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Sociedade

Privilégios e um isolamento para além do social

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Esta semana falei com um amigo antigo por aplicativo de mensagem e durante questionamentos do “como você está?”, a resposta de ambos foi “em crise com a ideia de ter ou não privilégios”. E penso que é sobre isso que eu vou iniciar essa minha coluna aqui…: ter privilégios.

Falo do lugar de mulher, negra, trabalhadora da educação, mãe de duas crianças pequenas. Olho para a minha realidade e pergunto: seria privilégio a minha realidade?

Ora… Depois de chamada no concurso há quase dez anos, mudei para Porto Seguro. Aqui tive meus filhos. Dois meses após o nascimento da minha caçula, fui aprovada no doutorado e desde então lido com a realidade de estudar, trabalhar e cuidar da família junto com meu companheiro e mais uma série de atribuições que a minha vida demanda. Nem eu nem ninguém esperávamos ser acometidos/as por um pandemia no meio do caminho que tiraria todo mundo do eixo, trazendo à tona questões tão complexas. Estamos mais de um ano, muitos/as de nós confinados/as em casa e aí que vem a reflexão sobre essa ideia de privilégios.

Hoje tenho a possibilidade de estar trabalhando de casa, o complexo home office. Mas, ao mesmo tempo, tenho que dividir as disputadas 24 horas do meu dia com o acompanhamento concomitante de duas crianças em processo de alfabetização. Isto porque a situação pandêmica me fez, além da falta de condições, não explorar nenhuma mão-de-obra para afazeres da residência, os quais majoritariamente se dão por uma mulher negra. Além do trabalho matutino, e às vezes vespertino, de tutoriar minhas crianças, ainda tem o trabalho docente e administrativo da instituição a que sou vinculada, as funções de dona de casa e o período final (um dos mais difíceis!) do doutorado.

Relato tudo isso não do lugar de lamentação, mas para que vocês acompanhem comigo uma situação: diante de todas essas questões, há quem me diga que sou uma pessoa privilegiada por “poder estar em casa nesse contexto de pandemia”. Aí me pergunto: por quê privilegiada? Estar em casa não seria uma condição básica e importante para todos/as? Se vivêssemos numa nação, numa região, num estado, numa cidade em que TODOS/AS pudessem desfrutar do DIREITO BÁSICO de estar em casa para se proteger de uma doença de comportamento tão inesperado ao organismo de quem ela alcança, eu entendo que muita coisa seria diferente…

Mas o que observamos ao ligar câmeras para desenvolver trabalhos, ao ligar as TVs para assistir noticiários são as inúmeras pessoas pertencentes às camadas mais populares da nossa sociedade tendo sua mão-de-obra explorada e impedidas do que seria esse direito básico camuflado de privilégio.

Questiono-me, aqui nesta cidade em que eu tenho a oportunidade de só sair de casa em caso de extrema necessidade, quantas famílias já perderam seus entes por conta dessa doença ou porque tiveram negado o “privilégio” de estar em casa. Uma cidade cujo índice de desigualdade se acirra a cada dia. Se carecemos de elementos básicos em dias “normais” do nosso cotidiano, imagina agora quando as parcas possibilidades de trabalho evaporam.

Questiono-me ainda sobre a responsabilidade dessa situação. Porque é muito fácil delegá-la aos nossos governantes que, sim, têm responsabilidade significativa sobre o cuidado para que as perdas não sejam ainda mais gritantes, mas e aquela moradora do bairro nobre? Será que varrer uma casa e manter sua colaboradora em casa é absurdo? Será que o/a garoto/a dessa colaboradora tem acesso a um mínimo de educação num momento em que a crise no sistema educacional também é prevalente? Será que o lar dessa colaboradora está harmônico ou ela incorpora as estimativas do índice de vítimas das violências domésticas? Porque, para além das agressões que ela possa sofrer em sua casa, as violências a que ela é submetida no ambiente de trabalho ainda não são debatidas porque trará à baila um cenário que a classe dominante não quer que vigorem.

