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Pelo direito de brilhar, arrazar e re-existir

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A cidade de Porto Seguro tem imbricada na sua história cultural a presença dos corpos LGBTQIA+. Desde a era GLS, Porto conseguiu estabelecer um gueto de convivência para a comunidade local, mas este também evidenciou ao longo dos anos a constante separação que existe dentro do próprio grupo. Uma vez que sobretudo as pessoas Trans e as mulheres cis lésbicas eram deixadas de lado e invisibilizadas pela tão plural comunidade. 

As praias paradisíacas e populosas por anos foram um refúgio para a comunidade Gay, que ao menos uma vez por mês podia se encontrar e manifestar seus afetos e desejos de modo mais liberto, mais seguro. Muitas dessas festas foram produzidas por Enrique Gastão que vive hoje na memória da sua comunidade. Mas essa falsa liberdade vinha acompanhada de longos dias de silenciamento, e de uma obturação do afeto e do desejo em espaços públicos. Esse pequeno espaço de liberação não era de livre acesso para todos os corpos, pessoas trans e mulheres cis lésbicas demoraram muito a serem incorporadas nesses encontros e ainda se encontram como minorias.

Performance do coletivo VemDesCer durante primeira edição do Sarará Trans na Abayomi Casa de Cultura no Cambolo.

Hoje entendemos que não necessariamente esses espaços são lugares de desejo para pessoas trans e mulheres cis lésbicas, pelo menos não no modo como eles ainda se apresentam, isso evidencia que é preciso urgentemente repensar os nossos refúgios coletivos, é preciso construir territórios mais acolhedores e de fato plurais. Espaços que potencializam mais do que apenas encontros sexuais, não que esses não tenham seu valor. Afinal de contas toda a perseguição contra a homossexualidade  e transgeneridade, passa pelo sexo, pelo desejo, mas também pela tensa relação de poder entre os papeis masculinos e femininos performados por homens e mulheres.

Ao longo dos anos, as festas que ocupavam um espaço de prestígio na vida afetiva das pessoas LGBT da cidade tornou-se  para além de um local para o flerte e o encontro, um espaço de sociabilização. Esses espaços foram culturalmente construídos pelas pessoas trans, pelas drags queens e bixas pretas, que com toda a sua potência artística abrilhantaram cada encontro. Figuras como Lady Butterfly, Nanny Phavanelly, Aysha Pink, Evellyn Houston, Sophia Black, Aylla Ferraz,  Katha Maathai, Caz Ångela  e Jackie Chean evidenciam o protagonismo essencial presente nesses corpos dissidentes. 

Imagem de divulgação do Top Drag Porto Seguro, realizado pela UOT Produções.

De Lady Butterfly, Nanny Phavanelly e Aysha Pink , que são importantes nomes para a história LGBT de Porto Seguro, à Aylla Ferraz, Katha Maathai e Sophia Black que marcam a força de uma nova geração. Essas jovens artistas atravessam barreiras apoiadas nas lutas e vitórias daquelas que vieram antes, e que pavimentaram todo o caminho. Butterfly assim como Aysha Pink e Nanny Phavanelly são ícones do entretenimento e estão na memória afetiva de vários turistas que visitam as barracas de praia, Aysha hoje divide os holofotes com a potência jovem e preta de Sophia Black que se formou enquanto drag nos aprendizados deixados por Aysha, Nanny e outras.

Sophia Black em ensaio para o fotografo Marco Polo.

Hoje Aysha se mantém em completa evidência, se estabelece como um  fenômeno nas redes, com vídeos e challenges, que vão do humor à críticas sociais. Sophia vem gradualmente crescendo como performer, dançarina e maquiadora, crescendo também no Tik Tok ela esbanja talento, beleza e rebolado, ela que também já foi apressadora do Top Drag, hoje se apresenta na mesma barraca de praia por onde passaram Butterfly e Aysha Pink, essa é a #BlackGirlMagic.

Essa mágica das garotas pretas se evidencia também na trajetória de Nanny Phavanelly  que abriu caminhos para diversas artistas drags e trans em toda a nossa região, como a Aylla Ferraz que competiu no Top Drag Porto Seguro 2019, com Nanny e Aysha como apresentadoras, o evento foi realizado pela UOT Produções que havia se estabelecido como a maior produtora de festas LGBT de Porto Seguro.

Katha Maathai durante performance no Top Drag Porto Seguro.

Aylla Ferraz chegou ao final da competição em 2º lugar ao lado da favorita Katha Mathai que conseguiu o seu 1º lugar ao ser a primeira drag a cantar ao vivo na premiação, entrando na onda de estrelas como Pabllo Vittar e Gloria Groove, Khata lançou em 2020 o seu primeiro clipe Acaba Aqui com muito pop e coreografia, já alcança quase 2 mil visualizações.

Aylla e Katha iniciavam a sua carreira artística e encontravam no Top Drag um espaço para o encontro, acolhimento e formação, o evento entrou para o calendário cultural do município e movimentou artistas de várias cidades e regiões. Abrindo caminhos para a realização da primeira Parada do Orgulho LGBT em Porto Seguro, marcando um momento histórico para toda a comunidade. 

