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Porto Seguro

Porto Seguro e as águas: natureza, cultura e história

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Vista aérea de Porto Seguro, encontro dos Rio Buranhém com o Mar. fonte: livro Porto Seguro memória photografica - Romeu Fontana
Vista aérea de Porto Seguro, de 1973, sentido sul-norte, publicada originalmente no livro "Memória Photográfica", de Romeu Fontana.

As águas cercam a história de Porto Seguro. Águas do mar, águas dos rios. Águas que brotam do chão ou que caem do céu. Desde os tempos mais remotos as águas delineiam as formas de ver, sentir e viver. Para os Pataxó, tradicionais habitantes destas paragens, a criação humana resultou da ação de grandes pingos de chuva que, ao se misturarem com o barro das falésias na praia de Juacema, deram vida a índios fortes e belos, cuja missão delegada por Txôpay (o criador) era povoar e cuidar da mãe terra. Muito tempo depois, quando da chegada tardia dos portugueses por estas bandas, fugindo, por ironia, de mais um “chuvaceiro”, segundo registrou o escrivão lusitano, nada haveria de novidade se não fosse o encontro de um “muito bom e muito seguro” porto, que trouxe calmaria diante da tempestade, numa terra onde logo perceberam que as águas eram “muitas; infindas. E em tal maneira graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”. Em diferentes tempos e com diferentes formas, a história em Porto Seguro sempre contou com a presença e participação das águas.

E foi seguindo o movimento das águas que a cidade se formou. Da cidade alta onde se instalaram as instituições básicas da governança local ainda na década de 1530, o panorama encantador do mar cintilante garantia uma visão protetora diante de possíveis ataques de inimigos externos vindos do horizonte. Mas, para a expansão urbana, o sítio não garantia o acesso regular ao bem precioso da vida, pois as águas estavam lá embaixo. E foi beirando essas águas que a malha urbana cresceu: Ponta de Areia, Pontinha, Marcos e Pacatá. Os bairros originários da velha urbe se acomodaram confortavelmente à borda das águas: de um lado, usufruindo das benesses do rio que ficou conhecido como de Porto Seguro, originalmente registrado nos documentos mais antigos como Serinhaém e, posteriormente, como Buranhém; e, do outro, o oceano Atlântico, recortado na região por vários recifes, que, embora dificultassem a navegação, transformaram-se em refúgios para a reprodução de milhares de espécies marinhas e fonte segura de alimentação para população local.

Circundada pelas águas, a cidade de Porto Seguro desenvolveu uma vocação para a pesca e para o comércio de cabotagem. A fama das garoupeiras porto-segurenses ganhou espaço cativo nos relatos de cronistas e viajantes ao longo de todo período colonial e imperial. Em 1803, o comerciante inglês Tomas Lindley afirmou que os habitantes locais se dedicavam “unicamente à pesca, ao largo das ilhas e rochedos dos Abrolhos, onde apanham um peixe grande, da espécie do salmão (a garoupa), que salgam para o mercado da Bahia”. De um modo geral, o quadro somente foi alterado na década de 1970, quando a aldeia de pescadores se transformou numa aldeia global, impulsionada pela criação da BR 101, que retirou a dependência de comunicação e integração com o resto do mundo por meio das águas oceânicas e contribuiu para que cidade virasse um grande polo turístico.

As águas não delinearam apenas as atividades urbanas e econômicas da cidade. Por elas também se manifestaram diversas práticas culturais. Vários saberes e fazeres tradicionais da população local retrataram, durante muito tempo, o secular esforço humano de dominar e explorar os recursos naturais das/nas águas. É daí, por exemplo, o domínio da arte de tecer redes de pesca, o laborioso trabalho da construção naval e o amplo vocabulário de classificação das espécies aquáticas. Nas águas também residiam muitas narrativas de uma espécie de folclore local, como a história do peixe aramaça, que remendando Nossa Senhora da Ajuda, negou-se a informar se a maré enchia ou vazava, ficando, por castigo, com a boca torta e os olhos na cabeça. A mesma Senhora, talvez como forma de se redimir daquela exagerada punição, fez brotar na colina de sua igrejinha uma fonte de água miraculosa, que deu lugar uma verdadeira “oficina de milagres”, como disse o frei Agostinho de Santa Maria, em 1722.

Os rios, riachos e lagoas que cercavam a cidade foram fonte de vida desde os tempos mais antigos. À beira do Itacimirim, João Rocha instalou um dos primeiros engenhos no século XVI, aproveitando a força da água para movimentar a roda que moía a cana para a fabricação do açúcar. O rio da Vila, por longos anos, foi responsável pelo abastecimento da cidade, ofertando água potável para a população local, que era servida pelos aguadeiros com seus carotes de 20 litros transportados nos lombos de jegues. Na fração de terra espremida entre as águas do rio de Porto Seguro e o mar, dezenas de lagoas, valas e canais cortavam a cidade, ofertando áreas apropriadas para pasto e reservas naturais de reprodução de inúmeras espécies da fauna e flora da Mata Atlântica, como a extinta Lagoa das Marrecas, aterrada pelo prefeito Valdívio Costa. Com o crescimento da cidade, pouco a pouco, muitas águas foram desaparecendo, secadas pela ambição imobiliária e pela expansão hoteleira.

