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Um ano dos 63 mil pontos: a trajetória do Ibovespa desde a mínima durante a pandemia e o que esperar daqui para frente

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Depois do rali dos bancos centrais e das vacinas, a Bolsa enfrenta os desafios da incerteza política, mas há quem defenda um “otimismo cauteloso”

SÃO PAULO – O Ibovespa completa nesta terça-feira (23) um ano desde que atingiu sua mínima no crash do coronavírus, batendo 62.161 pontos – terminou a sessão em 63.569 pontos. Na época, a Bolsa passava por uma sequência de circuit breakers, no auge do pânico com a pandemia.

Desde então, o principal índice da B3 teve uma forte recuperação e no fechamento de ontem (22), aos 114.978 pontos, estava 80,8% acima do nível de um ano antes.

Na opinião de Roberto Attuch, CEO da Ohmresearch, essa recuperação da Bolsa seguiu as três etapas da retomada nos mercados globais posterior ao auge do pânico em torno da Covid-19.

“A primeira fase veio do aumento da liquidez no mundo todo pela atuação dos bancos centrais. A partir de novembro, começou a segunda fase com a divulgação de testes satisfatórios das vacinas da Pfizer e a eleição de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos. Depois veio a terceira fase em 6 de janeiro com o fim do consenso sobre o dólar se depreciando em relação às moedas globais devido à vitória democrata”, lembra Attuch.

Para o futuro, o especialista não espera uma grande valorização da Bolsa por aqui como ocorreu antes. Isso porque diversos fatores de risco que não existiam em dezembro do ano passado entraram no horizonte dos investidores.

O principal, de acordo com Attuch, é a antecipação do debate eleitoral de 2022 agora que está quase certa uma polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva para o ano que vem, que ganhou força após o ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, de anular as condenações do petista no âmbito da Operação Lava-Jato, colocando-se de volta ao jogo eleitoral.

“Estou no campo dos analistas que acreditam que isso forçará o governo atual a ficar mais populista”, destaca o estrategista, para quem as duas grandes questões a se monitorar de hoje em diante são como será a busca por popularidade do governo e como o Brasil lidará com o recrudescimento da pandemia de coronavírus.

“No curto prazo é difícil que a Bolsa suba muito a menos que haja uma surpresa no avanço da vacinação seguida por uma queda no ritmo de contágios”, prevê.

Já Bruno Marques, gestor de fundos multimercados da XP Asset Management, diz estar cautelosamente otimista com a Bolsa. Citando Henrique Bredda, gestor da Alaska, Marques destaca que “descrença leva a desconto” e é isso que ocorre no mercado brasileiro hoje.

“Do final de 2019 para cá, dá para ver que o Ibovespa teve uma recuperação parcial no máximo. Estamos parados há um ano e meio, enquanto as bolsas americanas sobem 25% em relação ao nível do fim do ano retrasado”, ressalta.

Se a comparação do Ibovespa com o S&P 500 parece injusta por diversos fatores como a diferença do ambiente fiscal no Brasil e nos EUA, a análise do histórico do valuation (valor justo de mercado de uma firma baseado na projeção de fluxo de caixa descontado) das empresas do índice também aponta para interpretações de que a Bolsa está barata por aqui.

“A projeção do lucro por ação das companhias do Ibovespa está muito maior do que em 2019. Se as empresas brasileiras entregarem pelo menos o resultado esperado pelo mercado então a Bolsa está muito barata”, comenta.

Uma outra razão para se estar otimista, de acordo com o gestor da XP, é que a despeito do noticiário negativo por causa da desorganização política, a questão das vacinas está bem encaminhada no País. “A previsão da XP é de que entre o final de maio e meados de junho vacinemos 100% da população de grupos de risco e de que até outubro tenhamos vacinado 80% de todas as pessoas que precisam ser imunizadas.”

Já em relação aos riscos, Bruno Marques enxerga a desorganização política durante as próximas semanas como o maior perigo para quem tem uma visão construtiva na renda variável. “Serão semanas muito duras, com sinais de falência do sistema de saúde no Brasil inteiro, o que pode levar a consequências imprevisíveis”, diz.