Para além das praias e do Centro de Cultura, espaço onde acontecia o Top Drag Porto Seguro, outro espaço se estabeleceu como um lugar de acolhimento e celebração da dissidência e da diversidade. A Abayomi Casa de Cultura fundada por um coletivo de artistas no bairro Cambolo passou a se tornar referência, lá artistas locais como Jackie Chean e Caz Ångela  e muites outres, puderam apresentar os seus trabalhos na música enquanto artistas trans, levando para além de uma mensagem, uma força de ressignificação do que pode um corpo trans no mundo. A Feijoada da Diversidade organizada em parceria com a Evellyn Houston provou como a diversidade adora um bom samba e celebrar  o encontro entre diversos grupos.

Jackie Chean em apresentação no Centro Cultural de São Paulo em março de 2020, durante o Sarará Trans.

Junto aos artistas locais entre eles Jackie Chean, Caz Ångela, Caiene, e Nany Phavanelly, o espaço teve como convidada Marina Mathey de São Paulo que se apresentou na Abayomi durante o evento Sarará Trans, criado pelo pedagogo e pesquisador trans preto Khalil Piloto. O Sarará busca o protagonismo trans preto através da arte, do encontro e de debates relativos a questões atuais. O evento torna-se talvez o primeiro do estado a juntar essas duas potências e vulnerabilidades, a negritude e a transgeneridade.

Outro marco do Sarará foi a realização de um evento em São Paulo durante a 7º Mostra Internacional de Teatro, em março de 2020, que levou o artista porto segurense Jackie Chean, que é um homem trans preto, para se apresentar no palco do Centro Cultural de São Paulo com o seu primeiro EP o DEPO(I)MENTO$, se apresentando ao lado das cantoras Danna Lisboa, Rosa Luz e com falas da deputada Erika Maluquinho.

Das festas nas praias, ao sexo no breu, aos palcos e saltos do Top Drag e a luta pela celebração trans preta do Sarará Trans, podemos perceber que mudanças estão sendo traçadas nas engrenagens sociais e coletivas que nos atravessam, pessoas trans, pretas, bixas afeminadas não mais estarão excluídas dos espaços coletivos e de socialização, pois se colocam como autônomas e criadoras dos seus próprios refúgios. E fazem um convite a comunidade LGBTQIA+ para que cada vez mais pontuemos as falhas da lógica cis GLS que prioriza os desejos e questões dos homens cis gays brancos, que raramente se abrem para as questões das mulheres lésbicas, e que é atravessada pelo olhar da hétero-cisgeneridade. Nesse sentido é preciso criar novas formas de se afetar, de se coletivizar, é preciso um olhar de maior alteridade e de escuta para estes corpos que ancestralmente vêm lutando pelo nosso direito de brilhar, arrazar e re-existir.

Professor, Artista e Bixa, nascido com o sol em Capricórnio. Pesquisador da cena, da dramaturgia, da performance. Licenciado Interdisciplinar em Artes pela UFSB e estudante de Artes do Corpo em Cena também na UFSB. Militante LGBTQIA+

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Governo do Estado lança cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?

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O Governo do Estado disponibiliza, no site da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), a cartilha “Fui Vítima de LGBTfobia: o que fazer?”. A cartilha apresenta informações e instruções para pessoas LGBTQIA+ que sofrem ou já sofreram algum tipo de violência LGBTfóbicas.

Segundo o coordenador LGBT da SJDHDS, Kaio Macedo, a ideia da cartilha surgiu durante o Maio da Diversidade. “Percebemos que essa parcela da população desconhece os seus direitos e não tem acesso à justiça. A cartilha traz os avanços que conquistamos, a nossa rede de proteção e promoção dos direitos, que atende as pessoas que sofreram violência LGBTfóbica, além de orientações pós violência”, explica Kaio.

Na cartilha, os cidadãos e cidadãs têm acesso a informações sobre os tipos de violências e violações de direitos sofridas pela população LGBTQIA+, assim como contatos e formas de denúncias de cada órgão da rede de proteção, a exemplo do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT (CPDD-LGBT), Conselho LGBT da Bahia, Ouvidoria Geral do Estado (OGE), Secretaria da Segurança Pública (SSP) e Defensoria Pública (DPE).

“Vejo essa cartilha como uma arma importantíssima na luta em defesa da comunidade LGBTQIA+ e no combate à LGBTfobia, que está tão presente, infelizmente, em nosso país. Com essa cartilha, podemos criar uma rede de amparo onde as informações serão difundidas para que mais pessoas saibam como denunciar”, comemora o produtor cultural Roberto Júnior.

A LGBTfobia é um conceito que abrange diversas formas de violência contra pessoas que não são heterossexuais ou cisgêneras, seja verbal, física ou psicológica. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou o preconceito contra homossexuais e transexuais, equiparando crimes de LGBTfobia ao de racismo. Ou seja, atos de violências contra pessoas LGBTQIA+ devem ser enquadrados de acordo com a Lei no 7.716, de 5 de janeiro de 1989.

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