Ainda assim, Porto Seguro continua a ser uma cidade atravessada pelas águas. Por séculos, a convivência sustentável da cidade com as águas garantiu abundância para a população local. Até a década de 1970, como pode ser observado na fotografia que pertence ao acervo do Governo do Estado da Bahia, a cidade parecia um tímido desvio da paisagem natural. Em menos de 50 anos, Porto Seguro viveu uma verdadeira explosão demográfica e uma grande expansão urbana que alterou por completo o quadro geral da relação entre a cidade e as águas. Talvez tenha chegado o momento de repensar essa relação.

Francisco Cancela Além do Descobrimento O professor e pesquisador Francisco Cancela assina a coluna Além do Descobrimento, todas as sextas-feiras, onde compartilha com os leitores do DiBahia as curiosidades sobre a história e o patrimônio cultural da cidade, revelando que Porto Seguro é muito mais que o Descobrimento.

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Paulo Sérgio Rosseto

    8 de Abril, 2021 at 23:35

    Parabéns, amigo Chico! Como sempre, impecável em seu descritivo histórico, fabuloso em seus comentários reais. A propósito, quando puder, passe pela Rua do Telégrafo – recém asfaltada e iluminada… Entre Mundaí e Taperapuan, dois riscos de água resistem, porém pedem socorro. Abraços.

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Porto Seguro

Professor desenvolve projeto de jogos E-sport para aproximar alunos da escola

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Com o avanço das tecnologias, os jogos tomaram ainda mais força ao longos dos anos e as competições se tornaram ainda mais interativas. O e-sport se tornou recorrente e em Porto Seguro, um professor chamado Josué Costa, encontrou nos jogos eletrônicos, um meio de aproximar os alunos da escola e do hábito de estudar. Em contato com o diBahia, o professor Josué contou como é a experiência e como ela ajudou na vida de seus alunos.

O esporte eletrônico ou e-sport nada mais é do que do que termos usados para definir competições de jogos eletrônicos de diversas categorias, tendo a participação de profissionais. O primeiro registro de uma competição de jogos eletrônicos foi em 12 de outubro de 1972, para estudantes da universidade de Stanford, tendo como prêmio um ano de assinatura na revista Rolling Stone.

A necessidade surgiu com a falta de aproximação entre o professor e os alunos. Josué trabalha 20 horas na escola Aldeia Velha, em Arraial d’Ajuda e notou que os alunos comentavam muito sobre o jogo Free Fire e queria ter uma aproximação com eles, podendo assim cobrá-los mais em relação aos estudos. Logo juntaram um grupo de amigos para brincar e aprender o jogo, em menos de um mês o professor já conseguia ver que os alunos que não entregavam atividade, online no jogo, e assim podia chamar a atenção para que pudessem fazê-las.

Professor Josué Costa.

A organização do projeto conta com um arsenal de 56 atletas que dá 14 equipes, cada equipe pratica por 4 horas por dia depois das atividades da escola, já que uma das regras é estar em dias com a mesma. Todas as terças e quintas às 22h os alunos competem internamente, os melhores, competem no torneio externo, o principal jogo é o Free fire, mas pretendem estender para outras modalidades. O professor diz que o objetivo da equipe é chegar na LBFF série A, e garante, o treinamento é rigoroso e ressalta a preparação, estratégia, tático e ação.

Porém, o educador afirma que as dificuldades são muitas já que não há quase nenhum incentivo. Ele diz que os alunos precisam de aparelhos tecnológicos e computadores mais avançados, os quais exigem mais gastos. Josué conta que o projeto não tem nenhum patrocinador, mas que estão abertos para parcerias, dando visibilidade devida para quem se comprometer.

Hoje, a seleção dos atletas que integram a equipe, contam com várias localidades de Porto Seguro, então há atletas que se destacam em todas as áreas. As principais são: Paraguai, Baianão, Vera Cruz Campinho, Arraial d’Ajuda e Trancoso. O professor quer fazer história levando o nome de Porto Seguro em frente no mundo do E-sport, e visa afastar os jovens das zonas de criminalidade e até mesmo abusos sexuais que possam vim sofrer.

Um aluno da rede pública não estava se adaptando às novas metodologias de ensino pós pandemia. Entretanto, através do jogo eu comecei a acompanhá-lo de perto, sendo assim, ele que havia desistido dos estudos e eu através do projeto o trouxe de volta para as atividades escolares e como ele tem muitos outros meninos que querem desistir devido esse método de aula remota, cabe a nós como sociedade civil criar mecanismos que possibilite o estímulo dos alunos. — cita o professor.

Em outra situação, o professor diz:

Um jovem do projeto que tem histórico de familiares e outras pessoas envolvidas no tráfico de drogas, atráves do projeto viu uma nova possiblidade de vencer.

O Projeto casa bem, pois, os jovens querem fazer parte do projeto, então utilizamos dessa vontade para obter acompanhamento melhor na educação, finaliza o professor, dando ainda mais ênfase na importância do projeto que vem salvando e incentivando os alunos em tempos tão difíceis de pandemia.

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