Todavia, Marques argumenta que não vê tanto risco associado à polarização quanto a maior parte dos especialistas do mercado. “A maior parte das eleições no Brasil foram ganhas quando um candidato de extremo conseguiu conquistar o eleitor moderado. Espero que tanto o Lula quanto o Bolsonaro apresentem discursos mais moderados até 2022.”

Todavia, o gestor deixa claro que seu cenário-base otimista não quer dizer que as coisas não possam piorar. “O descrédito leva a desconto, porém não é sem razão que os investidores estrangeiros têm medo do Brasil. Nós temos um longo histórico de decepcionar os mais otimistas”, conclui.

Leia também: Brasil perde espaço e ações mexicanas atraem apostas na América Latina

Neste sentido, vale ressaltar que diversos grandes bancos estão reduzindo a sua exposição no país em seu portfólio na América Latina. com outros países ganhando atratividade. Dentre as instituições, estão o JPMorgan, o Credit Suisse e grandes gestoras de ativos como a Schroders.

Entre os motivos para a redução da exposição em ações brasileiras, a incerteza política crescente e dúvidas sobre o ritmo da recuperação econômica.

Pesquisa realizada pelo Bank ok America (BofA) entre os dias 8 e 12 de março com 25 gestores de recursos mostra que 20% esperam que o Ibovespa encerre o ano acima dos 130 mil pontos. No mês passado, esse percentual estava em 54%.

Já a parcela dos consultados, que são responsáveis por US$ 86 bilhões sob gestão, que veem o benchmark da bolsa fechando o ano entre 120 mil e 130 mil pontos passou da casa dos 20% para mais de 30% dos entrevistados. O levantamento revela ainda que a maioria dos respondentes acredita que o mercado de ações brasileiro terá um desempenho pior do que outras classes de ativos da região.

Histórico: como chegamos até aqui

Depois de marcar seu fundo perto dos 63 mil pontos, o benchmark teve uma caminhada praticamente em linha reta até os 100 mil pontos, recuperados em 10 de julho, dia em que o Ibovespa fechou nos 100.031 pontos.

Essa melhora no desempenho do índice foi impulsionada pelos estímulos monetários e fiscais adotados por países do mundo todo e também pelas perspectivas de desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19. O índice atingiu em 29 de julho os 105.703 pontos – fechou em 105.605 pontos – encerrando a primeira etapa do rali de recuperação.

A partir daí, a Bolsa no Brasil não conseguiu mais acompanhar a disparada registrada pelos mercados internacionais. A grande virada ocorreu no dia 11 de agosto, quando os secretários especiais de Desestatização e Privatização, Salim Mattar, e o de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel, pediram demissão do Ministério da Economia.

O que foi chamado na mídia como “debandada” da equipe econômica liberal do governo acabou gerando temores de que a gestão Bolsonaro não fosse capaz de aprovar reformas que promovam o ajuste fiscal e garantam a capacidade do Tesouro de pagar suas obrigações com investidores.

Foram meses de incerteza até que o capital estrangeiro trouxe o benchmark de volta a patamares acima dos 100 mil pontos. O Ibovespa retornou ao patamar psicológico em 20 de outubro, quando subiu 1,91% a 100.539 pontos.

Esse retorno dos estrangeiros, segundo Roberto Indech, estrategista-chefe da Clear Corretora, está ligado à redução das incertezas no noticiário internacional, uma vez que passaram as eleições presidenciais dos EUA, e ao início da vacinação com os imunizantes da Pfizer/BioNTech e da Moderna.

O mês de novembro foi uma grande demonstração disso. A entrada de investimento dos estrangeiros na B3 bateu R$ 31,46 bilhões, o recorde desde o início da série histórica iniciada em 1995. Isso resultou em uma valorização de 15,9% no índice naquele mês, alcançando 108.893 pontos.

Já em dezembro o Ibovespa teve um fluxo positivo de R$ 19,74 bilhões, o segundo maior aporte mensal da história. A alta do benchmark no mês foi de 9,3% e o índice encerrou 2020 cotado a 119.017 pontos, um ganho de 2,92% em relação ao nível do final de 2019.