E aí observo que, como muitos termos, a palavra privilégio está tão desgastada quanto tantas outras que surgiram nesse contexto. Privilégio é uma característica, sabemos, pertencente a uma determinada classe social nesse país. E uma classe que está do outro lado extremo de mim e de uma maioria nesse território. Ainda que a quarentena tenha acabado e as forças capitalistas cobrem a retomada de serviços vários, um determinado segmento não tem o direito básico garantido de estar em casa. Esse segmento que ocupa as margens tem que sustentar a estrutura social da qual ele não está excluído, mas também não é o centro. Esse segmento tem de enfrentar transportes públicos lotados, foco de contágio, não pode ficar em casa, porque tem que sair para buscar o dinheiro para alimentar a sua família que, muitas vezes, habita lugares com péssimas condições de existência: pequenos metros quadrados que comportam uma família grande contrariando a tão combatida aglomeração. E esses cômodos são ocupados em lugares em que a água, elemento essencial para o combate ao vírus, não chega com a mínima qualidade.

Há segmentos que a sociedade entende contrariadamente a impossibilidade do presencial. E também a esses segmentos há uma força capitalista condenatória que fecha os olhos para a possibilidade do aumento de risco. Não importa…

Mas pensar tudo isso seria pensar sobre quem importa viver nesse contexto, não é mesmo? A notificação nos alerta para mais de 300.000 vidas. Mas e as demais? E os motivadores de outras mortes? De fome, de falta de kits hospitalares, de ansiedade e depressão e tantas outras causas silenciadas, subnotificadas!

Sim, meus caros, são subnotificações. E subnotificações nesse país a gente acaba deixando para depois… Um depois que nunca é agora… E sim… estamos falando de uma estrutura…

A pandemia não é só o isolamento social para não ser contaminado e, assim, não contaminar o outro com o COVID-19. A pandemia que nos assombra é um terror estrutural umbigocêntrico.  Diante de tantas complexidades, a pergunta que fica é: qual a minha, a sua, a nossa parcela de responsabilidade para que não olhemos para o nosso próprio umbigo? Quem de nós é “privilegiado” o suficiente para olhar para o outro e acolher a sua necessidade neste momento?

Sigamos…      

É mãe do João Victor e da Flor de Maria. Mulher negra, filha de pai e mãe negros, mulher de axé, ativista social, professora e doutoranda. Membro da Academia de Letras de Porto Seguro, da Academia de Letras do Brasil e da Organização Universal Zulu Nation.

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Vinicius Santos

    27 de Março, 2021 at 18:25

    Muito bom❤️

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Sociedade

Pastora arruma segunda esposa para marido pastor após revelação

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Pastores Éden Asvolinsque e Fernanda Asvolinsque e nova esposa
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De posse dessa ‘promessa mortal’, a pastora já arrumou a sua substituta para se casar com o seu esposo pastor.

A pastora Fernanda Asvolinsque, de 43 anos, que lidera com o seu esposo, o pastor Éden Asvolinsque, a Igreja Juventude de Cristo em Barra Mansa (RJ), desta vez foi longe demais.

O casal está sendo alvo de muitas críticas desde que a pastora arrumou uma jovem para ser a segunda esposa do seu marido.

A justificativa da religiosa é que, em novembro de 2020, ela recebeu uma revelação de Deus, de que está sendo preparada para ser ‘colhida’ da terra em 2021, ou seja, vai morrer esse ano.

De posse dessa ‘promessa mortal’, a pastora já arrumou a sua substituta para se casar com o pastor, quando ela for para o plano espiritual.

Fernanda afirma que está muito doente, mas que não irá ao médico, porque a vontade de Deus é de que ela morra esse ano.

“Deus disse a mim desde novembro, que está me preparando, porque Ele vai me colher nesse ano. Eu tô com paz na minha alma, estou bem resolvida em relação a tudo isso… Agora era o momento de vocês blindarem o pastor, blindarem a minha casa, blindarem a minha família, blindarem a igreja… Eu ouvi, eu sei o que Deus falou pra mim”, disse a pastora.

As declarações da pastora geraram polêmica no meio evangélico, e muitos acreditam, inclusive, que tudo não passa de uma armação do casal que, supostamente, curte um relacionamento a três. Ou que até mesmo estão separados, mas não querem tornar público, para não perder os fiéis e seus dízimos.

Após muitas críticas e insinuações contra o casal de pastores, que agora é um trisal, a pastora Fernanda desabafou nos Stories do seu Instagram.

Veja o vídeo na integra.

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