha de sangue na nossa História, um câncer que não tem tratamento e não será curado”.

Diante disso, desse contexto, dando nomes aos bois, te mostrando o poder que o parlamento tem e, principalmente, diante do nosso cenário atual, me responda uma coisa: EM QUEM VOCÊ VOTOU PARA DEPUTADO E SENADOR NA ÚLTIMA ELEIÇÃO?

Professor de Humanidades da rede pública, graduado em História, Geografia e Sociologia, especialista em Ciência Política e Antropologia, coordenador acadêmico e, agora, colunista DiBahia. Missões: Explicar o Brasil para os brasileiros e expor a hipocrisia das ELITES RELIGIOSAS de nossa região.

Continue lendo
Propaganda
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sociedade

Disputa pela marca Legião Urbana acontece nesta terça 22

Publicado

em

Por

Voiced by Amazon Polly

 O STJ Superior Tribunal de Justiça retoma nesta terça 22 o julgamento do uso da marca Legião Urbana. o imbróglio judicial envolve Marcelo bonfá é dado villa-lobos integrantes da banda contra a empresa Legião Urbana Produções administrada por Giuliano Manfredini filho de Renato Russo.

Na manhã de hoje o cantor André Frateschi fez um post em seu Instagram em solidariedade aos integrantes e fãs da banda.é ” hoje tem o fechamento desse julgamento que vai decidir se Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá são eles mesmos; não há outra possibilidade estamos juntos escrever Frateschi que ocupou os vocais na banda nas recentes turnês com os integrantes da legião originais. Dado Villa-Lobos republicou em seu perfil tanto no perfil de Frateschi; fãs da banda deixaram mensagens de apoio ao grupo.

Continue lendo

Copyright © 2021 DiBahia CNPJ: 41.275.067/0001-16