No começo de janeiro, o Ibovespa indicou que seguiria nessa toada, atingindo sua máxima histórica no dia 8, quando a Bolsa atingiu sua máxima histórica aos 125.323 pontos – fechando em 125.076 pontos. Da mínima do fechamento de 23 de março do ano passado esse rali até os 125 mil pontos em 8 de janeiro representa uma valorização de 96,76%.

Do dia 19 ao dia 27, entretanto, o benchmark caiu por seis pregões consecutivos diante das notícias de que o presidente Jair Bolsonaro poderia pressionar pela prorrogação do auxílio emergencial por conta da queda na sua popularidade captada em pesquisas eleitorais.

Bolsonaro voltou a causar preocupações no mercado no dia 19 de fevereiro, quando demitiu o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, por discordar dos reajustes promovidos nos preços de combustíveis.

O Ibovespa despencou 4,87% (maior queda desde 24 de abril, quando a Bolsa caiu 5,45%) no pregão seguinte e o temor de uma guinada populista no governo se materializou em uma exigência de prêmio de risco maior sobre as ações brasileiras. A mínima de fechamento da Bolsa no ano foi em 26 de fevereiro, data na qual o benchmark terminou o pregão em 110.035 pontos.

Mal o investidor havia se recuperado deste baque e a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Edson Fachin, de anular todas as condenações do ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato trouxe mais polarização e incerteza política para o cenário. Naquela segunda-feira, 8 de março, o principal índice acionário da B3 desabou 3,98% a 110.611 pontos.

Desde então, o Ibovespa registrou alguma recuperação, que foi limitada pelo rali nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA com vencimento em 10 anos. Esses ativos, considerados os mais seguros do mundo, dispararam a seus maiores níveis desde o início de 2020 (antes da pandemia), retirando atratividade da renda variável e aumentando o custo de capital de empresas com o fluxo de caixa mais longo (caso das big techs americanas).

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Economia

Por que o dólar ‘emperrou’ nos R$ 5 e o que o impede de cair mais?

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Especial CNN – Depois de cair 14% em três meses, taxa de câmbio está presa há duas semanas na cotação entre R$ 5 e R$ 5,10, e hesita em passar para a faixa dos R$ 4

Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo

Desde quando voltou a bater impressionantes R$ 5,88, no início de março, o dólar engatou numa ladeira que o derrubou em poucos meses até os R$ 5,03 de seu fechamento nesta quinta-feira (17). A queda desde o pico foi de 14%.

É o menor valor e também o mais próximo do piso dos R$ 5 desde a última vez em que a moeda norte-americana viu a cara dos R$ 4, em 10 de junho do ano passado, quando fechou valendo R$ 4,94 para depois subir e nunca mais voltar.  

Já faz, no entanto, duas semanas que a cotação do dólar cruzou para menos dos R$ 5,10 pela primeira vez em 2021, e aí parou. No pregão da quarta-feira, ela até chegou a ficar por um instante nos R$ 4,98, mas foi de novo trazida para cima dos R$ 5 depois que o banco central dos Estados Unidos abalou os mercados ao dizer que pode subir seus juros antes do previsto. 

Há duas semanas na cotação entre R$ 5 e R$ 5,10

É como se o dólar estivesse preso numa armadilha psicológica entre o R$ 5 e o R$ 5,10 que o impede de finalmente cruzar a linha e começar a testar novos territórios na casa dos R$ 4, abrindo o caminho para que possa voltar aos patamares em que era negociado antes da pandemia. No início de 2020, o dólar era cotado na faixa de R$ 4. 

É uma barreira bastante similar à que parece estar prendendo o Ibovespa, o principal índice acionário da bolsa brasileira, que, depois de bater uma série de recordes sucessivos e chegar aos 130 mil pontos pela primeira vez de sua história, pareceu desistir e fica agora flutuando em pequenas oscilações para baixo disso. 

O dólar é conhecido por ser o indicador mais traiçoeiro que existe: como varia a cada segundo e por qualquer coisa, os economista já sabem que fazer projeções para ele é garantia de erro. Ainda assim, acompanhar sua tendência é ter um importante termômetro de como está a economia doméstica em relação ao restante do mundo. 

130 mil pontos pela primeira vez de sua história, pareceu desistir e fica agora flutuando em pequenas oscilações para baixo disso. 

Economia mais fortes e juros mais atrativos

Significativa melhora tanto nas perspectivas para o PIB do Brasil quanto para o seu resultado fiscal, com uma dívida que não deve mais ficar tão pesada quanto se chegou a imaginar após os gastos vultosos da pandemia, são os principais fatores que ajudaram a virar a chave do dólar nos últimos meses e empurrá-lo ladeira abaixo até o chão dos R$ 5.

Os aumentos fortes já feitos pelo Banco Central na taxa básica de juros do país desde março também entram na conta, já que juros mais altos ajudam a atrair investidores para os títulos domésticos.

Com essa mudança de cenário, já há os primeiros que falam em um dólar que pode se firmar em breve em algum novo lugar abaixo dos R$ 4 – a corretora Genial Investimentos, por exemplo, diz em relatório recente que a moeda pode seguir caindo até os R$ 4,60 até o final deste ano, caso não haja nenhuma grande nova reviravolta no Brasil ou no mundo. 

“A menos que o Fed [Federal Reserve, banco central americano] decida começar a reduzir as compras de ativos financeiros no mercado antes do esperado, o que parece pouco provável, a valorização do real deverá persistir, podendo atingir um nível próximo a R$ 4,60 no final de 2021”, escreveram os analistas da corretora.

Para outros, porém, o mais provável é que o dólar continue estacionado nesta barreira dos R$ 5, podendo eventualmente passar temporadas de alguns dias abaixo disso, mas sempre voltando para a parte de cima depois. 

“Os problemas estruturais fiscais do país ainda estão aí; os auxílios emergenciais, que ajudaram a segurar o PIB, causaram um rombo muito grande nas contas”, diz Fernando Bergallo, diretor da operadora de câmbio FB Capital. “Esse dólar só rompe a barreira dos R$ 5 e vem para R$ 4,70 ou R$ 4,80 com as reformas andando.”

valorização do real deverá persistir, podendo atingir um nível próximo a R$ 4,60 no final de 2021

Na dependência dos EUA

“Estamos hoje melhor do que estávamos pouco tempo atrás para passar pelos riscos externos”, disse  a economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico. 

“Mas não consigo enxergar o dólar consistentemente abaixo dos R$ 5, ficando em R$ 4,70 ou R$ 4,50, por exemplo. Ele deve continuar flutuando ao redor desses R$ 5 ou R$ 5,10, porque, quando começar a discussão a respeito do ‘tapering’ [redução dos estímulos] nos Estados Unidos, será um cenário desfavorável para os países emergentes.”

O “tapering”, ou “estreitamento” em inglês, é o nome dos economistas para a retirada gradual dos estímulos extraordinários que o banco central norte-americano, o Fed, passou a injetar no ano passado, no auge da pandemia. São bilhões de dólares vertidos todos os meses sobre a economia em compra de títulos do mercado financeiro, o que garante que o dinheiro e o apetite dos investidores continuem girando.  

Como, porém, tanto a economia quando a inflação dos EUA já estão andando muito mais forte do que o imaginado, a expectativa é que esse megapacote de incentivos do Fed comece a ser enxugado em algum momento do segundo semestre. E um dos resultados inevitáveis disso é a redução desse apetite do dinheiro global por ativos de risco, fazendo com que países emergentes percam capitais enquanto o dólar volta a se fortalecer em relação a suas moedas. 

A projeção da Armor Capital é de um dólar a R$ 5,30 ao final de 2021. No Boletim Focus, relatório semanal do Banco Central com projeções feitas por mais de 100 bancos e consultorias, a expectativa média está em R$ 5,18, o que significa ainda um aumento em relação aos patamares de hoje. Ainda assim, já é uma forte revisão em relação a semanas anteriores, quando esse número estava em R$ 5,30.

Especial CNN Brasil

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